sábado, 30 de novembro de 2019

A ULTIMA EPIFANIA






                       

                                   A ÚLTIMA EPIFANIA

                                                           I

A natural propensão para as ciências ditas exactas, tem perturbado os tempos concedidos, ou mesmo negados, a outras em que os teoremas não se aplicam e se por vezes se esboçam são de difícil demonstração, em tempo útil.
No caso em análise a ciência comum não terá ainda definido, com o rigor do acto científico, qual o patamar de enquadramento. Apenas sugerindo que, a forma incomum do nosso comportamento relacional, se manifesta em coordenadas mentais de rigor indefinido e cuja curialidade justifica a continuação da busca de explicação, sempre com o cuidado de que a vigília não atente ou perturbe o seu ritmo e lhe tire a dose de encanto que tem tido.
Talvez o tempo futuro explique o tempo presente e lhe subtraia a parcela quase mística que o tem caracterizado; espero bem que não.

                                                           II

Não passou ainda um mês sobre o tempo da mudança de apartamento, dentro do mesmo bloco habitacional e do mesmo piso.
Talvez devido à ausência de um plano mínimo de ordenamento, contrariando todo o meu percurso formativo, o caos instalou-se com tal evidência que, mesmo sendo poucos os bens mudados, ao segundo dia estava já a sentir os efeitos: ao nível do cansaço físico e até do metabólico, este marcado pela brusca recusa do mais elementar acto de ingerir uma refeição, tal como sucedera no Porto, em meados de Janeiro, ao jantar, em que o prato escolhido era de carapaus fritos com arroz de feijão e de que especialmente gosto.
A conclusão que tirei vai no sentido de que o stress, causado pela tensão prolongada, não se manifesta só no cansaço físico, mas sobretudo e de imediato, no aparelho digestivo, alterando-lhe o normal funcionamento.
Estou convencido de que o provérbio “quem muda Deus ajuda” não se aplica a todas as mudanças ou a todos os que mudam. Não terá a ver com as comuns mudanças, talvez se aplique apenas às mudanças nos divinos espaços da fé, exactamente aqueles de que pouco sei, mais por falta de tempo e não de curiosidade.
E, segundo parece, também não terá sido grande a ajuda que o mesmo deus concedeu à Sofia quando, no ano passado, teve que mudar do Norte para o Sul do grande País onde há vários anos vive, não sendo poucas as vezes que se queixou da grande estopada que a mudança estava a ser e o desequilíbrio que trouxe.
A mudança impôs-se-lhe, uma vez mais, devido à alteração do local de trabalho do Peter, por razões que não conheço, mas que me atrevo a imaginar, tendo em conta o que testemunhei em Junho de dois mil e cinco, quando tive o gratíssimo prazer de ser convidado para a festa de aniversário da Sofia.
Era desumana a carga de trabalho que ele, Peter, tinha de cumprir, desde madrugada às dez da noite, uma boa parte do tempo passada no trajecto de casa para a empresa e vice-versa, todos os dias úteis.
Mudou de empresa, sem problemas ao que parece, a sua formação técnica tem aplicação em todas as situações empresariais, nomeadamente a industrial com uma dimensão de grande empresa.
 Já instalados há meses, apenas terão que continuar a adaptação ao meio e ordenar doutra forma os seus tempos e enquadramento social.

