domingo, 1 de dezembro de 2019

TROFEU EM TEMPO DE ANIVERS]ARIO




             
                   TROFÉU EM TEMPO DE ANIVERSÁRIO!

                  
                                                 I


O evento que ocorreu na última semana de Junho, de facto teve inicio em catorze de Fevereiro do ano da graça de deus de dois mil e dez.

Um correio eletrónico, recebido naquele dia, às treze noras e trinta e nove minutos, rezava assim:

              Subjet: Festa de aniversário Su...party
              Liebe Freund
              Für die, die kein Deutsch ietzi auf Portuzieseisch
              Olá amigos/Família.

Depois de um Inverno tão rigoroso, branco e frio no Sul da Alemanha, estamos a precisar de um céu azul e uma brisa quente, por isso planeámos para os dias 26/27 de Junho, a Festa de Aniversário, perto de Pera, no Algarve.

Alugámos uma casa com espaço para alguns de vós (os que sejam mais rápidos na resposta). Estamos lá de 19.06 a 01.o7.

Se pudermos ajudar na procura de alojamento, também o faremos, com todo o gosto. Seria óptimo se viessem!

Assim – nem mais, nem menos! Faz-se a publicidade e aguarda-se a reacção do Povo!


                                                           II


Há cinco anos, mais ou menos, quando as autoestradas da comunicação não passavam de “vias rápidas”, nos países ditos desenvolvidos, pois que noutros, os de outro mundo (quero dizer terceiro mundo) eram então, como agora são, as matas quase virgens e as dunas intermináveis a divulgação do evento, a celebrar naquele ano de dois mil e cinco, foi feita individualmente pelo telefone e não por email/circular como agora o foi.

E a convocatória era para Berlin e não para o Algarve; morava então, a aniversariante, na capital da Alemanha há vários anos, poucos anos depois da “queda” do muro de Berlin, também conhecido, nos meios da comunicação social “independente”, como muro da vergonha (os de hoje como serão chamados?),queda sem honra nem glória e o seu nome pelas ruas da amargura, mais no estrangeiro do que na própria Berlin; mais teatro estranja do que manifestação exuberante, dos “sempre distraídos” alemães! Fica mesmo distraídos, se não se importam.
Não saberei nunca, só por que penso não valer a pena e em nada modificaria os resultados, se a expetativa era grande em termos de convivas participantes, sendo a anfitriã nativa; só sei que, há cinco anos, em Berlin, da família da aniversariante ninguém apareceu, o que não será de estranhar, já que as mais próximas familiares – mãe e irmã – ambas professoras do ensino secundário, estariam envolvidas nos exames.

Aqui para nós, que ninguém nos ouve, a mudança do local e até dos dias do mês ( em Berlin foi no dia dezoito ), já teria em conta esta realidade familiar, sendo que a mãe estivesse já aposentada e sem compromissos tão nítidos.

Sem outros considerandos ou deduções, a verdade é que, em Berlin, além da amiga do peito (assim é definida) e o companheiro, entretanto falecido, só eu compareci, amigo sem ser do peito, mas estar convencido de o ser do coração (poético); ela é-o, do meu!

E na celebração algarvia, de Junho passado, ambos quisemos estar com ela! Fomos poucos, mas bons! (adjectivação minha).

A irmã terá comunicado, na véspera, a não comparência, devido a uma inesperada indisposição; o irmão, dependente do transporte da indisposta irmã, também não esteve presente; a mãe, ou não tinha mesmo prometido ir por razões que sempre tem de sobra, ou de falta, igualmente não esteve presente.

Ou porque a aniversariante e muito estimada amiga, receava o que de facto sucedeu com a família, ou então para alargar e melhorar o seu difícil enquadramento social, no Sul, onde agora habita, terá tido o cuidado de garantir a presença de dois casais, penso que de uma ou outra forma ligados à empresa de que faz parte o companheiro, igualmente aniversariante, mas no final de Maio.
A viagem, mesmo com escala em Espanha e no Alentejo, deve ter sido cansativa, embora o meio de transporte, um mercedes de último modelo, que a empresa coloca ao serviço dos colaboradores com funções de chefia.

Provavelmente cansou menos do que a curta viagem, no final de Agosto do ano anterior, feita num Citroen C1, pelo centro e norte de Portugal, sob uma vaga de calor que, bem aproveitado e armazenado, devia ainda chegar até este ano e não haver razão para se queixar do rigoroso inverno, branco e frio, do Sul da Alemanha, onde mora. A tecnologia deve começar a pensar em aproveitar, naturalmente, o calor, ou o frio, para que os viventes se sintam bem, quer no espaço, quer no tempo!

