I
A natural propensão para as ciências ditas exactas, tem perturbado os
tempos concedidos, ou mesmo negados, a outras em que os teoremas não se aplicam
e se por vezes se esboçam são de difícil demonstração, em tempo útil.
No caso em análise a ciência comum não terá ainda definido, com o rigor
do acto científico, qual o patamar de enquadramento. Apenas sugerindo que, a
forma incomum do nosso comportamento relacional, se manifesta em coordenadas
mentais de rigor indefinido e cuja curialidade justifica a continuação da busca
de explicação, sempre com o cuidado de que a vigília não atente ou perturbe o
seu ritmo e lhe tire a dose de encanto que tem tido.
Talvez o tempo futuro explique o tempo presente e lhe subtraia a parcela
quase mística que o tem caracterizado; espero bem que não.
II
Não passou ainda um mês sobre o tempo da mudança de apartamento, dentro
do mesmo bloco habitacional e do mesmo piso.
Talvez devido à ausência de um plano mínimo de ordenamento, contrariando
todo o meu percurso formativo, o caos instalou-se com tal evidência que, mesmo
sendo poucos os bens mudados, ao segundo dia estava já a sentir os efeitos: ao
nível do cansaço físico e até do metabólico, este marcado pela brusca recusa do
mais elementar acto de ingerir uma refeição, tal como sucedera no Porto, em
meados de Janeiro, ao jantar, em que o prato escolhido era de carapaus fritos
com arroz de feijão e de que especialmente gosto.
A conclusão que tirei vai no sentido de que o stress, causado pela tensão
prolongada, não se manifesta só no cansaço físico, mas sobretudo e de imediato,
no aparelho digestivo, alterando-lhe o normal funcionamento.
Estou convencido de que o provérbio “quem muda Deus ajuda” não se aplica
a todas as mudanças ou a todos os que mudam. Não terá a ver com as comuns
mudanças, talvez se aplique apenas às mudanças nos divinos espaços da fé,
exactamente aqueles de que pouco sei, mais por falta de tempo e não de
curiosidade.
E, segundo parece, também não terá sido grande a ajuda que o mesmo deus
concedeu à Sofia quando, no ano passado, teve que mudar do Norte para o Sul do
grande País onde há vários anos vive, não sendo poucas as vezes que se queixou
da grande estopada que a mudança estava a ser e o desequilíbrio que trouxe.
A mudança impôs-se-lhe, uma vez mais, devido à alteração do local de
trabalho do Peter, por razões que não conheço, mas que me atrevo a imaginar,
tendo em conta o que testemunhei em Junho de dois mil e cinco, quando tive o
gratíssimo prazer de ser convidado para a festa de aniversário da Sofia.
Era desumana a carga de trabalho que ele, Peter, tinha de cumprir, desde
madrugada às dez da noite, uma boa parte do tempo passada no trajecto de casa
para a empresa e vice-versa, todos os dias úteis.
Mudou de empresa, sem problemas ao que parece, a sua formação técnica
tem aplicação em todas as situações empresariais, nomeadamente a industrial com
uma dimensão de grande empresa.
Já instalados há meses, apenas
terão que continuar a adaptação ao meio e ordenar doutra forma os seus tempos e
enquadramento social.
III
As diversas etapas da mudança do casal prolongaram-se até Novembro,
soube-o acidentalmente nesse mesmo mês e, uma vez mais, através de uma
coincidência que não tem deixado de suscitar uma invulgar curiosidade da minha
parte e da Sofia talvez nem tanto, por adoptar o posicionamento mais cómodo de
não pensar, atribuindo-lhe o estatuto de coincidência!
Na parte que me toca só mesmo a falta de disponibilidade e confiança
para este tipo de abordagem técnica, me tem inibido da consulta a psicanalista,
preferindo que as surpresas continuem a ter sua aura mística que lhe tem dado beleza,
em vez de me sujeitar à exposição, mesmo que privada, da parte mais intimista
da minha existência e sair de lá com uma espécie de sentença utilitária que os
“sábios” sempre gostam de aplicar, não para satisfação do sentenciado, antes
para sua própria e assim não assumirem que o consulente em nada beneficiou da
consulta.
Se um dia entender que vale a pena, até para minha formação pessoal,
sujeitar-me-ei ao exame. Por enquanto não.
Continuando na direcção que me propus.
No dia dezoito de Novembro, sábado, sendo o meu horário de trabalho das
oito às dezasseis horas, tinha o relógio a despertar, como habitualmente, para
as sete horas. Dava para me barbear, tomar duche, vestir e tomar o
pequeno-almoço a caminho do local de trabalho.
Às seis e trinta e cinco, o maravilhoso aparelho que a ciência criou
para sequestrar o tempo e o mundo adoptou, fez ouvir o sinal característico da
entrada de uma mensagem. Premi a tecla e li:
- Bom dia Carioca, agora vou para HdH; andar de avião é chato; Ber.foi
bom. Como você está? Jinhos”
Era a Sofia a anunciar o fim da mudança!