                                                           III

As diversas etapas da mudança do casal prolongaram-se até Novembro, soube-o acidentalmente nesse mesmo mês e, uma vez mais, através de uma coincidência que não tem deixado de suscitar uma invulgar curiosidade da minha parte e da Sofia talvez nem tanto, por adoptar o posicionamento mais cómodo de não pensar, atribuindo-lhe o estatuto de coincidência!
Na parte que me toca só mesmo a falta de disponibilidade e confiança para este tipo de abordagem técnica, me tem inibido da consulta a psicanalista, preferindo que as surpresas continuem a ter sua aura mística que lhe tem dado beleza, em vez de me sujeitar à exposição, mesmo que privada, da parte mais intimista da minha existência e sair de lá com uma espécie de sentença utilitária que os “sábios” sempre gostam de aplicar, não para satisfação do sentenciado, antes para sua própria e assim não assumirem que o consulente em nada beneficiou da consulta.
Se um dia entender que vale a pena, até para minha formação pessoal, sujeitar-me-ei ao exame. Por enquanto não.
Continuando na direcção que me propus.
No dia dezoito de Novembro, sábado, sendo o meu horário de trabalho das oito às dezasseis horas, tinha o relógio a despertar, como habitualmente, para as sete horas. Dava para me barbear, tomar duche, vestir e tomar o pequeno-almoço a caminho do local de trabalho.
Às seis e trinta e cinco, o maravilhoso aparelho que a ciência criou para sequestrar o tempo e o mundo adoptou, fez ouvir o sinal característico da entrada de uma mensagem. Premi a tecla e li:
- Bom dia Carioca, agora vou para HdH; andar de avião é chato; Ber.foi bom. Como você está? Jinhos”
Era a Sofia a anunciar o fim da mudança! Respondido:
- Agora estou acordado! Olá, Pipocas, k bom, andar de avião e regressar ao lar! Tudo bem em Ber.? Beijocas.
Minutos depois, ta e oito, novo sms:
- “Você está acordado 24 h ? Durma e sonhe…depois diga-me como foi. Bom sábado.”
Resposta:
- Ainda há dois dias sucedeu, mas aquele penteado a coisa não dá! Vai lá, não te atrases. Beijos.
Novo sms enviado às sete horas e seis minutos:
- Espero que te enganes na GATE e venhas parar a Lisboa. Só acordei meia hora mais cedo, o despertar era para as sete. Foi bom. Beijos.
Chegada do terceiro sms às nove horas e dois minutos:
- “Não sei o k vc ker dizer com penteado, mas eu cortei o cabelo bem curto! Tá a ver?!já não percebo nada!
Resposta, entre a surpresa e diversão:
Voltamos ao mesmo?! Pois é, Pipocas, vamos ter que achar explicação! Ou não! Somos gémeos, de mães e tempos diferentes! O cabelo era curto, suavemente ondulado e o vestido como o do aniversário, preto com estampados em prata. Dançámos bem. Beijocas.
Último sms expedido às onze e vinte e três:
- Não queira deixar-me sempre no escuro, mas acho isto interessante, tal como está! Não é área que o Freud tenha tratado?! Tenho saudades.
Agora, à distância bastante para que não haja influência emocional, tenho que me interrogar sobre se há explicação para mais uma coincidência? Não sei, não vou saber, a resposta, se a houver, ela virá naturalmente! Só se, como antes disse, a curiosidade ultrapassar ou perturbar este encanto, que só não terá outras dimensões porque os contactos, mesmo telefónicos, escasseiam. É a vida.
                                                           IV

