domingo, 1 de dezembro de 2019

VISITA A ROTHEMBURG









                                   VISITA A ROTHENBURG


                                                            I


Rothenburg, beleza gelada!

O nome da cidade, se a memória me não atraiçoa, surgiu ainda antes da minha partida para a Alemanha, pela quarta vez, a primeira directamente a Berlim, para celebrar os quarenta anos da Susana e as três seguintes para Heidenheim, onde passaram a residir, devido à mudança de trabalho do Boris.
Heidenheim é a cidade de residência oficial da Susana e do Boris, vindos de Berlim, há anos, onde a Gui ficou, em guerra decidida e decisiva com as coisas da História e da Filosofia, quase na ponta final da batalha.
Associada ao nome da cidade – Rothenburg – vinha sempre o elogio da sua medieval beleza, comprovada pela visita, há algum tempo feita, pelo Boris e a Teresa, esta a amiga do coração da Susana, de há muitos anos, trabalhando e residindo no Luxemburgo e que terão ficado impressionados com a cidade.
A visita deste ano à Alemanha, melhor dizendo, à Su e ao Bó, foi de vinte e um dias; a Su queria que fosse um mês, mas não dava para enquadrar no plano de férias do corrente ano, uma vez que são sempre divididas em dois períodos: o de Verão, que no meu caso foi Fevereiro e o de fim de ano, de modo a incluir a véspera e dia de Natal e passagem de ano, período em que a Residencial fecha; raramente são quinze dias, mas para efeitos de plano em nada altera as férias.
Já em Heidenheim há duas semanas, fui-me apercebendo de que a Su deve ter atropelado uma boa parte das suas férias para me prestar mais atenção, fazendo vista grossa e ouvidos moucos, à minha constante preocupação: não perturbes nada da tua vida pelo facto de eu estar em Heidenheim e ficar só durante o dia.
Vai sempre dizendo que não altera nada e depois é o que se vê: semanas quase inteiras, sem ir trabalhar!
Se outra viagem vier a fazer, a vontade expressa dela era eu ir todos os meses, terei de aplicar a regra da minha progenitora, para este e todos os casos: " primeiro as obrigações e depois as devoções", aplicando-a à teimosia da Su. Mas duvido que alguma vez ela a aceite linearmente; o mais natural é que faça ainda pior, pois que regras para ela só as que ela mesmo vai estabelecendo e alterando como entende. O mais certo seria ouvir uma sonora gargalhada, aquela gargalhada desconjuntada e "sem vergonha", de que tanto gosto e ouvi-la dizer que, sim senhor, mas de seguida fazer tudo ao contrário.
É impossível negociar com ela, seja o que for! E não é de agora: deve ser mais velha do que a sua própria idade. 
A verdade é que este bem vincado zelo comigo, me preocupa verdadeiramente: e agora mais, com a crise instalada por esse mundo, que já se não poderá, com convicção, apelidar de mundo de deus, mas se de deus é, deve ser um deus caótico, em final de carreira! A crise, que não classifico, como fazem os tarefeiros do costume e outros mais novos que constantemente dão palpites em tudo o que seja comunicação social, não poucas vezes negando o que na véspera ou horas antes afirmaram, para logo de seguida voltarem a afirmar o que acabaram de negar; penso que, velhos e novos, tratantes todos, como todos são beneficiados pelas crises artificiais e a maioria é que tem de aguentar o pesadelo que só eles foram elaborando e alguns planeando.

                                                                       II

Por várias vezes, ao fim do dia, quando chegava a casa, naquele tom de "como quem não quer a coisa", o Bó perguntava se já tínhamos ido a Rothemburg, ao mesmo tempo que pegava num aperitivo e se sentava frente ao seu portátil, teclando com uma das mãos e a outra segurava a batata frita ou outro qualquer aperitivo seco e já distante ouvia a Su fazer uma súmula do que fizemos durante o dia, mas nos ouvidos dele já havia a guerra de palavras a entrar com números que procuravam sair e que os tímpanos baralhavam à mistura com o estalido exterior da batata frita com sabor a presunto.
A Su, anunciante e publicitária da cidade, parecia não manifestar, nem especial entusiasmo e nem pressa em mostrar o produto. Algo parecia andar no ar a perturbar o plano por ela esboçado, mas isso devia ter a ver com os ambiciosos planos iniciais, tais como irmos a Berlin ver a Gui e ao Luxemburgo ver a Teresa, ambos dependentes da disponibilidade do Bó, cada vez mais atolado em trabalho, que em breve teria que apresentar e defender, espécie de tese académica e de cujo resultado dependeria a sua melhoria em termos hierárquico-profissionais na empresa, pois na Alemanha a avaliação é levada a sério.
Nunca me apercebi de que projecto se tratava, nem me parecia estranho que dele não falasse, mas a forma como ele se aplicava, devia ser coisa de vulto ou de aplicado estudo.