Respondido:
- Agora estou acordado! Olá, Pipocas, k bom, andar
de avião e regressar ao lar! Tudo bem em Ber.? Beijocas.
Minutos depois, ta e oito, novo sms:
- “Você está acordado 24 h ? Durma e sonhe…depois
diga-me como foi. Bom sábado.”
Resposta:
- Ainda há dois dias sucedeu, mas aquele penteado a
coisa não dá! Vai lá, não te atrases. Beijos.
Novo sms enviado às sete horas e seis minutos:
- Espero que te enganes na GATE e venhas parar a
Lisboa. Só acordei meia hora mais cedo, o despertar era para as sete. Foi bom.
Beijos.
Chegada do terceiro sms às nove horas e dois
minutos:
- “Não sei o k vc ker dizer com penteado, mas eu
cortei o cabelo bem curto! Tá a ver?!já não percebo nada!
Resposta, entre a surpresa e diversão:
Voltamos ao mesmo?! Pois é, Pipocas, vamos ter que
achar explicação! Ou não! Somos gémeos, de mães e tempos diferentes! O cabelo
era curto, suavemente ondulado e o vestido como o do aniversário, preto com
estampados em prata. Dançámos bem. Beijocas.
Último sms expedido às onze e vinte e três:
- Não queira deixar-me sempre no escuro, mas acho
isto interessante, tal como está! Não é área que o Freud tenha tratado?! Tenho
saudades.
Agora, à distância bastante para que não haja
influência emocional, tenho que me interrogar sobre se há explicação para mais
uma coincidência? Não sei, não vou saber, a resposta, se a houver, ela virá
naturalmente! Só se, como antes disse, a curiosidade ultrapassar ou perturbar
este encanto, que só não terá outras dimensões porque os contactos, mesmo
telefónicos, escasseiam. É a vida.
IV
A Sofia e o Peter estiveram em Portugal no mês de
Abril, inesperadamente como sempre.
Encontrámo-nos na capital do Vidro, do nosso
conhecimento, da tertúlia do sexto B.
Sem bagagem acompanhei-os até Lisboa, onde dormi,
em casa da Anita.
No dia seguinte tomámos o pequeno-almoço na Praça
da Figueira - vai uma torrada, Sofia? – com o Sol de Abril a dardejar na
esplanada, eu a procurar o refúgio na sombra do chapéu, o Peter e a Sofia
trabalhavam para o bronze, expostos aos raios solares, sem pressa, saboreando a
primeira refeição.
Não preveni o Peter de que aquela exposição, para
peles desabituadas, era capaz de ser arriscada. Não pensei muito no assunto por
estar convencido de que se o fizesse a recomendação não seria acatada, o
pessoal daquelas latitudes querem é aproveitar o Sol quando e onde o há!
Estamos na terra do Sol, há que aproveitá-lo, seria
o mais natural ter como resposta.
Olhámos o Rossio de passagem, descemos a Rua
Augusta com todo o seu colorido e promiscuidade entre a ostentação e a miséria
e entrámos na sala de visitas da capital, o Terreiro do Paço, desde há muito
Praça do Comércio, também foi já, ao contrário do Comércio, praça de automóveis
e de manifestações encomendadas do dez de Junho, do dia da Raça, de triste
memória.
Não sei o que terá estado na base da designação
agora oficial, se por um lado é verdade que com o fim da monarquia era um
anacronismo manter o terreiro do paço, por outro a do Comércio, valha-nos Santo
António!
Terá sido pelo Ministério ter ali os seus
“aposentos”? Mas era só o nome, porque comércio nunca fizemos, o que houve sempre
foram negócios e alguns deles…ui, ui, só que eram em escudos! Agora os negócios
são de todos os tipos do passado, mais umas novidades que os iluminados de
agora inventaram e que geram lucros e de que maneira!
Mas o único acusado de Negócios era o dos
Estrangeiros e ainda hoje é assim, todo mundo faz negociatas, mas o único
culpado é aquele que as não faz, nem outras, ou seja, nada faz! Mas, vamos
andando, porque se entramos um pouco mais nos terrenos pantanosos de lá ou de
cá não mais saímos!
A Sofia, no seu andar entre a marcha e a valsa,
inicialmente tinha escrito desengonçado, fez a inspecção dos preços das viagens
turísticas, em eléctrico ou autocarro com “terraço” mas a opção, por mim
sugerida, foi a de o fazermos a pé, não só por os preços serem uma
exorbitância, e a financeira Sofia não entra nesse tipo de negócio, ainda a
hei-de ver um dia a dirigir as finanças de um país qualquer, como se a
licenciada em finanças lá de casa fosse ela!
Faltava escolher percurso, exactamente aquele que
autocarro ou eléctrico não faziam: Alfama!