A Sofia e o Peter estiveram em Portugal no mês de Abril, inesperadamente como sempre.
Encontrámo-nos na capital do Vidro, do nosso conhecimento, da tertúlia do sexto B.
Sem bagagem acompanhei-os até Lisboa, onde dormi, em casa da Anita.
No dia seguinte tomámos o pequeno-almoço na Praça da Figueira - vai uma torrada, Sofia? – com o Sol de Abril a dardejar na esplanada, eu a procurar o refúgio na sombra do chapéu, o Peter e a Sofia trabalhavam para o bronze, expostos aos raios solares, sem pressa, saboreando a primeira refeição.
Não preveni o Peter de que aquela exposição, para peles desabituadas, era capaz de ser arriscada. Não pensei muito no assunto por estar convencido de que se o fizesse a recomendação não seria acatada, o pessoal daquelas latitudes querem é aproveitar o Sol quando e onde o há!
Estamos na terra do Sol, há que aproveitá-lo, seria o mais natural ter como resposta.
Olhámos o Rossio de passagem, descemos a Rua Augusta com todo o seu colorido e promiscuidade entre a ostentação e a miséria e entrámos na sala de visitas da capital, o Terreiro do Paço, desde há muito Praça do Comércio, também foi já, ao contrário do Comércio, praça de automóveis e de manifestações encomendadas do dez de Junho, do dia da Raça, de triste memória.
Não sei o que terá estado na base da designação agora oficial, se por um lado é verdade que com o fim da monarquia era um anacronismo manter o terreiro do paço, por outro a do Comércio, valha-nos Santo António!
Terá sido pelo Ministério ter ali os seus “aposentos”? Mas era só o nome, porque comércio nunca fizemos, o que houve sempre foram negócios e alguns deles…ui, ui, só que eram em escudos! Agora os negócios são de todos os tipos do passado, mais umas novidades que os iluminados de agora inventaram e que geram lucros e de que maneira!
Mas o único acusado de Negócios era o dos Estrangeiros e ainda hoje é assim, todo mundo faz negociatas, mas o único culpado é aquele que as não faz, nem outras, ou seja, nada faz! Mas, vamos andando, porque se entramos um pouco mais nos terrenos pantanosos de lá ou de cá não mais saímos!
A Sofia, no seu andar entre a marcha e a valsa, inicialmente tinha escrito desengonçado, fez a inspecção dos preços das viagens turísticas, em eléctrico ou autocarro com “terraço” mas a opção, por mim sugerida, foi a de o fazermos a pé, não só por os preços serem uma exorbitância, e a financeira Sofia não entra nesse tipo de negócio, ainda a hei-de ver um dia a dirigir as finanças de um país qualquer, como se a licenciada em finanças lá de casa fosse ela!
Faltava escolher percurso, exactamente aquele que autocarro ou eléctrico não faziam: Alfama!
Verdade seja dita que também teve a sua influência o facto de estar ali à “mão de semear” ou mais rigoroso, ao “pé de andar”!
Entrámos pelo Campo das Cebolas, um nome que nunca mais esquecerei por motivos que não esquecerei tão cedo ou tarde, mas isso é outra conversa! Ao lado da Casa dos Bicos entrámos no mais típico bairro da capital, para mim, e a seguir o da Mouraria, onde tirei o meu curso de marçano, que eu prefiro o de aviador, pois formava miúdos para aviar ao balcão e marçanar nem deve existir!
Subindo rampas e degraus, naquele doce mistério de só se ver a esquina a seguir, passámos pela igreja de São João Batista, o que baptizou Cristo lá no rio Jordão, pela do Arcanjo São Gabriel, o mesmo que tem casa lá no alto do monte do Anjo, em Castelo Melhor e outras igrejas, muitas e tascas, muitas e bares fechados àquela hora, bastantes; sempre assim até que a fome apertou e sem grande preocupação de escolha, lá aterrámos numa esplanada de duas mesas a cair na calçada inclinada para o Tejo, do lado direito da porta de entrada e do lado esquerdo o grelhador, com dois apoios para não se esbarrondar para cima da esplanada, mas assim é que era típico!
Ementa: sardinha assada, com muito pimento e tomate! Foi um pitéu e por pouco dinheiro! E toca a andar, depois do café e uma aguardente que o Peter quis beber para não ser uma refeição incompleta, pois o Bairro só terminava lá no alto e ainda nem a meio estávamos.
No largo do Miradouro das Portas do Sol, juntou-se ao trio a Ana, o Tiago e o António, que tinha conhecido na véspera.
Daí em diante o passeio foi de carro, o Peter gostou do espectáculo que dos miradouros se vê, mas não se manifestou, só no do Castelo de São Jorge revelou um pouco do agrado que sentia de ver a simbiose entre a cidade e o Tejo, ambos se afagando e lambendo numa permanente orgia de sensualidade. Esta pequena ode é minha, eu estava emocionado pelo regresso a locais que tanto enformaram minha sensualidade.
Tinha saudades, mas não sabia que eram tantas e tão emotivas, confesso.
Ao fim do dia eu regressei a Leiria e eles, Sofia e Peter, ainda ficaram em Lisboa, não sei quanto tempo, mas tinham em vista o Algarve.
Eles mostraram-me uma parte de Berlin que achavam que eu gostaria, eu levei-o para o espaço que tinha a certeza gostaria; ele, porque a Sofia conhecia bem.  


