domingo, 1 de dezembro de 2019

ULTIMA IDA A HEIDENHEIM








                                   ULTIMA IDA A HEIDENHEIM


                                                                       I


Breve apontamento:

- Aeroporto de Memmingen, Munique, vinte e seis de Maio de dois mil e onze, quinta-feira, cerca das vinte e uma horas!

Era a primeira vez que a chegada naquele aeroporto, a cerca de quarenta quilómetros de Heidenheim e a mais de cem de Munique, por estranho que pareça era a Munique que o aeroporto servia!

Esperavam-me a Susana e o Boris!

Como era hora de jantar e os restaurantes estavam fechados, foi num Mac Donald’s de uma pequena localidade de que não fixei o nome e rumámos a Heidenheim.

Assim se inicia a quinta viagem à Alemanha, a primeira a Berlin e as quatro últimas a Heidenheim.

- Digo, de difícil localização e origem, parecia pairar na noite mal iluminada das duas povoações onde parámos, para tentar comer.

Devia ser da devido à descompressão da cabine do avião.

- Segundo dia, vinte e sete, sexta-feira:

O Boris completaria quarenta e quatro anos; a festa estava programada para sábado, com churrasco à Boris, no terraço.

O casal, amigo do casal SB, que eu conhecera em Pera, no Algarve, no passado ano, só a Ângela estaria no churrasco, o marido iria para a China, em trabalho. Por isso fomos jantar, os cinco, num dos mais que muitos restaurantes de Heidenheim. 


- Terceiro dia, vinte e oito, sábado! O dia da grande farra!

A chegada dos convidados, vinte e quatro, estava prevista para as dezasseis horas e a pontualidade foi quase “britânica”, como há anos se dizia e deixou de ser usado desde que o Big Ben teve uma pane na engrenagem; ou seja, a pontualidade era do mais mostrado relógio do mundo, mas nem tanto dos súbditos de Sua Majestade! Ali, a pontualidade, era germânica, neste caso para dar pasto à gula.

Alguns eu já conhecia: o casal brasileiro, C e O e a amiga que no ano anterior me “salvou” em Albufeira e que o esposo tinha ido para a China; a Gi e o Filipo. Os restantes, uns familiares do Boris e outros colegas de trabalho ou da “salsa”.

Foi muito bom e até teve, quase no final, uma surpresa: uma mostra de dança do ventre, executada por uma professora de dança de salão. Antes, o baile, foi mais uma de salsa e outras danças.

No ar continuava uma camada densa, daquele tipo que faz prever ou antecede uma trovoada sem raios e sem trovões.

O casal brasileiro dormiu lá em casa, assim como a Gi e o Filipo. Eu mudei para o espaço no final da escadaria, de que gostei muito! Tem só uma parede que é a da casa de banho que serve o piso mais perto do céu. O resto era um varandim que dava para a escada e para a porta do quarto dos S e B.


- Quarto dia, domingo, vinte e nove:

A Gi e o Filipo, regressaram a Berlin e já antes tinha voltado para sua casa, o casal brasileiro, C e O, sempre divertido.

O jantar teve a participação e demonstração de novidade gastronómica da Ang..Sem ser muito claro o “clima” era aceitável.


- Quinto dia, 2ª feira, dia 30/5

Sem grandes novidades durante o dia, no final a atmosfera ficou mais densa, mas a causa, se causa havia, eu não a conhecia, era mais uma sensação, que poderia ser atmosférica. A Ang. foi jantar connosco, não devia estar muito habituada a estar só e aproveitava.


- Sexto dia, 3ª feira, dia 31/5

Ainda atribui a sensação, que persistia, ao cansaço da Su, por me ter cruzado com ela, a sair do escritório do Boris, no piso de cima e com ar de quem se tinha acabado de levantar!
Alguém foi expulso da barraca, esta noite? Em tom de brincadeira, só podia!

- O B estava a “roncar” alto e eu raspei-me para dormir um bocado! Respondeu.

O dia decorreu sem nada de especial, só alterada pela presença da Ang. Amizades são assim, um amigo mais nunca é demais, mas também cansam, quando demasiado presentes!

- Sétimo dia. 4ª feira, dia 1/06

Era dia de salsa, ou melhor, noite. Jantar e de seguida até à margem do Brenz, com Ang.

 Dançavam todos com todos, mas alguns todos mais que todos; a conclusão a que cheguei era a de que, quem estava mais atrasado, procurava salsar com que melhor salsasse. O professor iniciava sempre a aula com um pequeno aquecimento de dança já aprendida e depois ensaiava mais uns novos passos que os aprendizes iam ensaiando.

Eram, como disse, os que mais sabiam os mais procurados pelos que sabiam menos; um casal jovem não dançavam a não ser um com outro e um par de mulheres, já entradotas, também não cediam o lugar a mais ninguém!

O professor, além de apreciar e corrigir, dava também sugestões sobre com quem deviam dançar melhor. Uma vez que é o homem quem deve conduzir.