Verdade seja dita que também teve a sua influência
o facto de estar ali à “mão de semear” ou mais rigoroso, ao “pé de andar”!
Entrámos pelo Campo das Cebolas, um nome que nunca
mais esquecerei por motivos que não esquecerei tão cedo ou tarde, mas isso é
outra conversa! Ao lado da Casa dos Bicos entrámos no mais típico bairro da
capital, para mim, e a seguir o da Mouraria, onde tirei o meu curso de marçano,
que eu prefiro o de aviador, pois formava miúdos para aviar ao balcão e
marçanar nem deve existir!
Subindo rampas e degraus, naquele doce mistério de
só se ver a esquina a seguir, passámos pela igreja de São João Batista, o que
baptizou Cristo lá no rio Jordão, pela do Arcanjo São Gabriel, o mesmo que tem
casa lá no alto do monte do Anjo, em Castelo Melhor e outras igrejas, muitas e
tascas, muitas e bares fechados àquela hora, bastantes; sempre assim até que a
fome apertou e sem grande preocupação de escolha, lá aterrámos numa esplanada
de duas mesas a cair na calçada inclinada para o Tejo, do lado direito da porta
de entrada e do lado esquerdo o grelhador, com dois apoios para não se esbarrondar
para cima da esplanada, mas assim é que era típico!
Ementa: sardinha assada, com muito pimento e
tomate! Foi um pitéu e por pouco dinheiro! E toca a andar, depois do café e uma
aguardente que o Peter quis beber para não ser uma refeição incompleta, pois o
Bairro só terminava lá no alto e ainda nem a meio estávamos.
No largo do Miradouro das Portas do Sol, juntou-se
ao trio a Ana, o Tiago e o António, que tinha conhecido na véspera.
Daí em diante o passeio foi de carro, o Peter
gostou do espectáculo que dos miradouros se vê, mas não se manifestou, só no do
Castelo de São Jorge revelou um pouco do agrado que sentia de ver a simbiose
entre a cidade e o Tejo, ambos se afagando e lambendo numa permanente orgia de
sensualidade. Esta pequena ode é minha, eu estava emocionado pelo regresso a
locais que tanto enformaram minha sensualidade.
Tinha saudades, mas não sabia que eram tantas e tão
emotivas, confesso.
Ao fim do dia eu regressei a Leiria e eles, Sofia e
Peter, ainda ficaram em Lisboa, não sei quanto tempo, mas tinham em vista o
Algarve.
Eles mostraram-me uma parte de Berlin que achavam
que eu gostaria, eu levei-o para o espaço que tinha a certeza gostaria; ele,
porque a Sofia conhecia bem.
V
No dia seis de Dezembro telefonei à Sofia e de
imediato, sem qualquer saudação, perguntou:
“Como é que você adivinhou que estava a acabar a
sua prenda de Natal?!”
E sem dizer de que se tratava, passámos a falar do
tempo que fazia e como estava ela a adaptar-se ao novo espaço e local de
residência; falou do que tinha já visitado e da grande beleza dos locais,
também do amigo Frederic, vizinho de Berlin.
Tinha já enviado curriculum para diversas empresas
e teria já em vista, não antes da passagem de ano, poder trabalhar numa das
lojas da maior empresa de comercialização no ramo da óptica, o que equivaleria
a não ter férias tão cedo!
Por que não vens antes? Perguntei. E, como estava
no computador, iniciou de imediato uma busca pelas companhias, vendo preços e
períodos, acabando por encontrar um voo para o período de dezasseis de Janeiro
a quatro de Fevereiro, com chegada ao Porto, aeroporto Sá Carneiro e pelo
preço, um tanto louco, de quarenta e seis euros e oitenta cêntimos, com todas
as taxas incluídas!
Estás a gozar! Disse eu.
- Não estou nada, quer ver que vou já marcar a
passagem!
E marcou.
Durante a estadia ela contou que, uma amiga dela,
alemã, a quem contou a marcação do voo e o preço e que a amiga terá comentado,
divertida, “ será que tem piloto?!”
De facto, é de não mais fechar a boca de espanto!
VI
O deslumbramento da lembrança de Natal comoveu-me
até às lágrimas!
Pela originalidade da ideia, pela sensibilidade e
variedade dos temas sobre um calendário do ano que ia em breve começar – dois
mil e sete.
A Sofia estava em forma e revelava sensibilidade
que lhe desconhecia. Subiu, com este simples gesto, ao patamar mais elevado da
minha consideração.
E daí em diante dediquei meu entusiasmo a preparar
uma recepção que fosse semelhante, em franqueza e simplicidade como senti a
primeira vez, em dois mil e cinco quando estive em Berlin.
Ficara assente, logo naquele seis de Dezembro, que
eu a iria esperar ao Porto, tal como fez comigo, no Tegel.