                                                           V


No dia seis de Dezembro telefonei à Sofia e de imediato, sem qualquer saudação, perguntou:
“Como é que você adivinhou que estava a acabar a sua prenda de Natal?!”
E sem dizer de que se tratava, passámos a falar do tempo que fazia e como estava ela a adaptar-se ao novo espaço e local de residência; falou do que tinha já visitado e da grande beleza dos locais, também do amigo Frederic, vizinho de Berlin.
Tinha já enviado curriculum para diversas empresas e teria já em vista, não antes da passagem de ano, poder trabalhar numa das lojas da maior empresa de comercialização no ramo da óptica, o que equivaleria a não ter férias tão cedo!
Por que não vens antes? Perguntei. E, como estava no computador, iniciou de imediato uma busca pelas companhias, vendo preços e períodos, acabando por encontrar um voo para o período de dezasseis de Janeiro a quatro de Fevereiro, com chegada ao Porto, aeroporto Sá Carneiro e pelo preço, um tanto louco, de quarenta e seis euros e oitenta cêntimos, com todas as taxas incluídas!
Estás a gozar! Disse eu.
- Não estou nada, quer ver que vou já marcar a passagem!
E marcou.
Durante a estadia ela contou que, uma amiga dela, alemã, a quem contou a marcação do voo e o preço e que a amiga terá comentado, divertida, “ será que tem piloto?!”
De facto, é de não mais fechar a boca de espanto!