Os referidos dois casais,ambos os homens eram alemães e as mulheres, uma brasileira e outra romena, que não conhecia, devem ter-se juntado aos anfitriões logo que se instalaram na Vivenda, ou seja, perto do dia dezanove de Junho.


                                                            III


A última vez que estive no Algarve e quase só em Portimão, foi também a convite do casal anfitrião e para celebrar a passagem do ano de dois mil e oito para dois mil e nove! (preciosismo!)

Sem ser a convite, mas a passar férias, foi há trinta e nove anos, durante as duas primeiras semanas de Setembro, em Albufeira! Do que se passou no Algarve, no decorrer das quase quatro décadas, só mesmo visto; contado, ficaria sempre aquém da realidade.

No espaço de tempo entre o convite e o evento, ou seja entre Fevereiro e Junho, muitas coisas sucederam também: a mais relevante foi a ida da minha filha, aos quarenta e cinco anos, ir para a Holanda trabalhar, gorados que foram, os esforços feitos para o fazer em Portugal.

A nenhuma experiência nestas andanças, aliada à insensibilidade e alguma crueldade por parte das agências de trabalho temporário, promoveram um conjunto de situações que a levaram, com mais duas colegas de trabalho, da Holanda para a Alemanha, desta para o Luxemburgo e deste para a Holanda, novamente; neste último trajeto foram só as duas que de Portugal partiram juntas.

Sobre este tema – das empresas de trabalho temporário – tenciono escrever, depois de pesquisar mais e se tiver tempo.

Por agora fica apenas o registo de que, quem lhes acudiu e financiou, foi a amiga do peito da anfitriã e a pedido desta. A ambas fiquei devendo o gesto de solidariedade, que não se paga, porque preço não tem.


                                                           IV


Cerca das dezassete horas e trinta minutos, apeei-me na paragem de Armação de Pera, como combinado.
Achei o espaço envolvente um tanto esquisito, como acho todo o caos algarvio: um estreito passeio, no meio de uma urbanização recente, incaracterística, com uma tabuleta, presa num tubo metálico, informando que ali paravam os “bus” da empresa Eva.

Olhando em volta logo pensei: já meteste água! E continuei a falar só para mim: já estás tramado! A aniversariante deve estar à minha espera noutro local e vai já fazer-me a “vida negra”!

A um cavalheiro que passava perguntei se havia outra paragem, além daquela, em Armação de Pera? Muito cavalheiresco respondeu que sim:

- Lá mais abaixo, junto ao hotel! Acrescentou!

Não fixei o nome do hotel, mas fixei o gesto do cavalheiro, que traduzi: ainda é um bom esticão daqui até lá!

Aquele gesto traduzia uma distância...grande e o saco das lembranças (ou das moengas, se no Alentejo pensasse) estava a ameaçar deixar-me envergonhado, já sem pegas e o fundo a dar preocupações, decidi-me pelo uso do telemóvel, para informar onde estava.

Ainda a chamada não tinha sido atendida e já a meio da rua, o mercedes e os dois anfitriões que me convidaram; safei-me da admoestação, ou por que vinham ambos ou por terem já reconhecido que no Algarve, sobra quase tudo o que falta não faz e em Armação de Pera falta uma garagem, ou um telheiro, onde os passageiros estejam resguardados, quer os que esperam, quer os que chegam, como seria o meu caso; na maioria das localidades, com menos habitações que Armação, a norte e centro do país têm, mas no Algarve do ministro Pinho, não. De garantido, no Algarve, só mesmo o Sol, mas sem compromisso garantido! Era o que faltava!
Neste Algarve do século XXI, vale tudo, menos o servirem, minimamente bem, o que vai largar o euro ou o dólar, ou seja o consumidor, para não dizer e exigir, servirem com consideração e dignidade.

A verdade é que me safei do raspanete, ou pelos motivos antes citados ou por que o convite não tinha uma nota de rodapé ou de rodamão a dizer que não eram permitidas falhas! E tenho pena que algum dos fatores, ou todos, nos tenham privado: à anfitriã, de me “massacrar” verbalmente e a mim de tanto gostar de provocar os raspanetes! Valha a verdade, nunca chegámos a vias de facto! É mesmo, sempre e só, trinta e um de boca!

