TROFÉU EM TEMPO DE ANIVERSÁRIO!
I
O evento que ocorreu na última semana
de Junho, de facto teve inicio em catorze de Fevereiro do ano da graça de deus
de dois mil e dez.
Um correio eletrónico, recebido
naquele dia, às treze noras e trinta e nove minutos, rezava assim:
Subjet: Festa de aniversário
Su...party
Liebe Freund
Für die, die kein
Deutsch ietzi auf Portuzieseisch
Olá amigos/Família.
Depois de um Inverno tão rigoroso,
branco e frio no Sul da Alemanha, estamos a precisar de um céu azul e uma brisa
quente, por isso planeámos para os dias 26/27 de Junho, a Festa de Aniversário,
perto de Pera, no Algarve.
Alugámos uma casa com espaço para
alguns de vós (os que sejam mais rápidos na resposta). Estamos lá de 19.06 a
01.o7.
Se pudermos ajudar na procura de
alojamento, também o faremos, com todo o gosto. Seria óptimo se viessem!
Assim – nem mais, nem menos! Faz-se a
publicidade e aguarda-se a reacção do Povo!
II
Há cinco anos, mais ou menos, quando
as autoestradas da comunicação não passavam de “vias rápidas”, nos países ditos
desenvolvidos, pois que noutros, os de outro mundo (quero dizer terceiro mundo)
eram então, como agora são, as matas quase virgens e as dunas intermináveis a
divulgação do evento, a celebrar naquele ano de dois mil e cinco, foi feita
individualmente pelo telefone e não por email/circular como agora o foi.
E a convocatória era para Berlin e não
para o Algarve; morava então, a aniversariante, na capital da Alemanha há
vários anos, poucos anos depois da “queda” do muro de Berlin, também conhecido,
nos meios da comunicação social “independente”, como muro da vergonha (os de
hoje como serão chamados?),queda sem honra nem glória e o seu nome pelas ruas
da amargura, mais no estrangeiro do que na própria Berlin; mais teatro estranja
do que manifestação exuberante, dos “sempre distraídos” alemães! Fica mesmo
distraídos, se não se importam.
Não saberei nunca, só por que penso
não valer a pena e em nada modificaria os resultados, se a expetativa era
grande em termos de convivas participantes, sendo a anfitriã nativa; só sei
que, há cinco anos, em Berlin, da família da aniversariante ninguém apareceu, o
que não será de estranhar, já que as mais próximas familiares – mãe e irmã –
ambas professoras do ensino secundário, estariam envolvidas nos exames.
Aqui para nós, que ninguém nos ouve, a
mudança do local e até dos dias do mês ( em Berlin foi no dia dezoito ), já
teria em conta esta realidade familiar, sendo que a mãe estivesse já aposentada
e sem compromissos tão nítidos.
Sem outros considerandos ou deduções,
a verdade é que, em Berlin, além da amiga do peito (assim é definida) e o
companheiro, entretanto falecido, só eu compareci, amigo sem ser do peito, mas
estar convencido de o ser do coração (poético); ela é-o, do meu!
E na celebração algarvia, de Junho
passado, ambos quisemos estar com ela! Fomos poucos, mas bons! (adjectivação
minha).
A irmã terá comunicado, na véspera, a
não comparência, devido a uma inesperada indisposição; o irmão, dependente do
transporte da indisposta irmã, também não esteve presente; a mãe, ou não tinha
mesmo prometido ir por razões que sempre tem de sobra, ou de falta, igualmente
não esteve presente.
Ou porque a aniversariante e muito
estimada amiga, receava o que de facto sucedeu com a família, ou então para
alargar e melhorar o seu difícil enquadramento social, no Sul, onde agora
habita, terá tido o cuidado de garantir a presença de dois casais, penso que de
uma ou outra forma ligados à empresa de que faz parte o companheiro, igualmente
aniversariante, mas no final de Maio.
A viagem, mesmo com escala em Espanha
e no Alentejo, deve ter sido cansativa, embora o meio de transporte, um
mercedes de último modelo, que a empresa coloca ao serviço dos colaboradores
com funções de chefia.
Provavelmente cansou menos do que a
curta viagem, no final de Agosto do ano anterior, feita num Citroen C1, pelo
centro e norte de Portugal, sob uma vaga de calor que, bem aproveitado e
armazenado, devia ainda chegar até este ano e não haver razão para se queixar
do rigoroso inverno, branco e frio, do Sul da Alemanha, onde mora. A tecnologia
deve começar a pensar em aproveitar, naturalmente, o calor, ou o frio, para que
os viventes se sintam bem, quer no espaço, quer no tempo!