Cheguei ao Porto perto das onze horas, depositei o
malote na estação da Rodoviária e procurei o transporte para Pedras Rubras,
onde se situa o aeroporto; a estação do Metro da Trindade era muito perto da
Batalha, ambos conhecia bem.
O novo Metro do Porto levou-me até Pedras Rubras,
parando em tudo o que era “estação e apeadeiro” como costumava dizer-se sobre
os comboios.
Acabei por chegar, não muito tempo depois, apesar
das frequentes paragens, a um lugar que de todo desconhecia.
Queria recebê-la com uma rosa ou um ramo delas, mas
o projecto se gorou: não havia!
Cerca de quinze minutos depois da hora prevista
aparece a Sofia, sorriso amplo e braço bem levantado em saudação enquanto se
dirigia para a saída.
Vestia calça preta justa e um casaco de lã, branco,
malha grossa do tipo dos nossos regionais, aberto, sem botões e atado à frente
com um cinto da mesma lã sem ser apertado, de forma desportiva e dinâmica; as
sapatilhas, modelo bota como ela sempre gostou, prometiam caminhadas sem
limite.
O cabelo, cortado, rasando os ombros e levemente
virado para dentro, dava-lhe um ar de irrequietude e elegância. Ficava muito,
muito bem, mesmo para quem estava habituado à imagem com cabelo comprido, que
era a de marca. A franja estava no tamanho habitual e certo!
Um abraço de quem se viu no dia anterior, foi o
nosso cumprimento!
Planos? Perguntei.
Nenhum em especial, vamos procurar dormida e
almoçar.
Apanhámos o Metro para o Porto, procurámos
residencial que eu tinha já referenciado, bem no centro da Invicta cidade;
largou o malote no seu quarto, eu nem fui ver o meu, no andar de cima, por ter
o malote a guardar na garagem da Rodoviária e fomos à procura de local para dar
ao dente, apetite não faltava.
Escolhemos pratos diferentes, como habitualmente
fazíamos, assim sempre dava para uma “vaquinha” de camaradagem! A Sofia bebeu
sumo, eu preferi um tinto maduro, da casa, por sinal bem agradável.
“Negociámos” a utilização do telemóvel por que ela
não trouxe o seu e eu pouco me servia do TMN. Carregou-se e não pensei mais no
assunto, a Sofia sabia de telemóveis do que eu.
Fomos à Rodoviária levantar o meu malote, deixá-lo
no meu quarto e daí em diante foi calcorrear as ruas da parte antiga da cidade,
a Sofia disparando a sua máquina assim que algo de suspeito via, num frenesim
que lhe não conhecia!
Expediu sms para o Peter e ele passado pouco tempo
ligou e logo a encarregou de tentar encontrar um Port wine de mil novecentos e
oitenta e dois, para oferecer à mana que tinha nascido nesse ano.
Não me surpreenderia que um português, conhecedor
do tão celebrado vinho, fizesse uma encomenda daquele tipo, já o mesmo não
sucedia que um natural do Oregon, mas filho de pais alemães, tivesse tal
iniciativa! Ou revelava alguma fraca ironia um conhecimento razoável dos
meandros do generoso vinho! A que estava certa era a última das hipóteses!
Conhecia melhor que eu, o que nem é muito difícil, o mecanismo das escolhas
anuais.
Encontrámos, à terceira ou quarta garrafeira
visitadas. Barato é que não foi, segundo a Sofia! Eu, confesso, não tinha
opinião. Segundo a informação dada pelo comerciante para justificar aquele
preço, foi de que a colheita desse ano foi pequena, mas de boa qualidade.
A garrafeira arranjou embalagem e nós só tivemos
que a proteger de algum acidente que a impedisse de chegar ao destino. Eu
desejei-lhe boa viagem. E teve-a, segundo soube mais tarde.
Já com uns quilómetros nas sapatilhas e o fim da
tarde a chegar sorrateiro, decidimos ir tomar uma beer fresquinha e comer um
pastelinho de bacalhau, numa cervejaria perto da residencial.
Tudo a decorrer sem pressa e com muita
descontracção.
VII
O jantar viria, inesperadamente, a alterar
radicalmente e sem recurso, aquilo que parecia vir a ser uma agradável estadia!
Ainda hoje não consegui explicar-me, de forma entendível,
o que de facto se passou, mesmo tendo em conta o que narrei no início,
propositadamente, sobre o efeito stressante do final da mudança de apartamento:do
duzentos e sete, para o duzentos e um! Irei tentando perceber, com o tempo, já
que avida não pára, espero que não, para mim e para a Sofia.
- Importa-se que eu mande um sms ao Rafael, que ele
está cá no Porto a desenvolver um trabalho?
Claro que não, o telemóvel está agora por tua conta
e usa-lo como quiseres!