Seja como for, eu já me tinha condenado antes e só dois dias depois de ter regressado à cidade do Lis e que me absolvi e condenei a ligeireza, para não dizer o desleixo, da empresa que é a concessionária do transporte dos destinos algarvios e que tem, como recurso de agência, a receção de um hotel, e o desempenho do rececionista de serviço. Tudo isto para reduzir custos e aumentar a tal competitividade! Além de os preços serem aumentados naqueles meses.

Fez-me lembrar alguém, da Alemanha e conhecido/a da ora anfitriã no Algarve, quando esta lhe disse o preço de um voo low coast para Portugal, por o achar tão diminuto, ter perguntado, com humor, se o avião tinha piloto!

É o que temos neste algarve, do ministro Manuel Pinho, o tal que passou a designar a nossa região turística, muito pomposamente, por All garve, como jogada de marketing e de marca; não me consta que, o dito ministro, tenha alguma vez ida de bus Eva, de Lisboa para o Algarve, com all ou sem all.. Se o tivesse feito seria muito natural que o senhor se não tivesse ficado só pela forma de ortografar e pronunciar – all garve!


                                                             V


Entrei no tal mercedes que me foi apanhar e foi grande o meu espanto, depois de deixarmos a estrada mal alcatroada do lugar de Pera, virando à direita para uma de terra mal batida e cerca de cem metros rodados, parou junto em frente de um portão em metal, que se abriu à ordem de um silencioso “Abre-te Sésamo” que o grupo dos Quarenta Ladrões usava para abrir a caverna onde estava guardado o tesouro e que o pobre lenhador Alli baba, usou para levar o tesouro e não consta que tenha usado o “Fecha-te Sésamo”, deve ter deixado a porta aberta e pôs-se ao fresco!

O silencioso “Abre-te Sésamo” usado pelo motorista do mercedes, não abriu a porta da caverna, mas uma belíssima moradia, de recente construção, bom gosto do arquiteto e de razoáveis dimensões! O meu espanto cresceu quando cheguei à traseira da moradia e me deparei com uma piscina de razoáveis dimensões e de excelente exposição solar, quase desde que despontava até que se despedia, ao fim do dia! As árvores, sendo ainda novas, não impediam o Sol de lá chegar, mas davam ao espaço murado um enquadramento agradável, bem melhor do que os terrenos circundantes.

Foram-me apresentados os dois casais, ambos os homens de nacionalidade alemã e as mulheres, uma era brasileira e a outra romena.

Como o esposo da aniversariante (ele aniversariante também, mas no fim de Maio) iam fazer compras, eu fui com eles.

Quando regressámos estava a chegar, de automóvel – com GPS – a já citada amiga, conhecida de outras celebrações, vinda do Luxemburgo, de avião até Lisboa e de carro alugado no aeroporto, até Dom ou São Sebastião, passando o grupo a ficar formado por três casais e dois singles: os mesmos três alemães/homens, por três portugueses, duas mulheres e um homem, que era eu, naturalmente e as outras duas já referidas, uma brasileira e outra romena.

Numa das cadeiras-cama, colocadas no topo da piscina, onde algumas árvores, embora novas, já proporcionavam uma agradável sombra, estava um dos alemães, o mais velho, par com a brasileira, lia um livro, do formato bolso, mas com páginas a mais para num bolso caber. Não reagiu à chegada do pessoal desconhecido. São um espanto, estes sêres ou não seres! Ou porque não temem qualquer ameaça e a vigília pode ser dispensada ou por que não são curiosos, o que me espantaria, até ao escancarar da boca! Sendo um povo evoluído, só mesmo a curiosidade será entendível: ou então, o que não me espantaria nada, devem sentir-se muito acima do nível mediano do comum mortal, razão bastante para lhes prestar atenção. Se fosse este o motivo, não se aplica ao que melhor conheço, o big chefe, esposo da aniversariante; ou serão ainda reminiscências da guerra, que tantos traumas terá deixado, em que a “separação do país” em dois, não terá sido o mais marcante.

Muitas outras deduções poderiam ser feitas e apreciadas, mas “deixo isso p’ra lá” como diria a conviva brasileira e vou apreciar a minha situação.