                                                           VI


O deslumbramento da lembrança de Natal comoveu-me até às lágrimas!
Pela originalidade da ideia, pela sensibilidade e variedade dos temas sobre um calendário do ano que ia em breve começar – dois mil e sete.
A Sofia estava em forma e revelava sensibilidade que lhe desconhecia. Subiu, com este simples gesto, ao patamar mais elevado da minha consideração.
E daí em diante dediquei meu entusiasmo a preparar uma recepção que fosse semelhante, em franqueza e simplicidade como senti a primeira vez, em dois mil e cinco quando estive em Berlin.
Ficara assente, logo naquele seis de Dezembro, que eu a iria esperar ao Porto, tal como fez comigo, no Tegel.
Cheguei ao Porto perto das onze horas, depositei o malote na estação da Rodoviária e procurei o transporte para Pedras Rubras, onde se situa o aeroporto; a estação do Metro da Trindade era muito perto da Batalha, ambos conhecia bem.
O novo Metro do Porto levou-me até Pedras Rubras, parando em tudo o que era “estação e apeadeiro” como costumava dizer-se sobre os comboios.
Acabei por chegar, não muito tempo depois, apesar das frequentes paragens, a um lugar que de todo desconhecia.
Queria recebê-la com uma rosa ou um ramo delas, mas o projecto se gorou: não havia!
Cerca de quinze minutos depois da hora prevista aparece a Sofia, sorriso amplo e braço bem levantado em saudação enquanto se dirigia para a saída.
Vestia calça preta justa e um casaco de lã, branco, malha grossa do tipo dos nossos regionais, aberto, sem botões e atado à frente com um cinto da mesma lã sem ser apertado, de forma desportiva e dinâmica; as sapatilhas, modelo bota como ela sempre gostou, prometiam caminhadas sem limite.
O cabelo, cortado, rasando os ombros e levemente virado para dentro, dava-lhe um ar de irrequietude e elegância. Ficava muito, muito bem, mesmo para quem estava habituado à imagem com cabelo comprido, que era a de marca. A franja estava no tamanho habitual e certo!
Um abraço de quem se viu no dia anterior, foi o nosso cumprimento!
Planos? Perguntei.
Nenhum em especial, vamos procurar dormida e almoçar.
Apanhámos o Metro para o Porto, procurámos residencial que eu tinha já referenciado, bem no centro da Invicta cidade; largou o malote no seu quarto, eu nem fui ver o meu, no andar de cima, por ter o malote a guardar na garagem da Rodoviária e fomos à procura de local para dar ao dente, apetite não faltava.
Escolhemos pratos diferentes, como habitualmente fazíamos, assim sempre dava para uma “vaquinha” de camaradagem! A Sofia bebeu sumo, eu preferi um tinto maduro, da casa, por sinal bem agradável.
“Negociámos” a utilização do telemóvel por que ela não trouxe o seu e eu pouco me servia do TMN. Carregou-se e não pensei mais no assunto, a Sofia sabia de telemóveis do que eu.
Fomos à Rodoviária levantar o meu malote, deixá-lo no meu quarto e daí em diante foi calcorrear as ruas da parte antiga da cidade, a Sofia disparando a sua máquina assim que algo de suspeito via, num frenesim que lhe não conhecia!
Expediu sms para o Peter e ele passado pouco tempo ligou e logo a encarregou de tentar encontrar um Port wine de mil novecentos e oitenta e dois, para oferecer à mana que tinha nascido nesse ano.
Não me surpreenderia que um português, conhecedor do tão celebrado vinho, fizesse uma encomenda daquele tipo, já o mesmo não sucedia que um natural do Oregon, mas filho de pais alemães, tivesse tal iniciativa! Ou revelava alguma fraca ironia um conhecimento razoável dos meandros do generoso vinho! A que estava certa era a última das hipóteses! Conhecia melhor que eu, o que nem é muito difícil, o mecanismo das escolhas anuais.
Encontrámos, à terceira ou quarta garrafeira visitadas. Barato é que não foi, segundo a Sofia! Eu, confesso, não tinha opinião. Segundo a informação dada pelo comerciante para justificar aquele preço, foi de que a colheita desse ano foi pequena, mas de boa qualidade.
A garrafeira arranjou embalagem e nós só tivemos que a proteger de algum acidente que a impedisse de chegar ao destino. Eu desejei-lhe boa viagem. E teve-a, segundo soube mais tarde.
Já com uns quilómetros nas sapatilhas e o fim da tarde a chegar sorrateiro, decidimos ir tomar uma beer fresquinha e comer um pastelinho de bacalhau, numa cervejaria perto da residencial.
Tudo a decorrer sem pressa e com muita descontracção.