Eu não conhecia o Rafael, apenas sabia, por dele
ter falado, de forma que não era de todo abonatória por qualquer falta de
cortesia para com eles, depois de ter estado cerca de um mês em casa deles, em
Berlin e não ter ido à festa do seu quadragésimo aniversário, dando uma
qualquer desculpa que não terá sido satisfatória.
Só não acrescentei, por que não traduziria o que
sinto sobre o provérbio, que “os amigos dos meus amigos, meus amigos são”, uma
vez que sempre pensei e continuo pensando, que isso implicaria que o contrário
devia também estar implícito, ou seja “os inimigos dos meus amigos, meus
inimigos são”! É descabido e até aberrante por ser limitativo da decisão
individual.
Não era o caso do Rafael: não conhecia, nem hoje
conheço pessoalmente, sabendo apenas que se dedica à execução de música que
designarei, na falta de melhor sapiência sobre o género, por “radical”
extraindo sons com os mais variados meios de utilização urbana.
Se a falta de cortesia existiu, quem mais terá
afectado foi a Sofia, porque quando ligava para ela e o Peter atendia,
perguntava sempre “é o Rafael ?” não me parecendo, pelo tom de voz que ele
estivesse melindrado.
Tudo não passa de presunções e não é bem a minha
forma de pensar, muito menos se forem preconceituosas.
O mais certo seria estar enganado e o Rafa ser um
amigo estimado no seio da família.
Retomando a narrativa:
O Rafa, em resposta ao sms da Sofia, cujo teor
naturalmente desconheço, apenas terá respondido um ”OK” displicente, que não
terá agradado à Sofia, mas conservando a calma habitual ou pelo menos dominando
bem o mecanismo reaccional, apenas comentou: “xô, olha que resposta: OK!” e
pareceu desinteressar-se do assunto, não sem antes ter referido, como forma de
desabafo ressentido, o tempo que o Rafa tinha passado em casa deles, em Berlin.
O jantar tardou a ser servido e como entrada, para
passar o tempo, comemos uns queijinhos curados que quase sempre é posto na
mesa.
Ainda não tinham chegado os carapaus e o arroz
quando a Sofia pegou no telemóvel, que ela teria sem som, verificando que tinha
uma chamada não atendida.
- Era do Rafael! Ar frustrado.
Irritada por não ter ouvido o telefone,
queixando-se do aparelho, eram remoques a mim pareciam dirigidos, mas que o
nosso percurso de amizade não lhe dava ou não aconselhava, outra forma
manifestação.
Foi todo este conjunto de raciocínios,
provavelmente errados, mas bem reais e sentidos, que me provocaram uma
desconfortável reacção física, manifestando-se na rejeição total do jantar, os
tais carapaus fritos com arroz de feijão. Era tão manifesta para mim que tinha
absoluta certeza de que se tentasse ingerir algum alimento seria de imediato
rejeitado.
- Mas que se passa? Pergunta a Sofia.
Não sei explicar, respondi! Só sei que se comer
alguma coisa vou vomitá-la! Também eu desconhecia este tipo de reacção orgânica,
do que me recordava era de comer mais, quanto mais angustiado eu estivesse.
Como disse, no início da narrativa, esta mesma
sensação desagradável a senti, ao jantar, no restaurante onde fazia as
refeições, no primeiro dia da mudança de apartamento! Ou seja, em duas ocasiões
distantes temporalmente e por razões distintas. Algo teria mudado em mim e
receando que fosse algo não contornável no futuro, iria passar a estar alerta!
A noite do Porto ficou perturbada e o escasso tempo
que após o jantar estivemos na rua, a cidade pareceu-me fria, dormente,
desagradável.
Regressados à residencial, foi só pegar no meu
malote que tinha deixado no quarto da Sofia e seguir para o meu.
Tentei ver televisão, mas não consegui
concentrar-me, leitura muito menos e dormir foi difícil, para o que também
contribuiu o ruído do ar condicionado. Algo do foro psíquico estava por
resolver.
Passei em revista o tempo passado e não consegui
encontrar uma explicação plausível para o bloqueio instalado o que colocava em
risco todo ou uma boa parte do que esperava do tão ansiado reencontro e que era
somente: delicadeza, sobriedade, respeito e muita amizade!
Amanhã tudo poderá melhorar, pensava eu durante a
inesperada vigília, mas o tempo se arrastava como água de lagoa, mas sem a
transparência da água.
Acabei por adormecer e sei que sonhei, como é
frequente suceder não me recordar mal acordo, ficando a cobri-lo uma espécie de
neblina que mais não permite que encontrar pontas soltas, insuficientes para
uma reconstituição. Estava ainda às voltas com o sonho, que seria mais
pesadelo, pela sensação que tinha quando o telefone tocou, não seriam ainda
nove horas!
- Doutor, vamos ao pequeno- almoço? Era a Sofia.
Claro!
- Daqui a quanto tempo?
Diz tu, eu depressa me apronto.
- Nove e meia, está bem?