Então, é assim...como diria o meu estimado patrão:

- uma vez mais, a aniversariante, me não informou do programa por inteiro, não sei se por saber que eu gosto de ser surpreendido, ou então o à-vontade com que me trata é tal, que algumas vezes fico com cara de parvo! Se me tivesse dito que, a tal casa alugada, não era uma vulgar casa, mas uma mansão senhorial, com piscina e tudo, sempre tomaria alguma precaução e teria levado, na bagagem de cabine, um calção de banho e uma toalha, evitando ter que improvisar, como se atreveu a propor/desafiar:

- não é capaz de ir de cuecas para a piscina? Rindo como é costume rir!

Estafermo! Apetece-me, com frequência, esganá-la!


E iria mesmo de slips, caso ela se não tivesse lembrado que, o big chefe, seu esposo, tinha uns calções que já em tempos lhe serviram, mas agora, só por magia, neles se conseguia meter!
E pronto, calção havia e toalhas era o que não faltava! Uma vez mais, para manter a fama, dois portugueses se desenrascaram.


                                                 VI


O fim de tarde e jantar de sexta-feira, dia vinte e cinco, decorreram tranquilamente e deu para olhar melhor a parte do grupo que não conhecia, do qual sobressaía a romena, curiosa compulsiva das coisas do português e sobretudo do vocábulo “obrigado” e da diferença de género. Insistência que, no dia seguinte, continuou, fazendo gala de os distinguir correctamente: o obrigado e o obrigada!
Esta cidadã romena, nada parecida com as que em Leiria eram largadas pela manhã, por uma ou mais carrinhas que vinham dos lados de Fátima e algumas quase arrastavam crianças de tenra idade que traziam pela mão e parecia que tinham horários a cumprir! No inicio, percorrendo as ruas principais da cidade, estendendo a mão à caridade, com um pequeno cartaz na mão, onde escreviam as causas e para que fins praticavam a mendicância, quase sempre era a pobreza ou doenças virtuais que apontavam.

Há vários anos essa prática durava, algumas tinham já lugares fixos, à porta dos supermercados, das igrejas ou dos portões da garagem dos bus de Leiria! Deviam ser de uma etnia diferente da romena no Algarve: enquanto esta tinha uma cor nitidamente europeia, as que circulavam por Leiria tinham uma tez muito escura, o cabelo muito escuro também, sempre de cinzento ou azul envelhecido, vestidas, em tudo se assemelhando com as de etnia cigana, bem conhecidas no seu vestuário e de há muito instaladas em Portugal, uma boa parte já com residência fixa e trabalho também normalmente comerciantes de roupas, nas feiras da região e da cidade, duas vezes por semana; de vez em quando apareciam pequenos grupos ou apenas uma família, praticando o nomadismo, acampando em lugares que ou já conheciam ou procuravam.

Se não usassem um dialeto diferente das de etnia cigana, as romenas passavam como tal.

Dizia que a romena, em transito pelo Algarve, não desistia de tentar soletrar algumas palavras do português. E lá vinha a ajuda da brasileira, no uso pleno do acordo ortográfico, a tentar que a curiosa romena não só adquirisse aptidão na vocalização, mas também no léxico e o étimo de cada palavra! A portuguesa, vinda do Luxemburgo, fazia-o com um sotaque que não era muito claro e eu, como sempre, fazia-o em velocidade de cruzeiro, e logo vinha a voz da aniversariante: “não se esqueça de falar devagar, para quem não sabe português!

É verdade, penso sempre nisso, mas de pronto me esqueço.


                                                           VII


Após o real breakfast de sábado, já a manhã se despedia, o grupo rumou para a praia e lá deixei grelhar os pés, onde o protetor solar cedido pela aniversariante, não resistia à fricção pela areia e a cabeça resguardada por um boné do anfitrião, tal como o calção de que já falámos.

Alguém tinha o tempo sob controlo e quando se aproximou a hora deu ordem para levantar o acampamento ( ou areamento, neste caso), propondo o regresso à mansão, pois o churrasco, à base de picanha, iria demorar e às dezanove e trinta iria ocorrer, no país de Mandela, onde se realizou o Campeonato do Mundo de Futebol, o jogo entre a Alemanha e a Inglaterra e a televisão da mansão não apanhava o canal Sport  tv que transmitia o jogo em direto.
O regresso a casa foi rápido, a distância não era grande.

Mal chegámos começou a azáfama em volta do grelhador, construído no exterior da vivenda e mesmo em frente da porta da cozinha.