                                                                       III

Na última semana, penso que na quarta-feira, a Su anunciou que iríamos no dia seguinte à celebrada Rothenburg.
Talvez porque, no sábado, eu teria que partir, bem cedo, para Portugal e na sexta-feira, dia em que o Bóris chegava da Áustria, tínhamos combinado jantar no restaurante, para celebrar os meus setenta anos de vida; de idade não, são coisas diferentes, embora nesse dia, dois de Março, já estaria em Portugal.
E, assim, na quinta-feira, pelas dez e meia ou mais perto das onze, no "boguinhas" da Susana, um VW moderno, mas copiado do "carocha"original, com vidros "manivelados" e um painel um pouco mais sofisticado do que o daquele que fez furor pelo mundo, logo a seguir ao pós guerra, lá partimos com destino à Rothen…
Introduziu os dados no GPS móvel, como outras vezes fizera e arrancámos, já com a neve a derreter em Heidenheim e a escorrer pelas ruas de mais acentuada inclinação, com uma temperatura a rondar os 6º C.
À saída de HdH, muito antes de chegarmos à estrada em que o GPS veio a dizer que devíamos voltar à direita, já a Susana protestava: " mas que merda! Então esta porra não avisa que devíamos voltar aqui à direita?!E eu, feita parva, à espera da informação, confiante, não virei e, agora, estou mesmo a ver, vai-me fazer dar uma volta enorme, quando devíamos ter voltado lá atrás. É sempre a mesma coisa, prometo que o não vou ligar, mas para ir mais tranquila a conduzir, acabo por ligá-lo e depois é isto!"
E eu a tentar perceber se ela estava mesmo chateada ou se era só para refilar com o aparelho, que não ligava ao que ela dizia, só dava sentenças e isto parecia exasperá-la! Não, estava mesmo danada; notava-se.
Demos voltas e mais voltas, subimos uma montanha lá bem para o interior, tendo em conta a via rápida que deixámos quando à direita virámos, para depois a descermos, em sentido contrário e a Su a protestar:
- "Pronto, agora estamos a voltar para trás e vamos parar ao sitio da estrada onde já estaríamos há não sei quanto tempo, mas com mais de vinte quilómetros percorridos, sem necessidade!"
Tinha vindo a reparar, nestes vinte dias decorridos, como o tinha feito anteriormente, mas sem a atenção e percepção tão nítida como agora, que a Su continua a ter o mesmo e preocupação quanto à economia familiar, como o que revelara antes, na Marinha Grande, onde tudo era aproveitado até ao limite. Os rendimentos eram poucos e por isso pensei que tal atitude tivesse a ver com os recursos e que uma vez mais folgado em termos financeiros, o seu rigor seria mais descuidado. Não o foi, bem pelo contrário, tudo é aproveitado do princípio ao fim, naturalmente e sem esforço, facilitada como está, a questão da alimentação, com o hábito alemão de a refeição da noite ser frugal, mais à base de "petiscos" e as sobras guardadas são uma solução prática, económica e nada cansativa: por vezes, basta aquecer.
Ainda eu às voltas mentais com as apreciações e comparações e eis que oiço a voz da minha companheira, cicerone, hospedeira e motorista privada, irritada, se sobrepõe à monocórdica voz do GPS para me alertar:
-" Agora vamos entrar na estrada principal e no ponto onde já teríamos passado há meia hora, caso não tivesse dado ouvidos a este merdoso do GPS e seguisse o trajecto que conhecia!"
Oh, miúda, não te chateies, não temos hora marcada e é um passeio e não um compromisso; até foi giro andar aí pelo meio dos campos!
Ainda estive para dizer que ela tinha comprado o GPS na loja do chinês, mas lembrei-me que lá não há lojas do chinês, só restaurantes e da forma como ela estava brava, ainda me desancava!
Todos os atrasos e contratempos irão ser compensados, quando lá chegarmos, pensava eu, e voltei atrás ao anúncio da visita e conclui que, afinal, não tinha sido só o Bóris e a Teresa como pensava, mas a Su também deve ter feito parte da visita com eles.
Mas que importância pode ter este pormenor?! Nenhuma. Ponto.