Os referidos dois casais,ambos os homens eram alemães e as mulheres, uma brasileira e outra romena, que não conhecia, devem ter-se juntado aos anfitriões logo que se instalaram na Vivenda, ou seja, perto do dia dezanove de Junho.
A última vez que estive no Algarve e
quase só em Portimão, foi também a convite do casal anfitrião e para celebrar a
passagem do ano de dois mil e oito para dois mil e nove! (preciosismo!)
Sem ser a convite, mas a passar
férias, foi há trinta e nove anos, durante as duas primeiras semanas de
Setembro, em Albufeira! Do que se passou no Algarve, no decorrer das quase
quatro décadas, só mesmo visto; contado, ficaria sempre aquém da realidade.
No espaço de tempo entre o convite e o
evento, ou seja entre Fevereiro e Junho, muitas coisas sucederam também: a mais
relevante foi a ida da minha filha, aos quarenta e cinco anos, ir para a
Holanda trabalhar, gorados que foram, os esforços feitos para o fazer em
Portugal.
A nenhuma experiência nestas andanças,
aliada à insensibilidade e alguma crueldade por parte das agências de trabalho
temporário, promoveram um conjunto de situações que a levaram, com mais duas
colegas de trabalho, da Holanda para a Alemanha, desta para o Luxemburgo e
deste para a Holanda, novamente; neste último trajeto foram só as duas que de
Portugal partiram juntas.
Sobre este tema – das empresas de
trabalho temporário – tenciono escrever, depois de pesquisar mais e se tiver
tempo.
Por agora fica apenas o registo de
que, quem lhes acudiu e financiou, foi a amiga do peito da anfitriã e a pedido
desta. A ambas fiquei devendo o gesto de solidariedade, que não se paga, porque
preço não tem.
IV
Cerca das dezassete horas e trinta
minutos, apeei-me na paragem de Armação de Pera, como combinado.
Achei o espaço envolvente um tanto
esquisito, como acho todo o caos algarvio: um estreito passeio, no meio de uma
urbanização recente, incaracterística, com uma tabuleta, presa num tubo
metálico, informando que ali paravam os “bus” da empresa Eva.
Olhando em volta logo pensei: já
meteste água! E continuei a falar só para mim: já estás tramado! A
aniversariante deve estar à minha espera noutro local e vai já fazer-me a “vida
negra”!
A um cavalheiro que passava perguntei
se havia outra paragem, além daquela, em Armação de Pera? Muito cavalheiresco
respondeu que sim:
- Lá mais abaixo, junto ao hotel!
Acrescentou!
Não fixei o nome do hotel, mas fixei o
gesto do cavalheiro, que traduzi: ainda é um bom esticão daqui até lá!
Aquele gesto traduzia uma
distância...grande e o saco das lembranças (ou das moengas, se no Alentejo
pensasse) estava a ameaçar deixar-me envergonhado, já sem pegas e o fundo a dar
preocupações, decidi-me pelo uso do telemóvel, para informar onde estava.
Ainda a chamada não tinha sido
atendida e já a meio da rua, o mercedes e os dois anfitriões que me convidaram;
safei-me da admoestação, ou por que vinham ambos ou por terem já reconhecido
que no Algarve, sobra quase tudo o que falta não faz e em Armação de Pera falta
uma garagem, ou um telheiro, onde os passageiros estejam resguardados, quer os
que esperam, quer os que chegam, como seria o meu caso; na maioria das
localidades, com menos habitações que Armação, a norte e centro do país têm,
mas no Algarve do ministro Pinho, não. De garantido, no Algarve, só mesmo o
Sol, mas sem compromisso garantido! Era o que faltava!
Neste Algarve do século XXI, vale
tudo, menos o servirem, minimamente bem, o que vai largar o euro ou o dólar, ou
seja o consumidor, para não dizer e exigir, servirem com consideração e
dignidade.
A verdade é que me safei do raspanete,
ou pelos motivos antes citados ou por que o convite não tinha uma nota de
rodapé ou de rodamão a dizer que não eram permitidas falhas! E tenho pena que
algum dos fatores, ou todos, nos tenham privado: à anfitriã, de me “massacrar”
verbalmente e a mim de tanto gostar de provocar os raspanetes! Valha a verdade,
nunca chegámos a vias de facto! É mesmo, sempre e só, trinta e um de boca!