                                                           VII


O jantar viria, inesperadamente, a alterar radicalmente e sem recurso, aquilo que parecia vir a ser uma agradável estadia!
Ainda hoje não consegui explicar-me, de forma entendível, o que de facto se passou, mesmo tendo em conta o que narrei no início, propositadamente, sobre o efeito stressante do final da mudança de apartamento:do duzentos e sete, para o duzentos e um! Irei tentando perceber, com o tempo, já que avida não pára, espero que não, para mim e para a Sofia.
- Importa-se que eu mande um sms ao Rafael, que ele está cá no Porto a desenvolver um trabalho?
Claro que não, o telemóvel está agora por tua conta e usa-lo como quiseres!
Eu não conhecia o Rafael, apenas sabia, por dele ter falado, de forma que não era de todo abonatória por qualquer falta de cortesia para com eles, depois de ter estado cerca de um mês em casa deles, em Berlin e não ter ido à festa do seu quadragésimo aniversário, dando uma qualquer desculpa que não terá sido satisfatória.
Só não acrescentei, por que não traduziria o que sinto sobre o provérbio, que “os amigos dos meus amigos, meus amigos são”, uma vez que sempre pensei e continuo pensando, que isso implicaria que o contrário devia também estar implícito, ou seja “os inimigos dos meus amigos, meus inimigos são”! É descabido e até aberrante por ser limitativo da decisão individual.
Não era o caso do Rafael: não conhecia, nem hoje conheço pessoalmente, sabendo apenas que se dedica à execução de música que designarei, na falta de melhor sapiência sobre o género, por “radical” extraindo sons com os mais variados meios de utilização urbana.
Se a falta de cortesia existiu, quem mais terá afectado foi a Sofia, porque quando ligava para ela e o Peter atendia, perguntava sempre “é o Rafael ?” não me parecendo, pelo tom de voz que ele estivesse melindrado.
Tudo não passa de presunções e não é bem a minha forma de pensar, muito menos se forem preconceituosas.
O mais certo seria estar enganado e o Rafa ser um amigo estimado no seio da família.
Retomando a narrativa:
O Rafa, em resposta ao sms da Sofia, cujo teor naturalmente desconheço, apenas terá respondido um ”OK” displicente, que não terá agradado à Sofia, mas conservando a calma habitual ou pelo menos dominando bem o mecanismo reaccional, apenas comentou: “xô, olha que resposta: OK!” e pareceu desinteressar-se do assunto, não sem antes ter referido, como forma de desabafo ressentido, o tempo que o Rafa tinha passado em casa deles, em Berlin.
O jantar tardou a ser servido e como entrada, para passar o tempo, comemos uns queijinhos curados que quase sempre é posto na mesa.
Ainda não tinham chegado os carapaus e o arroz quando a Sofia pegou no telemóvel, que ela teria sem som, verificando que tinha uma chamada não atendida.
- Era do Rafael! Ar frustrado.
Irritada por não ter ouvido o telefone, queixando-se do aparelho, eram remoques a mim pareciam dirigidos, mas que o nosso percurso de amizade não lhe dava ou não aconselhava, outra forma manifestação.
Foi todo este conjunto de raciocínios, provavelmente errados, mas bem reais e sentidos, que me provocaram uma desconfortável reacção física, manifestando-se na rejeição total do jantar, os tais carapaus fritos com arroz de feijão. Era tão manifesta para mim que tinha absoluta certeza de que se tentasse ingerir algum alimento seria de imediato rejeitado.
- Mas que se passa? Pergunta a Sofia.
Não sei explicar, respondi! Só sei que se comer alguma coisa vou vomitá-la! Também eu desconhecia este tipo de reacção orgânica, do que me recordava era de comer mais, quanto mais angustiado eu estivesse.
Como disse, no início da narrativa, esta mesma sensação desagradável a senti, ao jantar, no restaurante onde fazia as refeições, no primeiro dia da mudança de apartamento! Ou seja, em duas ocasiões distantes temporalmente e por razões distintas. Algo teria mudado em mim e receando que fosse algo não contornável no futuro, iria passar a estar alerta!
A noite do Porto ficou perturbada e o escasso tempo que após o jantar estivemos na rua, a cidade pareceu-me fria, dormente, desagradável.
Regressados à residencial, foi só pegar no meu malote que tinha deixado no quarto da Sofia e seguir para o meu.