                                                                       IV

Pouco passava do meio-dia, com as temperaturas a subir e a descer, conforma subíamos ou descíamos em altitude, quando nos aproximámos da cidade.
A neve cobria os telhados e todos os espaços não utilizados pelas pessoas, isto fora da muralha, bem conservada, num tom castanho-escuro, que envolvia toda a cidade antiga, com seus torreões nas entradas e em outros pontos da muralha, a parte visível daquele lado por nós avistado e dela nos aproximávamos. A cidade nova, com ruas amplas e edifícios de dois pisos, não mais, estava fora da muralha. A neve cobria tudo, excepto a estrada principal, paralela à entrada da medieval cidade.
Agora temos que encontrar sitio onde parar, sem termos de pagar parqueamento, ia dizendo a Su, falando para ambos. Não foi difícil: do outro lado da avenida, junto a um jardim, todo de branco densamente vestido, mesmo aquilo que deviam ser árvores mais não aram do que esculturas, cujos ramos se dobravam ao peso do frio e pareciam procurar o tronco para se apoiarem e aconchegarem; tudo isto se passava em silêncio absoluto, certamente para se poder ouvir uma sinfonia que, sob o manto de neve era ensaiada, pela água que já estava a ser o que fora antes de ser neve. Era a sinfonia da água à procura do seu estado anterior, bem distante, certamente, passando pelas sarjetas que depois a deixavam chegar à rede de esgotos; a que sobrava descia em direcção ao rio, que não via, mas se adivinhava, onde a junção do relevo se aproximava, do lado esquerdo do portão, por onde, em breve iríamos entrar.
Quando saí do agradável calor do interior do "boguinhas" tive a sensação de que estava frio, como seria natural, mas nada mais que isso.
De blusão forrado vestido, botas impermeáveis e de rasto anti-derrapante, calças de algodão e colants, gorro de lã a cobrir as orelhas, sentia-me bem para aquele lugar.
A Su vestia o seu blusão laranja, impermeável e super-quente, segundo ela afirmava, comprado uns dias antes num outelet perto de Ulm, botas pretas, altas e impermeáveis, igualmente compradas no mesmo espaço, luvas, gorro e cachecol, máquina fotográfica a pender do braço, atravessámos a avenida em direcção à muralha, tendo que passar uma pequena ponte em madeira sobre uma vala, que devia acompanhar uma boa parte da muralha da cidade.
Mal passámos a pequena ponte, ladeada de arbustos tipo buxo, vestidos de branco, pareceu-me que tinha entrado numa câmara frigorífica, com as portas abertas e um vento gélido que percorria ao lado da muralha, vindo do lado direito e transportava mais neve a juntar e tornar mais densa a camada existente.
Algo de preocupante me pareceu ver na postura da Su: ombros arqueados para a frente a desenharem uma acentuada cifose que não tem, naturalmente, gola do blusão levantada e gorro todo desdobrado, tentando esconder as luvas nos sovacos, a parte visível do rosto a ficar lívida, onde nem a maquilhagem matinal resistia, entrámos pelo portão da cidade em passo acelerado, na esperança de que, pelo menos, o gélido vento ficasse fora da muralha e algum ficou; o ambiente, a vários graus negativos, ameaçava não só a visita, mas sobretudo os visitantes e sua capacidade física, incapacitando-os de resistir para continuarem! Não lho disse, mas nunca me arrependi tanto de ter iniciado a visita e sujeitá-la a um esforço daqueles.