Óptimo. Pareceu-me estar mais bem-disposta; o sono
é um bom paliativo para todos os males ou pelo menos para alguns menos males!
Pena que eu tenha dormido tão mal, mas tudo vai melhorar! E preciso que
melhore!
- Então, passou bem a noite? A má disposição do
jantar desapareceu?
Ah, sim, a água das Pedras resolveu tudo! Não dormi
muito bem e dormi pouco, mas o pequeno-almoço e o café a seguir vão pôr tudo em
ordem!
Não puseram. O dia estava frio e a chuva miudinha,
a tal de molha tolos, chata e persistente, platinou passeios e jardins, bom
como as robustas e bem trabalhadas paredes de granito da baixa da bela cidade.
- E eu que não trouxe roupa apropriada para a
chuva, como vou fazer?
Talvez eu tenha parte da solução, se não te
importares de usar! Vamos ver?
Tinha levado o colete azul, de trabalho, sem
mangas, ainda por estrear, que o Caló me oferecera no Natal, um dos dois que a
ele tinha oferecido um dos fornecedores da empresa onde trabalha.
Experimentou, gostou e saímos para a combinada
visita à Ribeira, interrompida na véspera, mais devido ao cansaço do que à
vontade de continuar.
A uns cem metros da residencial, em pleno passeio,
várias vendedeiras ambulantes, que noutra época venderiam cachecóis, bonés e
bandeiras, apregoavam agora chapéus-de-chuva, como no São João apregoariam “olhó
belo alho-porro” e “olhó manjerico”; agora era “é prá chuva, olhos chapéus, é
só cinco euros”!
Nem mais, arranje dois.
- Escolha, freguesa, é o melhor que há!
E lá embarcámos nos chapéus, bom jeito iriam dar!
Como os dois chapéus abertos não davam jeito para
irmos conversando e frequentemente pessoas apressadas passavam entre a nossa
conversa, cortando-a a meio, a Sofia teve a brilhante ideia de fechar o dele e
abrigar-se sob a copa do meu; de “braço-dado”, neste caso, emprestado, lá
continuámos o percurso em direcção à parte intermédia e de onde se via, lá em
baixo, o Douro, de ar cansado, a entregar-se ao mar Atlântico sem pensar que
era o abandono da sua identidade como rio que ia perder!
Mais longe, do outro lado do rio, a escarpa de Gaia
e os velhos edifícios das Caves e da descida para a Ribeira pouco se via, mas
do pouco que se avistava era de uma beleza rara!
A chuva parou e a repórter Sofia ia disparando, por
vezes à queima-roupa, sobre tudo o que não mexia, ao contrário de algumas polícias
e de profissionais de tantos crimes: estes disparos foram para registar uma
janela de traça invulgar, um conjunto de antigos azulejos, uma varanda do
seculo XIX, e outros que não fixei na memória, mas ela os deve ter registados
em papel agora o que na altura era em película de filme.
- O melhor é comprar novo rolo, este está quase no
fim!
E lá fomos descendo, descendo, até junto ao Douro,
distraído naquele dia, ou silencioso na sua resignação de perda de identidade e
depois subindo, subindo rampas e escadarias até chegarmos à Sé.
Disparei as três primeiras fotografias do Largo do
Pelourinho, frente à Sé, cujo muro dá para o casario, indeciso entre ficar
naquela silenciosa inquietude ou atirar-se ao rio.
O casario e o rio lá ficaram, nós iríamos voltar
costas ao Porto.
VIII
Levantámos a bagagem na residencial antes do meio-dia
e partimos para Aveiro onde a Sofia esperava encontrar-se com o irmão, o Beto,
que ali morava há algum tempo.
Apanhámos o comboio em São Bento e pelo preço de
dois euros fizemos a viagem até à cidade do Vouga.
A Sofia deve ter traçado um plano antecipadamente
para a reportagem, pois mal chegou logo recomeçou a disparar e lamentou não ter
podido parar na localidade com o nome de Granja onde vira, pela janela do
combóio, umas casas que lhe chamaram a atenção.
- Fica para outra vez, disse.
A maior parte das casas eram de gente humilde,
rodeadas de terreno quase sempre por cultivar. Sobressaiam outras, em pontos
bem demarcados, com arquitectura mais cuidada, de maiores dimensões, estas sim
com seus jardins bem cuidados. O pormenor do abandono dos terrenos já não causa
estranheza. Do ruralismo que esteve na origem das construções já nada resta e o
cultivo já não dá para o cansaço! Os super e hipermercados têm de tudo e sem
qualquer trabalho, apenas o de puxar pela carteira ou cartão de crédito! Novos
tempos, estes, dizem muitos. E quando alguém pergunta se não seria bom ter à
porta uma quantidade de bens frescos, a resposta é quase sempre a mesma: isso já
lá vai!