Tentei ver televisão, mas não consegui concentrar-me, leitura muito menos e dormir foi difícil, para o que também contribuiu o ruído do ar condicionado. Algo do foro psíquico estava por resolver.
Passei em revista o tempo passado e não consegui encontrar uma explicação plausível para o bloqueio instalado o que colocava em risco todo ou uma boa parte do que esperava do tão ansiado reencontro e que era somente: delicadeza, sobriedade, respeito e muita amizade!
Amanhã tudo poderá melhorar, pensava eu durante a inesperada vigília, mas o tempo se arrastava como água de lagoa, mas sem a transparência da água.
Acabei por adormecer e sei que sonhei, como é frequente suceder não me recordar mal acordo, ficando a cobri-lo uma espécie de neblina que mais não permite que encontrar pontas soltas, insuficientes para uma reconstituição. Estava ainda às voltas com o sonho, que seria mais pesadelo, pela sensação que tinha quando o telefone tocou, não seriam ainda nove horas!
- Doutor, vamos ao pequeno- almoço? Era a Sofia.
Claro!
- Daqui a quanto tempo?
Diz tu, eu depressa me apronto.
- Nove e meia, está bem?
Óptimo. Pareceu-me estar mais bem-disposta; o sono é um bom paliativo para todos os males ou pelo menos para alguns menos males! Pena que eu tenha dormido tão mal, mas tudo vai melhorar! E preciso que melhore!
- Então, passou bem a noite? A má disposição do jantar desapareceu?
Ah, sim, a água das Pedras resolveu tudo! Não dormi muito bem e dormi pouco, mas o pequeno-almoço e o café a seguir vão pôr tudo em ordem!
Não puseram. O dia estava frio e a chuva miudinha, a tal de molha tolos, chata e persistente, platinou passeios e jardins, bom como as robustas e bem trabalhadas paredes de granito da baixa da bela cidade.
- E eu que não trouxe roupa apropriada para a chuva, como vou fazer?
Talvez eu tenha parte da solução, se não te importares de usar! Vamos ver?
Tinha levado o colete azul, de trabalho, sem mangas, ainda por estrear, que o Caló me oferecera no Natal, um dos dois que a ele tinha oferecido um dos fornecedores da empresa onde trabalha.
Experimentou, gostou e saímos para a combinada visita à Ribeira, interrompida na véspera, mais devido ao cansaço do que à vontade de continuar.
A uns cem metros da residencial, em pleno passeio, várias vendedeiras ambulantes, que noutra época venderiam cachecóis, bonés e bandeiras, apregoavam agora chapéus-de-chuva, como no São João apregoariam “olhó belo alho-porro” e “olhó manjerico”; agora era “é prá chuva, olhos chapéus, é só cinco euros”!
Nem mais, arranje dois.
- Escolha, freguesa, é o melhor que há!
E lá embarcámos nos chapéus, bom jeito iriam dar!
Como os dois chapéus abertos não davam jeito para irmos conversando e frequentemente pessoas apressadas passavam entre a nossa conversa, cortando-a a meio, a Sofia teve a brilhante ideia de fechar o dele e abrigar-se sob a copa do meu; de “braço-dado”, neste caso, emprestado, lá continuámos o percurso em direcção à parte intermédia e de onde se via, lá em baixo, o Douro, de ar cansado, a entregar-se ao mar Atlântico sem pensar que era o abandono da sua identidade como rio que ia perder!
Mais longe, do outro lado do rio, a escarpa de Gaia e os velhos edifícios das Caves e da descida para a Ribeira pouco se via, mas do pouco que se avistava era de uma beleza rara!
A chuva parou e a repórter Sofia ia disparando, por vezes à queima-roupa, sobre tudo o que não mexia, ao contrário de algumas polícias e de profissionais de tantos crimes: estes disparos foram para registar uma janela de traça invulgar, um conjunto de antigos azulejos, uma varanda do seculo XIX, e outros que não fixei na memória, mas ela os deve ter registados em papel agora o que na altura era em película de filme.
- O melhor é comprar novo rolo, este está quase no fim!
E lá fomos descendo, descendo, até junto ao Douro, distraído naquele dia, ou silencioso na sua resignação de perda de identidade e depois subindo, subindo rampas e escadarias até chegarmos à Sé.
Disparei as três primeiras fotografias do Largo do Pelourinho, frente à Sé, cujo muro dá para o casario, indeciso entre ficar naquela silenciosa inquietude ou atirar-se ao rio.
O casario e o rio lá ficaram, nós iríamos voltar costas ao Porto.