                                                                       V

Até ao final visível da cidade, uns cento e cinquenta metros, viam-se edifícios com não sei quantos anos, duma arquitectura semelhante à da maior parte dos edificados no período medieval e que alguns, de construção recente ou recente reconstrução, vão mantendo, para benefício e garantia da beleza conjunta das vilas e cidades.
Havia traços que eram únicos, quase de certeza, mas formavam um conjunto de uma harmonia e beleza inexcedíveis; um ou outro se destacava, ou pela esmerada decoração ou pela volumetria do edificado! Em suma: um deslumbramento! Gelado!
Invocando a beleza de um antigo edifício público, agora transformado em hotel de luxo, mas, de facto, devido à inconfessada incapacidade de resistir mais tempo expostos à ferocidade do meio-ambiente, duma hostilidade insultuosa, a Su propôs que fossemos fazer uma visita ao hall do dito hotel.
O aspecto geral dela assustava e de imediato propus a interrupção da visita, por ela recusada, mas no fundo com vontade de fugir. Esfregava as luvas ao nível do ventre, toda dobrada para a frente, olhava para mim duma forma estranha que não conhecia e, terei que confessar, fiquei mesmo assustado.
- E se fossemos comer qualquer coisa, a ver se isto melhora? Propôs a congelada Su!
Vamos a isso, respondi.
Mesmo em frente do Hotel, do outro lado da rua principal, havia um restaurante, italiano com menu alemão e regional.
Escolhemos pratos diferentes; depois da tradução feita pela Su, optei por um prato de fígado, acompanhado de puré de batata e legumes verdes.
O frio, mesmo dentro do restaurante aquecido, continuava a não dar tréguas, a Su continuava de mãos entaladas nas pernas, toda dobrada sobre a mesa, agora sem gorro, mas parecia que o nariz tinha ficado mais afilado; a temperatura do restaurante não dava, nem perto, para recuperar as calorias, perdidas durante o pouco tempo de estadia na gelada cidade.
Enquanto esperávamos ainda tentei, sem sucesso, para aliviar a gelada tensão, brincar com o passeio:
" penso agora que aquela insistência do Boris na visita à Roth, tinha em vista ver-se livre dos dois ao mesmo tempo, ficando por cá, congelados! Que sacana me saiu, devia saber que o frio, aqui, é para gigantes!
A Su ainda esboçou um amarelo, ou antes, um lívido sorriso, sem alegria ou entusiasmo: frouxo e branco, da cor do frio local, triste, e costuma pensar-se, e dizer-se, que é cinzenta a cor definidora da tristeza.
Quando o almoço foi servido, foi o fim da macacada! A Su lá ia comendo, encolhida, mas comendo sem grande entusiasmo; eu, mal pus na boca um pedaço da "almôndega" cinzento-escura, só não vomitei porque o acto de vomitar é muito difícil suceder-me!
Olhou para mim, viu a minha máscara e perguntou: "isso não está bom?
Nem bom, nem mau, está intragável! Vou comer só a batata e os legumes!
Esticou o braço e com o seu garfo cortou um pouco "daquela coisa" que levou à boca para, de imediato, a cuspir ao lado do seu prato.
- Coisa horrível! Comentou. Só faltava isto para melhorar o ambiente!
- Quer pedir outra coisa? Perguntou.
Eu não, quero é ver-me livre destes italianos!
Mal acabámos o "repasto", frustrado, voltámos à rua: eu a insistir para nos pormos a andar e a Su a recusar:
- Agora que viemos, vamos tentar ver alguma coisa e tirar umas fotos.
E lá foi, sempre encolhida, pela rua adiante! Olhámos, de lado, os edifícios, como que a pedir-lhes desculpa por os não olharmos extasiados, pelo menos eu, como seria razoável e quase obrigatório perante tanta beleza!
Entrámos em ruelas onde havia estabelecimentos com uma variadíssima selecção de doces e licores, muita cutelaria e cópias de antigas armas e souvenirs de variadíssimas cores e lindíssimos.
À pressa recolhemos dois ou três folhetos, quer antes, no hotel quando lá passámos, numa livraria e posto de turismo; tirei as três últimas fotografias, duas delas à Su, para não mais esquecer o seu aspecto de condenada à Sibéria da Alemanha! Ela continuava, fazendo das fraquezas forças, a fazer fotos do que mais a seduzia.
Ainda fomos à parte baixa da muralha, de onde o rio se via um pouco, mas a neve e uma densa camada de árvores, barravam quase toda a vista do rio.
Já fora da muralha, em direcção ao carocha, vi a Su dirigir-se a um supermercado, sem dizer palavra. Ma entrámos e olhei para ela, a não conseguir tirar as luvas húmidas, que só no restaurante tirara, ajudei-a na tarefa e quando lhe toquei o meu susto foi indescritível! Pareciam mãos não de pessoa viva, mas de um ser frigorificado, congeladas, sem vida!
- Eu entrei aqui para ver se aquecia um pouco, como algumas vezes fiz em Berlin, pois não estou em condições de conduzir!
Mas isto é assustador! Como é possível deixares que a situação chegasse a este ponto crítico?! E tudo para eu poder aqui vir!
- Não é nada disso, eu também tinha vontade de cá voltar, não é nada culpa sua!
Entretanto eu massajava-lhe as mãos com todo o vigor, esfregando-as com força, apertando-as entre as minhas, sem um queixume dela, não reagia, os dedos continuavam rígidos.
Passei a massajar e bafejar com mais intensidade e, aos poucos, começou a mover os dedos, com muita dificuldade.
- Como é que você faz para ter as mãos assim quentes? Perguntou?
Não sei explicar; não suo e talvez por ter nascido e feito a infância naquele clima de extremos da minha aldeia e região, me devo ter ido habituando a reagir ou então será uma questão de circulação sanguínea; a verdade é que aguento bem, tanto o calor como o frio intensos!
- Que bom! Quem me dera! Passo um martírio todos os anos com o frio e, por azar meu, aqui é pior do que em Berlin.
Tens que ter cuidado! É capaz de haver algum problema de circulação e deves ver isso, o mais rápido possível.
- Pois, tenho mesmo que ver isso e prevenir-me com o que visto! Se não fosse o blusão laranja, de certeza que não aguentava.
Certificados de que as mãos estavam já a retomar a normalidade, mesmo que continuassem frias, partimos da localidade, agora sem GPS e sem olharmos para trás.
Uf! Será que um dia, sem ser Fevereiro, voltaremos a Rothenburg?
Só o tempo dirá, mas penso que não.

Reis Caçote (pseudónimo de José Monteiro)
2012- dig.









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