Seja como for, eu já me tinha condenado
antes e só dois dias depois de ter regressado à cidade do Lis e que me absolvi
e condenei a ligeireza, para não dizer o desleixo, da empresa que é a
concessionária do transporte dos destinos algarvios e que tem, como recurso de
agência, a receção de um hotel, e o desempenho do rececionista de serviço. Tudo
isto para reduzir custos e aumentar a tal competitividade! Além de os preços
serem aumentados naqueles meses.
Fez-me lembrar alguém, da Alemanha e
conhecido/a da ora anfitriã no Algarve, quando esta lhe disse o preço de um voo
low coast para Portugal, por o achar tão diminuto, ter perguntado, com humor,
se o avião tinha piloto!
É o que temos neste algarve, do
ministro Manuel Pinho, o tal que passou a designar a nossa região turística,
muito pomposamente, por All garve, como jogada de marketing e de marca; não me
consta que, o dito ministro, tenha alguma vez ida de bus Eva, de Lisboa para o
Algarve, com all ou sem all.. Se o tivesse feito seria muito natural que o
senhor se não tivesse ficado só pela forma de ortografar e pronunciar – all
garve!
V
Entrei no tal mercedes que me foi
apanhar e foi grande o meu espanto, depois de deixarmos a estrada mal
alcatroada do lugar de Pera, virando à direita para uma de terra mal batida e
cerca de cem metros rodados, parou junto em frente de um portão em metal, que
se abriu à ordem de um silencioso “Abre-te Sésamo” que o grupo dos Quarenta
Ladrões usava para abrir a caverna onde estava guardado o tesouro e que o pobre
lenhador Alli baba, usou para levar o tesouro e não consta que tenha usado o
“Fecha-te Sésamo”, deve ter deixado a porta aberta e pôs-se ao fresco!
O silencioso “Abre-te Sésamo” usado
pelo motorista do mercedes, não abriu a porta da caverna, mas uma belíssima
moradia, de recente construção, bom gosto do arquiteto e de razoáveis
dimensões! O meu espanto cresceu quando cheguei à traseira da moradia e me
deparei com uma piscina de razoáveis dimensões e de excelente exposição solar,
quase desde que despontava até que se despedia, ao fim do dia! As árvores,
sendo ainda novas, não impediam o Sol de lá chegar, mas davam ao espaço murado
um enquadramento agradável, bem melhor do que os terrenos circundantes.
Foram-me apresentados os dois casais,
ambos os homens de nacionalidade alemã e as mulheres, uma era brasileira e a
outra romena.
Como o esposo da aniversariante (ele
aniversariante também, mas no fim de Maio) iam fazer compras, eu fui com eles.
Quando regressámos estava a chegar, de
automóvel – com GPS – a já citada amiga, conhecida de outras celebrações, vinda
do Luxemburgo, de avião até Lisboa e de carro alugado no aeroporto, até Dom ou
São Sebastião, passando o grupo a ficar formado por três casais e dois singles:
os mesmos três alemães/homens, por três portugueses, duas mulheres e um homem,
que era eu, naturalmente e as outras duas já referidas, uma brasileira e outra
romena.
Numa das cadeiras-cama, colocadas no
topo da piscina, onde algumas árvores, embora novas, já proporcionavam uma
agradável sombra, estava um dos alemães, o mais velho, par com a brasileira,
lia um livro, do formato bolso, mas com páginas a mais para num bolso caber.
Não reagiu à chegada do pessoal desconhecido. São um espanto, estes sêres ou
não seres! Ou porque não temem qualquer ameaça e a vigília pode ser dispensada
ou por que não são curiosos, o que me espantaria, até ao escancarar da boca!
Sendo um povo evoluído, só mesmo a curiosidade será entendível: ou então, o que
não me espantaria nada, devem sentir-se muito acima do nível mediano do comum
mortal, razão bastante para lhes prestar atenção. Se fosse este o motivo, não
se aplica ao que melhor conheço, o big chefe, esposo da aniversariante; ou
serão ainda reminiscências da guerra, que tantos traumas terá deixado, em que a
“separação do país” em dois, não terá sido o mais marcante.
Muitas outras deduções poderiam ser
feitas e apreciadas, mas “deixo isso p’ra lá” como diria a conviva brasileira e
vou apreciar a minha situação.