O carvão, por qualquer razão que não ficou bem esclarecida, fez questão de não querer voltar a arder, resistindo aos esforços dos dois engenheiros alemães, mesmo às novas técnicas por eles introduzidas, de evidente teoria, mas que a prática – o atear do borralho -, vinha negando! 

Foram as acendalhas e um catalisador líquido e lá teve que vir o tradicional abano, a espevitar as poucas a arder.

O pessoal estava de férias e não seria a teimosia de um carvão, português ou importado, que iria alterar o ritmo e a boa disposição reinantes.

Uns preparavam a mesa, outros nadavam e dois apanhavam os últimos raios de Sol, a esgueirar-se por detrás de um pinheiro manso.

Após cerca de meia hora de esforço, lá foram criadas as condições para que a picanha, coberta de sal, entrasse para o brasido e no ar ficasse a boiar um provocante aroma de carne grelhada.
- A gordura para cima, alguém recomendou em voz alta!

E, assim dito, só podia ser da brasileira, que de picanha deve saber.

Podia ser, também, do anfitrião alemão, único dos três presentes, que já se vai fazendo entender, com algum esforço em alguns vocábulos, na língua de Camões e de Pessoa; da minha lavra acrescento Saramago e devia acrescentar muitos outros, mas só se isto fosse um estudo e não uma brincadeira, que nem sequer nisso irá resultar. Veremos!

E se fosse na forma cantada, não seria nada elegante, esquecer a Amália e o Carlos do Carmo, o último ainda connosco, o pode e tem confirmado e por outras vozes brilhantes o português foi cantado, senão seria só mesmo fado!

O alemão que já ficou claro de quem se tratava, não podia ser a recomendação da gordura para cima: nem a voz era a dele e estando ele a gerir o grelhador, não iria fazer, a si mesmo, recomendações.


                                                 VIII


Depois das várias tentativas e a magia do abano, lá saiu o primeiro e grande naco, do cachaço do bovino, ainda a fumegar, a escorrer para a tábua, ao ser fatiado, aquela humidade própria da carne, que os industriais sabem conservar, não só para melhorar o especto da carne, mas também para que o naco tenha mais peso e maior o seu custo ao consumidor.

- Tem que ser mais passado, alguém recomendou!

Não sei se de ciência certa ou se de melhor satisfazer o seu paladar; o naco, já com uns bocados a menos, contrariado, lá voltou para o grelhador e o fumo, quase extinto, voltou a subir e perfumar os ares de Pera, absorvido pela campânula piramidal da boca de exaustão da chaminé, sendo logo levado, pela brisa de fim de tarde.

A mesa, sob o telhado do alpendre, ao lado da piscina, para onde davam duas portas, a da sala e de um dos quartos do piso térreo, estava repleta de iguarias – de coisas boas ! – em parte abrigada do sol e a outra ainda com Sol, agradável. A cerveja e os sumos iam sendo consumidos enquanto a picanha, antes rejeitada, voltava à mesa.

Terminado o repasto e já de bandeira tricolor e t-shirts vestidas pelos aguerridos aniversariantes, a caminho dos carros, foi decidido, sem margem para negociações, distribuir o grupo pelos dois carros e desta forma: no carro da portuguesa, vinda do Luxemburgo. Iam todos os que falavam português e no mercedes os que falavam alemão.

A formula adotada, ou o termo usado, não foi exatamente, bem ao jeito da refilona aniversariante e que já não é levada a sério, tanto mais que ela está hoje mais à-vontade com a língua alemã do que com a portuguesa: já um mal disfarçado perfecionismo.

E, assim, três mulheres e um homem, eu, que ainda penso que sou e tenho orgulho de o ser, embora gostasse de o ser em part time, foram para o pequeno carro e para o mercedes foram três homens e a romena que fala também alemão, mas que preferia ir connosco.

Alguns minutos depois, já no lugar de Alcantarilha, estacionaram perto de um café, quase às moscas, mesto tendo a tal Sport tv já sintonizada.

Durante a curta viagem reparei no curioso interesse, da brasileira, pelas chaminés, caraterísticas daquele que foi o reino dos Algarves, ainda durante anos da fundação da nacionalidade e só passou a pertencer a coroa portuguesa, oficialmente, com o Tratado de Badajoz, em mil duzentos e sessenta e sete, já o Rei Dom Sancho I era o monarca de então; a brasileira disparava contra elas e os telhados onde estavam aplicadas, o seu olhar fotográfico, mesmo com o carro em andamento. E, mal o carro estacionou, de arma fotográfica na mão, quase sem apontar, disparava em todas as direções, tal era a variedade das ditas e sua decoração.