À Su não faltavam pares com quem dançar e como alguns pareciam mais hábeis, ela aproveitava para melhorar! A Ang. iniciada no sábado á noite, parecia ter jeito e aprendia depressa, disso se encarregando o BB, uma vez que ela não conhecia mais do que o casal e o professor, e outro casal, que tinham estado no churrasco de sábado.

Era um ambiente descontraído, até agradável para muitos dos frequentadores.

- Oitavo dia, 2/6 – 5ª feira

Feriado e inicio de ponte até 2ª feira.

A Su, alegando querer ver um programa de televisão de que só ela gostava, levou o televisor que esta no meu aposento e deixou um papel na minha cama a dizer isso mesmo! Passou de um estremo do corredor para o outro, para o espaço designado por escritório de BB,

Quando me levantei já o pessoal girava na sala, a preparar o primeiro almoço; quando passava em frente à porta do escritório, a porta estava entreaberta e o sofá-cama aberto e com aspeto de ter sido usado.

O silêncio entre o casal mantinha-se e eu não gostava de quebrar silêncios, por ter pelos meus um respeito muito grande.

No domingo anterior tivemos a nossa “discussão” por causa das eleições em Portugal e a questão ideológica; como era costume nunca chegávamos a acordo e abandonei o assunto por estéril. Já outras vezes temos tido o nosso desaguisado e algumas vezes esqueço que gosto de a chatear e ela a mim ainda mais. Sinto-me mais amigo nessas alturas e já tenho manifestado sentir saudades desses momentos.


- Nono dia – 6ª feira, 3 de Junho

A Su foi trabalhar; para ela não era feriado; eu e o Boris ficámos em casa.

Tomámos o pequeno almoço e fomos a casa da Ang, duas ruas abaixo. Comemos uns doces que ela fazia bem, mostrou-me a casa, de que gostei muito, sobretudo de alguns pormenores do andar de cima, revelavam bom gosto e tendiam para a sedução, sobretudo a casa de banho.
Entrámos na garagem onde estavam 2 bicicletas com aspeto de pouco uso e devia tratar-se de algum negócio, mas que não percebi, por falarem só alemão.

De seguida fomos ao Super e dali para umas bombas de gasolina
 onde atestou e meteu o carro a lavar.

Falou-me na vontade da Su comprar casa ou apartamento em Portugal, tendo já reiniciado a pesquisa pelas imobiliárias.

A habitação em Portugal só se fosse para ela viver, uma vez que ele teria que continuar na Alemanha. Em Berlim tinham o apartamento alugado e o da Gi ia ter de o ser também, agora que ela deixa de o usar, por estar já a trabalhar; e mais não entendi.

No espaço de tempo em que o BB pagava, telefonou a Su a perguntar se estava tudo bem. Tudo de “vento em popa” tendo em conta a explicação do termo que fiz ao BB na véspera. De seguida ele foi para o ginásio e eu, para não estar aquele tempo à espera, disse-lhe que ia dar uma volta por aquele lado da cidade e fui beber uma Cuba Livre, celebrando o 3 de Junho de 2003.

Já em casa, todos.

Quando estávamos a falar do entusiasmo da Su em comprar em Portugal, o BB, naquela sua voz arrastada, perguntou, a brincar: José, vamos comprar um terreno com oliveiras ou um monte com ovelhas? Ri, sem grande vontade, por me parecer que estava a meter-se com a Su.
A certa altura, ainda cedo, a Su subiu ao piso de cima e fechou a porta do escritório onde tinha dormido na noite anterior.

Ainda ficámos a ver televisão, mas foi só até ele ver as noticias num dos canais. Bebemos um Porto e fomos cada um para seu lado, ele para o seu quarto e eu para o meu. Gosto de dizer meu quarto por achar divertido ser um sem-abrigo com quarto em HdH. Germany. Lembro-me sempre daquela anedota do sem abrigo, a dormir num dos bancos da Avenida da Liberdade, interpelado pelo policia de giro, que lhe fez aquelas perguntas de policia: qual o seu nome, o que faz e quando perguntou a morada o sem abrigo respondeu:

“ sem quarto na avenida e por baixo de mim mora outro!” e ria ao ver o guarda e fazer um esforço imenso para perceber aquela morada!

Décimo dia, sábado, 04/06:

Desci só depois de a porta do escritório estar aberta e perceber que já não havia movimento lá dentro,

Tomámos o pequeno almoço juntos, arrumámos a loiça e os componentes no frigorifico e o BB pegou no PC e começou a trabalhar; algum tempo depois levantou-se e dizendo que tinha de ir para a Voith por lhe faltarem dados que só lá os teria, meteu-se no carro e saíu.
Quase de imediato a Su perguntou-me: Vamos para Berlin?

No teu carro? Perguntei!

Fazeres esta distância toda não será cansativo demais? Retorqui?

Então vamos para o Lux.!? Propôs/informou!

Sempre é mais perto, disse.

- Vá preparar o que levar para lá ficarmos!