Então, é assim...como diria o meu
estimado patrão:
- uma vez mais, a aniversariante, me
não informou do programa por inteiro, não sei se por saber que eu gosto de ser
surpreendido, ou então o à-vontade com que me trata é tal, que algumas vezes
fico com cara de parvo! Se me tivesse dito que, a tal casa alugada, não era uma
vulgar casa, mas uma mansão senhorial, com piscina e tudo, sempre tomaria
alguma precaução e teria levado, na bagagem de cabine, um calção de banho e uma
toalha, evitando ter que improvisar, como se atreveu a propor/desafiar:
- não é capaz de ir de cuecas para a
piscina? Rindo como é costume rir!
Estafermo! Apetece-me, com frequência,
esganá-la!
E iria mesmo de slips, caso ela se não
tivesse lembrado que, o big chefe, seu esposo, tinha uns calções que já em
tempos lhe serviram, mas agora, só por magia, neles se conseguia meter!
E pronto, calção havia e toalhas era o
que não faltava! Uma vez mais, para manter a fama, dois portugueses se
desenrascaram.
VI
O fim de tarde e jantar de
sexta-feira, dia vinte e cinco, decorreram tranquilamente e deu para olhar
melhor a parte do grupo que não conhecia, do qual sobressaía a romena, curiosa
compulsiva das coisas do português e sobretudo do vocábulo “obrigado” e da diferença
de género. Insistência que, no dia seguinte, continuou, fazendo gala de os
distinguir correctamente: o obrigado e o obrigada!
Esta cidadã romena, nada parecida com
as que em Leiria eram largadas pela manhã, por uma ou mais carrinhas que vinham
dos lados de Fátima e algumas quase arrastavam crianças de tenra idade que
traziam pela mão e parecia que tinham horários a cumprir! No inicio,
percorrendo as ruas principais da cidade, estendendo a mão à caridade, com um
pequeno cartaz na mão, onde escreviam as causas e para que fins praticavam a
mendicância, quase sempre era a pobreza ou doenças virtuais que apontavam.
Há vários anos essa prática durava,
algumas tinham já lugares fixos, à porta dos supermercados, das igrejas ou dos
portões da garagem dos bus de Leiria! Deviam ser de uma etnia diferente da
romena no Algarve: enquanto esta tinha uma cor nitidamente europeia, as que
circulavam por Leiria tinham uma tez muito escura, o cabelo muito escuro
também, sempre de cinzento ou azul envelhecido, vestidas, em tudo se
assemelhando com as de etnia cigana, bem conhecidas no seu vestuário e de há
muito instaladas em Portugal, uma boa parte já com residência fixa e trabalho
também normalmente comerciantes de roupas, nas feiras da região e da cidade,
duas vezes por semana; de vez em quando apareciam pequenos grupos ou apenas uma
família, praticando o nomadismo, acampando em lugares que ou já conheciam ou
procuravam.
Se não usassem um dialeto diferente
das de etnia cigana, as romenas passavam como tal.
Dizia que a romena, em transito pelo
Algarve, não desistia de tentar soletrar algumas palavras do português. E lá
vinha a ajuda da brasileira, no uso pleno do acordo ortográfico, a tentar que a
curiosa romena não só adquirisse aptidão na vocalização, mas também no léxico e
o étimo de cada palavra! A portuguesa, vinda do Luxemburgo, fazia-o com um
sotaque que não era muito claro e eu, como sempre, fazia-o em velocidade de
cruzeiro, e logo vinha a voz da aniversariante: “não se esqueça de falar
devagar, para quem não sabe português!
É verdade, penso sempre nisso, mas de
pronto me esqueço.
VII
Após o real breakfast de sábado, já a
manhã se despedia, o grupo rumou para a praia e lá deixei grelhar os pés, onde
o protetor solar cedido pela aniversariante, não resistia à fricção pela areia
e a cabeça resguardada por um boné do anfitrião, tal como o calção de que já
falámos.
Alguém tinha o tempo sob controlo e
quando se aproximou a hora deu ordem para levantar o acampamento ( ou
areamento, neste caso), propondo o regresso à mansão, pois o churrasco, à base
de picanha, iria demorar e às dezanove e trinta iria ocorrer, no país de
Mandela, onde se realizou o Campeonato do Mundo de Futebol, o jogo entre a
Alemanha e a Inglaterra e a televisão da mansão não apanhava o canal Sport tv que transmitia o jogo em direto.
O regresso a casa foi rápido, a
distância não era grande.
Mal chegámos começou a azáfama em
volta do grelhador, construído no exterior da vivenda e mesmo em frente da
porta da cozinha.