Esclarecida pelos três “especialistas” na matéria e seus companheiros de viagem de Pera até Alcantarilha, sobretudo pela que mais saberia, a anfitriã, ou seja a origem árabe das chaminés. ela própria com traços físicos das gentes daquela época ( mas sem burka, que lhe ficaria mal, fazendo realçar o desenho e o brilho dos olhos), os celtas e os muçulmanos.

Terá a brasileira convencida de que os árabes – os antigos, os que não tinham petróleo para ser cobiçado, não haja confusão -,eram gente atilada, instruída, com bom gosto pelas artes e que deixaram um legado importante, por toda a parte Sul da Península Ibérica, nomeadamente na língua, na arquitetura e na gastronomia.

O grande azar deles e o nosso também, mas aqui não irei gastar tempo, como já disse antes, isto não é um estudo, que não me atreveria a fazer, mesmo que tempo tivesse; é, apenas e só, uma brincadeira à volta de três dias de férias no Algarve, a convite de...,mas dizia eu que o grande azar dos árabes de então, foi o ter um príncipe cristão, zangado com a mãe e com os mouros ( infiéis, sarracenos e muçulmanos! Gente do piorio, pois então!)

O tal príncipe, filho do Conde Dom Henrique de Borgonha e de dona Teresa de Aragão, esta filha do rei de Aragão e Castela, Afonso VI e que veio a ser o Primeiro Rei de Portugal, num gesto pouco cristão, juntamente com seu pai, atiraram-se aos moiros, com ajuda dos Cruzados da Ordem de Santiago. E a partir de Guimarães, ou de ali perto, desataram à porrada em todas as mourarias, cantadas muito mais tarde, em bom estilo fadista:

                              “Ai, mouraria
                               Da velha rua da Palma
                               Onde eu um dia
                               Deixei presa a minha alma!
                               ....por ter passado... e por aí abaixo
pois nada tem a ver com aqueles, onde não havia, nem fado, nem ... ah, fadista!”

E só muitos anos mais tarde é que apareceu, já a moirama tina abandonado, com honra e sem glória, os castelos, que a tanto custo foi construindo (eles lá deviam saber porquê e eu também penso que sei, mas não digo, os historiadores o fizeram e se não fizeram antes, que o façam agora, nomeadamente uma, em final de investigação, lá para os lados de Berlim, terra que foi dos bárbaros e que pela terra, hoje nossa, andaram, muito antes dos moiros terem chegado e não se portaram muito bem.

Com uma espada daquelas – a que está no Castelo de São Jorge, bem no alto da Mouraria - nenhum moiro resistia!

O trabalho dos moiros deve ter sido muito e intenso, para ainda hoje, tantos séculos passados, se utilizar o aforismo: “ trabalhei que nem um moiro!”.

O dito hoje usado por quem não citarei, pois são muitos, “dobram a mola” (outro aforismo) até ao fim da resistência, agora por causa da produtividade e competitividade. Mas não é dos que dobram a mola, fique claro! É outra gente, do tipo Afonso Henriques, mas para pior!

O aforismo primeiro, tudo leva a crer, é mais teoria do que prática, se os moiros a definir, não sei se com palavras, o mais certo seria com “manguitos”, do tipo Zé Povinho, do Bordalo das Caldas.
No meio daquela conversa com a brasileira, à volta das chaminés e da grande variedade de arabescos, não me lembrei de referir o dito que a minha progenitora, entre outros e todos sábios, usava:

- “PRIMRIRO, AS OBRIGAÇÕES E DEPOIS AS DEVOÇÕES”!

Os nossos antepassados árabes, uma vez encontrada a forma da funcionalidade das chaminés, a parte que se não vê, como gente de bom gosto, que parece ter sido, começaram a investir na decoração das ditas! E não me espantaria que, entre eles, houvesse concursos, como os jogos florais do tempo do professor Salazar, com prémios para os mais conseguidos, em beleza.


                                                 IX


O jogo de futebol entre a Alemanha e a Inglaterra terminou, com a germânica vitória de quatro a um.

Tudo alegre, festivo mesmo para alguns, o grupo, novamente agrupado nos dois carros, rumou para Albufeira, portugueses e brasileira queriam tomar o seu café.