O Beto apareceu algum tempo depois e deu a sua
ajuda na localização da residencial e restaurante, embora a Avenida doutor
Lourenço Peixinho, onde nós estávamos, tivesse de tudo o que procurávamos e com
a vantagem de ser a porta da frente para o mar, onde o Vouga, em delta bem
alargado, se dividia em vários braços, formando um grupo de pequenas ilhas que
se estendem por vários quilómetros, desaguando no Atlântico.
Apercebi-me de que a Sofia estava, propositada ou
naturalmente, a encetar uma visita ao passado mais remoto, onde a família morou
e o Pai trabalhou.
Aveiro é tida, com alguma dose de exagero, como a
capital da Arte Nova e para uma estudante destas coisas, e outras, só restava à
Sofia pegar na máquina fotográfica e registar tudo o que lhe chamasse a atenção
e coubesse no rolo ou película, que ela continuava a preferir em prejuízo das
novas tecnologias digitais, que eram a profanação do “mundo sagrado” que marcou
uma época de rotura urbana com a arte dos séculos anteriores.
Louvável o esforço, Sofia! O deus das artes te
agradecerá um dia!
A sensação de desconforto do primeiro jantar não se
tinha apagado por inteiro, nem mesmo com a chegada do novo elemento, com sua
experiência radical, como radical era a sua utópica ideia de futuro e de grandeza!
Era mais uma manifestação de arte cénica, em colisão com tudo o que a precedeu;
não era urbana, mas sim vincadamente suburbana: sem raízes, sem limites,
intemporal.
O Beto representava a rotura com o mundo arrumado
em que nasceu e perseguia o caos cósmico com a mesma naturalidade e oralidade
com que o guru defende e promove a sua doutrina!
A ambição prostituída de certo grupo protegido,
há-de prestar contas um dia, quando nós assumirmos o poder e definirmos as
regras!
Daqui à globalização dos interesses, que é o que
está em curso, vai toda a panóplia de amolecimentos, introspecções e violências
sem limites!
Dava comigo, várias vezes, a transformar o Rafael,
de que nada sabia, no meu inimigo de estimação, eu que nunca tive inimigos
comuns, muito menos de estimação.
Defendi sempre que um inimigo mais nunca é demais e
que a felicidade de um amigo não podia, nem devia, ser condicionada ou sequer
perturbada por algum preconceito doutro amigo.
Mais esforço mental dedicado à conjuntura, fiquei
razoavelmente convencido de que o sentimento era de recear pela Sofia, mas logo
de seguida anulei esta saída, tendo em conta:
- que a Sofia estava há “séculos” emancipada e do
que menos precisa são tutores, físicos ou mentais, para gerir o que sempre
geriu, mal ou bem – a sua vida;
- o que restava, afinal, era um medo atávico do
desconhecido, da surpresa, do “escuro” e este atavismo só pode ser ultrapassado
com um conhecimento mais profundo do elemento que promove o temor.
E neste emaranhado de conjecturas, sem respostas claras
e definitivas, depois de uma visita quase mística aos locais de infância e de
ausência à procura de um rasto que nos situe no tempo e no porquê, decidiu
deixar Aveiro e caminhar em direcção a Lisboa, com escala em Leiria. Por
cortesia também, mas de facto para continuar a sua “via-sacra”, sendo Leiria
uma das estações dum plano razoavelmente estruturado.
A etapa seguinte era a Marinha Grande e seria
natural que o fosse, nem vale a pena citar as razões, até porque as não conheço
por inteiro.
A visita, ainda em Leiria, ao espaço onde funcionou
um pequeno bar que sempre me pareceu “o pau na engrenagem” na tentativa de
parar, artificialmente, duas vontades de difícil acomodação e que agora estava
transformado numa pequena loja de pronto-a-vestir para senhora, onde, sem
entusiasmo, comprou uma peça que, sendo interessante e lhe ficar bem, não teve
outro valor que não o simbólico souvenir para marcar o registo da passagem.
O mesmo tinha sucedido em Aveiro, na ourivesaria ao
lado da óptica que foi onde o progenitor iniciara a profissão e onde comprou
uma pequena lembrança para si e outra para a princesa que dias antes tinha
somado um ano mais.
A procura das botas, também em Aveiro, essa foi
genuína e levada até ao limite da busca.
O jantar em Leiria foi morno e temi que a
precaridade da residencial que escolheu lhe não proporcionasse o reparador
descanso que devia precisar, depois de tantos quilómetros andados no Porto e em
Aveiro.
Disse, na manhã seguinte, que tinha descansado bem.
Que bom, Sofia! Pensei.
A ida à capital do vidro e visita ao progenitor
foi, para mim, instrutiva e esclarecedora, marcou o fim da primeira fase da
visita.
Havia que chegar a Lisboa e eu apoiei a manifestada
urgência, pelo menos aparentemente.
Seria, afinal, a despedida, não apresentada como
tal, mas de facto foi isso mesmo.