O carvão, por qualquer razão que não
ficou bem esclarecida, fez questão de não querer voltar a arder, resistindo aos
esforços dos dois engenheiros alemães, mesmo às novas técnicas por eles
introduzidas, de evidente teoria, mas que a prática – o atear do borralho -,
vinha negando!
Foram as acendalhas e um catalisador líquido e lá teve que vir o
tradicional abano, a espevitar as poucas a arder.
O pessoal estava de férias e não seria
a teimosia de um carvão, português ou importado, que iria alterar o ritmo e a
boa disposição reinantes.
Uns preparavam a mesa, outros nadavam
e dois apanhavam os últimos raios de Sol, a esgueirar-se por detrás de um
pinheiro manso.
Após cerca de meia hora de esforço, lá
foram criadas as condições para que a picanha, coberta de sal, entrasse para o
brasido e no ar ficasse a boiar um provocante aroma de carne grelhada.
- A gordura para cima, alguém
recomendou em voz alta!
E, assim dito, só podia ser da
brasileira, que de picanha deve saber.
Podia ser, também, do anfitrião
alemão, único dos três presentes, que já se vai fazendo entender, com algum
esforço em alguns vocábulos, na língua de Camões e de Pessoa; da minha lavra
acrescento Saramago e devia acrescentar muitos outros, mas só se isto fosse um
estudo e não uma brincadeira, que nem sequer nisso irá resultar. Veremos!
E se fosse na forma cantada, não seria
nada elegante, esquecer a Amália e o Carlos do Carmo, o último ainda connosco,
o pode e tem confirmado e por outras vozes brilhantes o português foi cantado,
senão seria só mesmo fado!
O alemão que já ficou claro de quem se
tratava, não podia ser a recomendação da gordura para cima: nem a voz era a
dele e estando ele a gerir o grelhador, não iria fazer, a si mesmo,
recomendações.
VIII
Depois das várias tentativas e a magia
do abano, lá saiu o primeiro e grande naco, do cachaço do bovino, ainda a
fumegar, a escorrer para a tábua, ao ser fatiado, aquela humidade própria da
carne, que os industriais sabem conservar, não só para melhorar o especto da
carne, mas também para que o naco tenha mais peso e maior o seu custo ao
consumidor.
- Tem que ser mais passado, alguém
recomendou!
Não sei se de ciência certa ou se de
melhor satisfazer o seu paladar; o naco, já com uns bocados a menos,
contrariado, lá voltou para o grelhador e o fumo, quase extinto, voltou a subir
e perfumar os ares de Pera, absorvido pela campânula piramidal da boca de
exaustão da chaminé, sendo logo levado, pela brisa de fim de tarde.
A mesa, sob o telhado do alpendre, ao
lado da piscina, para onde davam duas portas, a da sala e de um dos quartos do
piso térreo, estava repleta de iguarias – de coisas boas ! – em parte abrigada
do sol e a outra ainda com Sol, agradável. A cerveja e os sumos iam sendo
consumidos enquanto a picanha, antes rejeitada, voltava à mesa.
Terminado o repasto e já de bandeira
tricolor e t-shirts vestidas pelos aguerridos aniversariantes, a caminho dos
carros, foi decidido, sem margem para negociações, distribuir o grupo pelos
dois carros e desta forma: no carro da portuguesa, vinda do Luxemburgo. Iam
todos os que falavam português e no mercedes os que falavam alemão.
A formula adotada, ou o termo usado,
não foi exatamente, bem ao jeito da refilona aniversariante e que já não é
levada a sério, tanto mais que ela está hoje mais à-vontade com a língua alemã
do que com a portuguesa: já um mal disfarçado perfecionismo.
E, assim, três mulheres e um homem,
eu, que ainda penso que sou e tenho orgulho de o ser, embora gostasse de o ser
em part time, foram para o pequeno carro e para o mercedes foram três homens e
a romena que fala também alemão, mas que preferia ir connosco.
Alguns minutos depois, já no lugar de
Alcantarilha, estacionaram perto de um café, quase às moscas, mesto tendo a tal
Sport tv já sintonizada.
Durante a curta viagem reparei no
curioso interesse, da brasileira, pelas chaminés, caraterísticas daquele que
foi o reino dos Algarves, ainda durante anos da fundação da nacionalidade e só
passou a pertencer a coroa portuguesa, oficialmente, com o Tratado de Badajoz,
em mil duzentos e sessenta e sete, já o Rei Dom Sancho I era o monarca de
então; a brasileira disparava contra elas e os telhados onde estavam aplicadas,
o seu olhar fotográfico, mesmo com o carro em andamento. E, mal o carro
estacionou, de arma fotográfica na mão, quase sem apontar, disparava em todas
as direções, tal era a variedade das ditas e sua decoração.