Bem longe do centro, onde conheci campos secos, com uma dúzia de amendoeiras e outra meia de figueiras e outras tantas alfarrobeiras, foram os carros estacionados, ao lado de prédios de vários pisos, à mistura com espaços sem árvores e sem jardins e restos de construções e seus estaleiros.

Ao caminharmos em direção à parte baixa e antiga de há tantos anos, onde se transitava com calma e sem ruídos, a não ser um ou outro músico itinerante, em digressão pelas praias do sul da Europa, onde ia encontrando o seu palco, a sua plateia, que noutros lugares, com homens engravatados e damas perfumadas, lhe era negado.

As ruas, nesta noite de sábado de fim de Junho, um espaço alucinado, onde as mesas dos bares e restaurantes insistiam em inventar espaço, que disputavam com os expositores de todo o tipo de bugigangas, sobressaindo os trapos de cores garridas, uma miscelânea a fingir de artesanato, a competirem com a mais extravagante mercadoria, sem origem nem brilho.

As pessoas moviam-se com dificuldade, mais parecendo uma procissão pagã, a caminho da Meca dos tempos modernos: o consumo e o dinheiro, se possível já, mesmo sem origem.

De tal confusão de pessoas e idiomas, resultava um padrão comum, sem contornos, que bem poderia ser a língua universal futurista, não estridente como eram as “ vuvu zelas” da terra de Mandela, mas uns quantos, muitos, decibéis ou tons, abaixo, como se cada um e todos em coro, falassem pelo nariz.

Duma rua lateral irrompe o contraste visual: um grupo de seis ou oito clonadas jovens, vestidas como as coelhinhas da Playboy, extremamente maquilhadas, transformadas numa ninhada de gémeas, a caminho do céu, ou do inferno, conforme a imaginação de cada um. Logo uma boca, com desenho de porta, as engoliu, como monstro sem nome e o tumulto iniciado voltou à cadência anterior e aos inevitáveis empurrões.

A uma farda, das raras masculinas, que se perfilavam ao lado das mesas plasmadas nas paredes da estreita rua, perguntei se serviam café, recebendo como resposta: só servimos o que consta do menu de cocktails que constavam da ementa geral; as respostas de duas fardas femininas foram exatamente as mesmas da masculina farda, mais parecendo o refrão daquela canção amorfa que emanava da multidão. Assim, da primeira à última das fardas.

A brasileira, adoradora das chaminés, entrava e logo saía das lojas de bric-à-brac, em busca de miniaturas dos seus ídolos, mas não teve sorte, em cima dos telhados era o que não faltava, mas as miniaturas...não apareciam, talvez por que não repuseram o stock! Acabou por se decidir pelo que de mais se parecia com as chaminés ou por que, no Brasil não havia: uma miniatura de farol. Notando-se que era uma segunda opção.

Mesmo distraidamente, pareceu-me ter visto, numa das lojas, alguns exemplares de miniaturas e isso lhe comuniquei: eu já vos apanho e voltei atrás, entrando na rua de onde tínhamos saído e lá encontrei e comprei duas miniaturas para que não fosse de todo perdido o esforço da busca.
Voltando ao local onde a tinha deixado, no ponto onde a rua estreita desaguava ou desarruava na mais larga, na perpendicular, mas não encontrei ninguém do grupo.

Intercalo que, antes, tínhamos achado um pequeno café e pastelaria, onde satisfizemos o adiado desejo e deu para algumas fotos que não vi, mas que me constou terem ficado um espanto. 

Calculo!

Em bicos de pés, como se os pés tivessem bico, olhando para os dois lados da rua mais larga, tentando localizar uma cabeça loira, acima das outras, que seria a do anfitrião, o mais alto dos quatro. Nada! O que não faltavam, naqueles cem metros de ocupação, eram cabeças loiras! Umas mais altas, mas nenhuma me pareceu a dele. Procurar a amiga do Luxemburgo, com o seu metro e sessenta ou pouco mais, só se eu tivesse a natureza de um qualquer vira-latas e usasse o sentido do olfato e a localizasse, farejando o seu perfume, no meio daquele labirinto de odores, onde o predominante seria, naquelas condições, o de sovaco mal lavado, naquele meio de noite abafada de Albufeira.