Aquilo que imaginei sucedesse e que era a
retribuição possível da muita simpatia que me foi dispensada em Junho de dois
mil e cinco, acabou por não ser mais que uma dolorosa passagem no tempo, de que
ficou uma frouxa sensação de tristeza, que só o facto de ter vindo atenuou.
Mantenho: foi bom a tua vinda, Sofia.
IX
Ainda
a
EPIFANIA
DE JANEIRO
Tinha decidido, quando iniciei o registo da visita
da Sofia, em Janeiro, que ele só incluiria o período que a antecedeu, rico em
pormenores de ordem emocional, na falta de melhor classificação e para
arrumação das ideias, mas também o tempo entre a chegada ao Porto e a partida
de Leiria para Lisboa, ou seja, de catorze a dezassete.
No regresso da Marinha Grande, após o almoço que
fizemos na Praça Stephens, a Sofia, perante a ainda mantida decisão de a
acompanhar para Lisboa, por qualquer razão ou razão nenhuma, recordou-me que em
Abril do ano anterior, quando todos estivemos em Lisboa, a Mãe teria comentado,
quando nos recebeu à porta do prédio que habita e que eu não ouvi, talvez por
estar atento ao modo como recebeu a Ana e o filho e que me pareceu, no mínimo,
desconfortável.
Segundo depois me contou a mãe terá dito que estava
a contar com a visita da Sofia e do Peter e não de alguém mais, pelos vistos
referindo-se a mim.
Fiquei espantado, mas só até me recordar do
cultivado temperamento, pouco amistoso, da Elisa. Não duvidei nem um instante
da Sofia.
Era o pormenor que faltava para que a minha não ida
a Lisboa fosse posta de lado, uma vez que era em casa da Elisa que a Sofia iria
pernoitar durante este período de férias, regressando a quatro de Fevereiro.
Mal saímos da camioneta que nos transportou da
Marinha Grande para Leiria, fomos saber os horários dos expressos para Lisboa,
sendo o mais próximo para daí a meia hora, ficando logo ali assente que ela
iria nesse horário, seria ir só ao meu apartamento, pegar na bagagem e voltar à
gare.
Assim foi feito e a Sofia lá seguiu, sozinha, para
Lisboa.
Das poucas conversas que trocámos soube que tinha
estado com uma forte constipação quase desde que chegou à capital, certamente
devida à chuvada do segundo dia no Porto. Contou também que a avó materna, mãe
da Elisa, quando a visitou logo se desentendeu com a filha, o que não era
novidade por ser frequente; davam-se mal por qualquer razão temperamental.
Quase na véspera de regressar, quando procurou
encontrar solução para o telemóvel que eu emprestara, perguntou se eu não
queria ir ao Porto jantar, no dia três, véspera de regresso.
Respondi que não estava a contar fazê-lo, por ter
interrompido as férias no dia seguinte ao da sua ida para Lisboa e também
gostava pouco de despedidas. Contudo podia analisar essa hipótese.
Acrescentou que se resolvesse ir devia avisar o
Rafael, com quem ia encontrar-se à noite, na Casa da Música.
Respondi que não faria tal, por não querer colocar
o Rafa na posição de senhor feudal a quem tem de pedir-se autorização para
entrar no seu feudo.
Ainda hoje fico horrorizado com a recordação deste
episódio! Sofisma verbal, que me deixou numa posição incómoda!
O que terá pensado a Sofia?! O que de facto se
passava comigo era o que queria entender! Poderia tratar-se de “ciúmes”, não no
sentido que ao termo é geralmente atribuído, mas talvez uma sensação de perda
de espaço afectivo que eu, sem intenção, alimentaria e de que não queria abrir
mão, mesmo que contrariando o meu habitual entendimento em relação à Sofia.
Se eu não conhecia então, pessoalmente o Rafael,
assim como hoje não conheço, porquê esta idiota animosidade?! A verdade é que
não encontrei ainda uma explicação satisfatória e refugiar-me na desculpa de
temer pela segurança da Sofia, seria uma esfarrapada desculpa em que nem eu
próprio acreditaria!
A verdade é que necessito, para a esta sensação de
desconforto pôr fim, encontrar uma resposta adequada, tanto mais quando encaro,
com agrado, a possibilidade de em Maio ir fazer um período de férias na
Alemanha.
E na verdade pareceu não ter havido qualquer
alteração durante as duas semanas que estive com eles, nenhum de nós abordou
sequer o assunto de final de Janeiro, ou porque era assunto arrumado para a
Sofia ou, tal como eu, o não digeriu também.
Mas ainda não desisti. Tentarei de novo, noutras
circunstâncias.
Reis Caçote
Ag./2007
Dig/12/02/14 (À Susana, Iris e Boris, toda a estima
e gratidão
Berlin, Junho 2005)
À
Susana, Iris e Boris, toda a estima e gratidão
Berlin, Junho 2005
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