Esclarecida pelos três “especialistas”
na matéria e seus companheiros de viagem de Pera até Alcantarilha, sobretudo
pela que mais saberia, a anfitriã, ou seja a origem árabe das chaminés. ela
própria com traços físicos das gentes daquela época ( mas sem burka, que lhe
ficaria mal, fazendo realçar o desenho e o brilho dos olhos), os celtas e os
muçulmanos.
Terá a brasileira convencida de que os
árabes – os antigos, os que não tinham petróleo para ser cobiçado, não haja
confusão -,eram gente atilada, instruída, com bom gosto pelas artes e que
deixaram um legado importante, por toda a parte Sul da Península Ibérica,
nomeadamente na língua, na arquitetura e na gastronomia.
O grande azar deles e o nosso também,
mas aqui não irei gastar tempo, como já disse antes, isto não é um estudo, que
não me atreveria a fazer, mesmo que tempo tivesse; é, apenas e só, uma
brincadeira à volta de três dias de férias no Algarve, a convite de...,mas
dizia eu que o grande azar dos árabes de então, foi o ter um príncipe cristão,
zangado com a mãe e com os mouros ( infiéis, sarracenos e muçulmanos! Gente do
piorio, pois então!)
O tal príncipe, filho do Conde Dom
Henrique de Borgonha e de dona Teresa de Aragão, esta filha do rei de Aragão e
Castela, Afonso VI e que veio a ser o Primeiro Rei de Portugal, num gesto pouco
cristão, juntamente com seu pai, atiraram-se aos moiros, com ajuda dos Cruzados
da Ordem de Santiago. E a partir de Guimarães, ou de ali perto, desataram à
porrada em todas as mourarias, cantadas muito mais tarde, em bom estilo
fadista:
“Ai, mouraria
Da velha rua da
Palma
Onde eu um dia
Deixei presa a
minha alma!
....por ter
passado... e por aí abaixo
pois nada tem a ver com aqueles, onde
não havia, nem fado, nem ... ah, fadista!”
E só muitos anos mais tarde é que
apareceu, já a moirama tina abandonado, com honra e sem glória, os castelos,
que a tanto custo foi construindo (eles lá deviam saber porquê e eu também
penso que sei, mas não digo, os historiadores o fizeram e se não fizeram antes,
que o façam agora, nomeadamente uma, em final de investigação, lá para os lados
de Berlim, terra que foi dos bárbaros e que pela terra, hoje nossa, andaram,
muito antes dos moiros terem chegado e não se portaram muito bem.
Com uma espada daquelas – a que está
no Castelo de São Jorge, bem no alto da Mouraria - nenhum moiro resistia!
O trabalho dos moiros deve ter sido
muito e intenso, para ainda hoje, tantos séculos passados, se utilizar o
aforismo: “ trabalhei que nem um moiro!”.
O dito hoje usado por quem não
citarei, pois são muitos, “dobram a mola” (outro aforismo) até ao fim da
resistência, agora por causa da produtividade e competitividade. Mas não é dos
que dobram a mola, fique claro! É outra gente, do tipo Afonso Henriques, mas
para pior!
O aforismo primeiro, tudo leva a crer,
é mais teoria do que prática, se os moiros a definir, não sei se com palavras,
o mais certo seria com “manguitos”, do tipo Zé Povinho, do Bordalo das Caldas.
No meio daquela conversa com a
brasileira, à volta das chaminés e da grande variedade de arabescos, não me
lembrei de referir o dito que a minha progenitora, entre outros e todos sábios,
usava:
- “PRIMRIRO, AS OBRIGAÇÕES E DEPOIS AS
DEVOÇÕES”!
Os nossos antepassados árabes, uma vez
encontrada a forma da funcionalidade das chaminés, a parte que se não vê, como
gente de bom gosto, que parece ter sido, começaram a investir na decoração das
ditas! E não me espantaria que, entre eles, houvesse concursos, como os jogos
florais do tempo do professor Salazar, com prémios para os mais conseguidos, em
beleza.
IX
O jogo de futebol entre a Alemanha e a
Inglaterra terminou, com a germânica vitória de quatro a um.
Tudo alegre, festivo mesmo para
alguns, o grupo, novamente agrupado nos dois carros, rumou para Albufeira,
portugueses e brasileira queriam tomar o seu café.