Perdida a esperança de os encontrar pela visão, passei a outra modalidade, chamando pelo nome menos confundível, o do anfitrião! O resultado foi o mesmo: ninguém se acusou. Só o ruído incaracterístico, como sonata sem melodia, foi a resposta.

Suspendendo as buscas, visual e sonora, regressei à praça da lógica, depois de passar por duas estátuas humanas, um número de circo com bolas e vários músicos sem pauta, atentos ao ruido de alguma moeda a cair no boné, poisado à frente do palco e tilintar de contente.

No extremo do que antes fora o jardim, estava montado um pequeno palco, para qualquer evento público, onde se encontravam várias pessoas a ver, daquele improvisado miradouro, a vaga humana que mais parecia um monstro, a respirar pausadamente! A ele subi, sem outra função que não fosse ver se localizava o grupo, insistindo em olhar para onde havia menos gente, a caminho do parque onde os carros ficaram estacionados e onde pensava ir ter.

Dei comigo a recuar cinco anos, até à cidade de Berlin e a pensar: ainda bem que a Gui (único nome referido, Valente Gui!) aqui não está (mas gostava tanto que estivesse!), nesta pequena aventura algarvia, senão, era mais que certo, caso não tenha mudado muito (cinco anos na vida duma pessoa jovem, fazem algum bem...ou mal!), senão era mais que certo que me desancava.
Para que no ar não fique algum mistério, aqui fica uma síntese do que se passou e de nunca antes falei, nem pensei, mas que neste impasse me ocorreu:

- Um dia ou dois antes da festa de aniversário da mãe, completou então quarenta anos e indo a Gui de férias, decidiram consultar um médico, penso que de dermatologia, para que lhe observasse uns sinais que tinha e certamente ainda terá, nas costas, para saberem se podia ir, tranquila, para férias. Quando entraram no gabinete do clinico, fiquei eu na sala de espera, com duas senhoras idosas, alemãs, mudas como é hábito, decidi ir beber um café e voltar de seguida;

- Estava há instantes sentado, eis que entra a Gui, vinda da rua, quando eu pensava que ainda estava a ser examinada e num tom de muito zangada, perguntava-me onde me tinha metido, pois já tinham corrido tudo à minha procura!

Fui só beber um café e voltei de seguida, esclareci!

- E se te perdesses? Interrogava!

Nem o facto de ter alertado para os chapéus-de-chuva que continuavam no porta-chapéus a levou a modificar a reprimenda. Não estou a nada a ver a Gui ou a mãe, numa das principais avenidas de Berlin, de mãos em concha, coladas aos lados da boca e a gritar pelo meu nome!

Devemos ter-nos desencontrado e deu no que deu. De certeza que também ela não mais pensou no assunto e ainda bem. Não devemos ter levado o telemóvel, pois doutro modo teríamos usado.

- Alguma vez pensámos nos chapéus! Saímos e não te vimos, fomos logo procurar-te! Não deves fazer isso! Recomendou!

Era o que me esperava se ela estivesse. A aniversariante pode ficar pior que estragada comigo, mas com a sua habitual diplomacia, não me ralha muito.


                                                 X


Acabei por desistir da busca e decidi ir para junto dos carros e esperar que chegassem, caso não estivessem já à minha espera.

Enquanto deixava o palco, sem aplausos, ia rememorando a cena de Berlin e a desejar que a princesa lá estivesse! Sorria, com a ideia.

Teria andado cerca de dez metros a partir do palco, quando oiço perto do ouvido, uma voz de sotaque estranho, a pronunciar o meu nome ao mesmo tempo que duas mãos agarravam, com vigor, a minha mão direita e vi um amplo sorriso, de vitória, estampado no rosto da romena; não consegui dizer mais que ela entendesse, que não fosse: OBRIGADO!

Com o marido ao lado, sorrindo, não mais largou a minha mão, como se fosse um prisioneiro ou como quem leva pela mão uma criança mal comportada, até nos juntarmos ao grupo, onde ergueu a minha mão entre as dela, como se exibisse um troféu, conquistado naquela noite louco de Albufeira.

Entreguei à brasileira as duas chaminés árabes, que me agradeceu com um amplo sorriso de satisfação.

Entrámos nos carros e partimos, para mais uma hora de cavaqueira, junto da piscina da vivenda São Sebastião, onde a lua se espelhava, não sei se mostrando a fase crescente ou minguante.
Mas que importância pode ter a fase da Lua numa noite assim?

Reis Caçote

Digit.25/06/2017






             
                   

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