Sempre gostei de surpresas e vindas da Su gosto mais ainda. Enquanto fui ao piso de cima e desci, a Su escreveu,numa folha A 4 dobrada, uma mensagem para o BB, que deixou em cima da mesa, escrita em alemão e sublinhando uma parte do texto, descemos e partimos.
Reparei que ela e eu olhámos para o pequeno largo onde o casal AW morava.

Atestámos o WW, alimentou de estradas o GPS e partimos em direção à fronteira.

A base de suporte do GPS estava avariada e eu o levaria nas mãos ou apoiado nas pernas, voltado para a Su! Ao mais pequeno safanão ou distração ou impulso, apagava-se tudo  e lá vinha a reprimenda: como era ?! Que vontade de me-o esmurrar. Esta cena repetiu-se várias vezes e sempre levei que contar!

Apanhámos, uma bruta trovoada logo à saída de HdH e outra, ou a mesma, uns quilómetros antes da fronteira com o Lux, a ponto de ser impossível transitar, ou quase, pois foram minutos vários a passo de caracol.

Cerca de 2 horas andadas o tel. da Su tocou; olhou, viu quem era e não atendeu, monologando se não sabia que estávamos na autoestrada! Voltou a tocar e a atitude foi igual. De seguida tocou o meu: é o Boris, não atenda, eu depois mando SMS quando chegarmos ao Lux.

Quase de seguida o tel. Da Su tocou e ela atendeu e apercebi-me que era a Cin que na véspera ou antevéspera tinha caído da bik e partido um pé. Não percebi do que falaram, mas deu para perceber que era tema já antes ventilado, entre ambas.

A Su explicou que tinha deixado um papel a dizer para onde ia e não sabia o tempo que ia ficar.

Estava i
rritada e implicativa, acabando por lhe perguntar se estava cansada ou chateada ou as duas coisas.

- Olhe, não sei, mas sei que vai passar, respondeu.

Já no Lux nova trovoada, ainda mais violenta! A Ter não estava a contar connosco e estava numa sardinhada com amigas e nós ficámos, dormindo lá em casa: a Su, no quarto da Ter. E eu na sala, num colchão de praia.

De manhã tudo estava resolvido e depois de tomado o PA a Su foi comprar umas coisas num minimercado de um português, tendo eu ficado no largo, a tomar conta do Baxi, que conhecia bem o espaço! Foi andando, a trote, cheirando, levantando a perna e mijando, esgueirando-se por um caminho, paralelo ao Largo; como não tínhamos marcado local e hora de encontro, deixei o Báxi à vontade e eu só o seguia.

Acabámos por nos desencontrar e só não houve reprimenda não sei porquê, mas queixou-se de que tinha andado a procurar-me, quando estávamos bem perto uns dos outros.

Voltámos a HdH e agora sim, o namoro ficou mais aceso e ousado.

Décimo dia-Era domingo ! E dia de eleições em Portuga!

Dia 5/6.

Com o casal em plena “lua de mel”, fomos visitar uma cidade, de que não anotei o nome e preparar-nos para o churrasco do dia seguinte.
A Lena comunicou os resultados eleitorais e a Su teve outra oportunidade para atacar a ignorância politica e acomodação dos portugueses.


Décimo primeiro dia - Segunda-feira, 6/6 –
O churrasco correu bem e tudo voltou à rotina anterior; só o casal, ele sobretudo, tentava deixar bem vincado que as dúvidas, se dúvidas houve, estavam longe e para sempre! Amen !

Décimo segundo dia – sem registo e seguintes também !

Domingo, 12/06 –

Com o casal, Andreas/Eva, fomos visitar um dos palácios de um senhor feudal, onde está guardada a maior coleção europeia de armas de caça e de batalha e acessórios, existente na Europa Central!

Como há cópias em miniatura das espadas, foi ali que comprei a espada para o Mateus!

2ª feira, dia 20/06

De relevante só o almoço no chinês, com a Su, tal como no dia a seguir à minha chegada!

3ª feira, dia 21/06

Regresso a Portugal.


Foram ao Supermercado e, ali, como durante a viagem e depois na gare, a Su perguntava? 

Você não se esqueceu de nada? E ainda hoje não sei se esqueci ou não de algo. Mas ela sabe. Como o bloco-notas de capa roxa “desapareceu”, ainda lhe perguntei se teria sido esse o esquecimento.

Apareceu, no dia seguinte, junto com os boxers na gaveta

Só resta uma suspeita, mas não a registei! Fica pendente, pode ser que me recorde ou que a Su me diga!

Assim tem sido a minha vida de vagabundo, sem abrigo e com um pendor miserabilista!
Prometi, no dia das eleições, que não voltaria a sair de Portugal, enquanto o seu bom nome não for reposto!


Nota final, acrescentada hoje, dia 19/07/17- quando terminei a digitalização!

A minha máquina orgânica deu a ajuda que precisava, anunciada a 29 de Fevereiro de 2012: o linfoma mobilizador!


José Monteiro


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