Bem longe do centro, onde conheci
campos secos, com uma dúzia de amendoeiras e outra meia de figueiras e outras
tantas alfarrobeiras, foram os carros estacionados, ao lado de prédios de
vários pisos, à mistura com espaços sem árvores e sem jardins e restos de
construções e seus estaleiros.
Ao caminharmos em direção à parte
baixa e antiga de há tantos anos, onde se transitava com calma e sem ruídos, a
não ser um ou outro músico itinerante, em digressão pelas praias do sul da
Europa, onde ia encontrando o seu palco, a sua plateia, que noutros lugares,
com homens engravatados e damas perfumadas, lhe era negado.
As ruas, nesta noite de sábado de fim
de Junho, um espaço alucinado, onde as mesas dos bares e restaurantes insistiam
em inventar espaço, que disputavam com os expositores de todo o tipo de
bugigangas, sobressaindo os trapos de cores garridas, uma miscelânea a fingir
de artesanato, a competirem com a mais extravagante mercadoria, sem origem nem
brilho.
As pessoas moviam-se com dificuldade,
mais parecendo uma procissão pagã, a caminho da Meca dos tempos modernos: o
consumo e o dinheiro, se possível já, mesmo sem origem.
De tal confusão de pessoas e idiomas,
resultava um padrão comum, sem contornos, que bem poderia ser a língua
universal futurista, não estridente como eram as “ vuvu zelas” da terra de
Mandela, mas uns quantos, muitos, decibéis ou tons, abaixo, como se cada um e
todos em coro, falassem pelo nariz.
Duma rua lateral irrompe o contraste
visual: um grupo de seis ou oito clonadas jovens, vestidas como as coelhinhas
da Playboy, extremamente maquilhadas, transformadas numa ninhada de gémeas, a
caminho do céu, ou do inferno, conforme a imaginação de cada um. Logo uma boca,
com desenho de porta, as engoliu, como monstro sem nome e o tumulto iniciado
voltou à cadência anterior e aos inevitáveis empurrões.
A uma farda, das raras masculinas, que
se perfilavam ao lado das mesas plasmadas nas paredes da estreita rua,
perguntei se serviam café, recebendo como resposta: só servimos o que consta do
menu de cocktails que constavam da ementa geral; as respostas de duas fardas
femininas foram exatamente as mesmas da masculina farda, mais parecendo o refrão
daquela canção amorfa que emanava da multidão. Assim, da primeira à última das
fardas.
A brasileira, adoradora das chaminés,
entrava e logo saía das lojas de bric-à-brac, em busca de miniaturas dos seus
ídolos, mas não teve sorte, em cima dos telhados era o que não faltava, mas as
miniaturas...não apareciam, talvez por que não repuseram o stock! Acabou por se
decidir pelo que de mais se parecia com as chaminés ou por que, no Brasil não
havia: uma miniatura de farol. Notando-se que era uma segunda opção.
Mesmo distraidamente, pareceu-me ter
visto, numa das lojas, alguns exemplares de miniaturas e isso lhe comuniquei:
eu já vos apanho e voltei atrás, entrando na rua de onde tínhamos saído e lá
encontrei e comprei duas miniaturas para que não fosse de todo perdido o
esforço da busca.
Voltando ao local onde a tinha
deixado, no ponto onde a rua estreita desaguava ou desarruava na mais larga, na
perpendicular, mas não encontrei ninguém do grupo.
Intercalo que, antes, tínhamos achado
um pequeno café e pastelaria, onde satisfizemos o adiado desejo e deu para
algumas fotos que não vi, mas que me constou terem ficado um espanto.
Calculo!
Em bicos de pés, como se os pés
tivessem bico, olhando para os dois lados da rua mais larga, tentando localizar
uma cabeça loira, acima das outras, que seria a do anfitrião, o mais alto dos
quatro. Nada! O que não faltavam, naqueles cem metros de ocupação, eram cabeças
loiras! Umas mais altas, mas nenhuma me pareceu a dele. Procurar a amiga do
Luxemburgo, com o seu metro e sessenta ou pouco mais, só se eu tivesse a
natureza de um qualquer vira-latas e usasse o sentido do olfato e a
localizasse, farejando o seu perfume, no meio daquele labirinto de odores, onde
o predominante seria, naquelas condições, o de sovaco mal lavado, naquele meio
de noite abafada de Albufeira.
Perdida a esperança de os encontrar
pela visão, passei a outra modalidade, chamando pelo nome menos confundível, o
do anfitrião! O resultado foi o mesmo: ninguém se acusou. Só o ruído
incaracterístico, como sonata sem melodia, foi a resposta.
Suspendendo as buscas, visual e
sonora, regressei à praça da lógica, depois de passar por duas estátuas
humanas, um número de circo com bolas e vários músicos sem pauta, atentos ao
ruido de alguma moeda a cair no boné, poisado à frente do palco e tilintar de
contente.
No extremo do que antes fora o jardim,
estava montado um pequeno palco, para qualquer evento público, onde se
encontravam várias pessoas a ver, daquele improvisado miradouro, a vaga humana
que mais parecia um monstro, a respirar pausadamente! A ele subi, sem outra
função que não fosse ver se localizava o grupo, insistindo em olhar para onde
havia menos gente, a caminho do parque onde os carros ficaram estacionados e
onde pensava ir ter.
Dei comigo a recuar cinco anos, até à
cidade de Berlin e a pensar: ainda bem que a Gui (único nome referido, Valente
Gui!) aqui não está (mas gostava tanto que estivesse!), nesta pequena aventura
algarvia, senão, era mais que certo, caso não tenha mudado muito (cinco anos na
vida duma pessoa jovem, fazem algum bem...ou mal!), senão era mais que certo
que me desancava.
Para que no ar não fique algum
mistério, aqui fica uma síntese do que se passou e de nunca antes falei, nem
pensei, mas que neste impasse me ocorreu:
- Um dia ou dois antes da festa de
aniversário da mãe, completou então quarenta anos e indo a Gui de férias,
decidiram consultar um médico, penso que de dermatologia, para que lhe
observasse uns sinais que tinha e certamente ainda terá, nas costas, para
saberem se podia ir, tranquila, para férias. Quando entraram no gabinete do
clinico, fiquei eu na sala de espera, com duas senhoras idosas, alemãs, mudas
como é hábito, decidi ir beber um café e voltar de seguida;
- Estava há instantes sentado, eis que
entra a Gui, vinda da rua, quando eu pensava que ainda estava a ser examinada e
num tom de muito zangada, perguntava-me onde me tinha metido, pois já tinham
corrido tudo à minha procura!
Fui só beber um café e voltei de
seguida, esclareci!
- E se te perdesses? Interrogava!
Nem o facto de ter alertado para os
chapéus-de-chuva que continuavam no porta-chapéus a levou a modificar a
reprimenda. Não estou a nada a ver a Gui ou a mãe, numa das principais avenidas
de Berlin, de mãos em concha, coladas aos lados da boca e a gritar pelo meu nome!
Devemos ter-nos desencontrado e deu no
que deu. De certeza que também ela não mais pensou no assunto e ainda bem. Não
devemos ter levado o telemóvel, pois doutro modo teríamos usado.
- Alguma vez pensámos nos chapéus!
Saímos e não te vimos, fomos logo procurar-te! Não deves fazer isso!
Recomendou!
Era o que me esperava se ela
estivesse. A aniversariante pode ficar pior que estragada comigo, mas com a sua
habitual diplomacia, não me ralha muito.
X
Acabei por desistir da busca e decidi
ir para junto dos carros e esperar que chegassem, caso não estivessem já à
minha espera.
Enquanto deixava o palco, sem
aplausos, ia rememorando a cena de Berlin e a desejar que a princesa lá
estivesse! Sorria, com a ideia.
Teria andado cerca de dez metros a
partir do palco, quando oiço perto do ouvido, uma voz de sotaque estranho, a
pronunciar o meu nome ao mesmo tempo que duas mãos agarravam, com vigor, a
minha mão direita e vi um amplo sorriso, de vitória, estampado no rosto da
romena; não consegui dizer mais que ela entendesse, que não fosse: OBRIGADO!
Com o marido ao lado, sorrindo, não
mais largou a minha mão, como se fosse um prisioneiro ou como quem leva pela
mão uma criança mal comportada, até nos juntarmos ao grupo, onde ergueu a minha
mão entre as dela, como se exibisse um troféu, conquistado naquela noite louco
de Albufeira.
Entreguei à brasileira as duas
chaminés árabes, que me agradeceu com um amplo sorriso de satisfação.
Entrámos nos carros e partimos, para mais
uma hora de cavaqueira, junto da piscina da vivenda São Sebastião, onde a lua
se espelhava, não sei se mostrando a fase crescente ou minguante.
Mas que importância pode ter a fase da
Lua numa noite assim?
Reis Caçote
Digit.25/06/2017
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