                                                           VIII


Levantámos a bagagem na residencial antes do meio-dia e partimos para Aveiro onde a Sofia esperava encontrar-se com o irmão, o Beto, que ali morava há algum tempo.
Apanhámos o comboio em São Bento e pelo preço de dois euros fizemos a viagem até à cidade do Vouga.
A Sofia deve ter traçado um plano antecipadamente para a reportagem, pois mal chegou logo recomeçou a disparar e lamentou não ter podido parar na localidade com o nome de Granja onde vira, pela janela do combóio, umas casas que lhe chamaram a atenção.
- Fica para outra vez, disse.
A maior parte das casas eram de gente humilde, rodeadas de terreno quase sempre por cultivar. Sobressaiam outras, em pontos bem demarcados, com arquitectura mais cuidada, de maiores dimensões, estas sim com seus jardins bem cuidados. O pormenor do abandono dos terrenos já não causa estranheza. Do ruralismo que esteve na origem das construções já nada resta e o cultivo já não dá para o cansaço! Os super e hipermercados têm de tudo e sem qualquer trabalho, apenas o de puxar pela carteira ou cartão de crédito! Novos tempos, estes, dizem muitos. E quando alguém pergunta se não seria bom ter à porta uma quantidade de bens frescos, a resposta é quase sempre a mesma: isso já lá vai!
O Beto apareceu algum tempo depois e deu a sua ajuda na localização da residencial e restaurante, embora a Avenida doutor Lourenço Peixinho, onde nós estávamos, tivesse de tudo o que procurávamos e com a vantagem de ser a porta da frente para o mar, onde o Vouga, em delta bem alargado, se dividia em vários braços, formando um grupo de pequenas ilhas que se estendem por vários quilómetros, desaguando no Atlântico.
Apercebi-me de que a Sofia estava, propositada ou naturalmente, a encetar uma visita ao passado mais remoto, onde a família morou e o Pai trabalhou.
Aveiro é tida, com alguma dose de exagero, como a capital da Arte Nova e para uma estudante destas coisas, e outras, só restava à Sofia pegar na máquina fotográfica e registar tudo o que lhe chamasse a atenção e coubesse no rolo ou película, que ela continuava a preferir em prejuízo das novas tecnologias digitais, que eram a profanação do “mundo sagrado” que marcou uma época de rotura urbana com a arte dos séculos anteriores. 
Louvável o esforço, Sofia! O deus das artes te agradecerá um dia!
A sensação de desconforto do primeiro jantar não se tinha apagado por inteiro, nem mesmo com a chegada do novo elemento, com sua experiência radical, como radical era a sua utópica ideia de futuro e de grandeza! Era mais uma manifestação de arte cénica, em colisão com tudo o que a precedeu; não era urbana, mas sim vincadamente suburbana: sem raízes, sem limites, intemporal.
O Beto representava a rotura com o mundo arrumado em que nasceu e perseguia o caos cósmico com a mesma naturalidade e oralidade com que o guru defende e promove a sua doutrina!
A ambição prostituída de certo grupo protegido, há-de prestar contas um dia, quando nós assumirmos o poder e definirmos as regras!
Daqui à globalização dos interesses, que é o que está em curso, vai toda a panóplia de amolecimentos, introspecções e violências sem limites!
Dava comigo, várias vezes, a transformar o Rafael, de que nada sabia, no meu inimigo de estimação, eu que nunca tive inimigos comuns, muito menos de estimação.
Defendi sempre que um inimigo mais nunca é demais e que a felicidade de um amigo não podia, nem devia, ser condicionada ou sequer perturbada por algum preconceito doutro amigo.
Mais esforço mental dedicado à conjuntura, fiquei razoavelmente convencido de que o sentimento era de recear pela Sofia, mas logo de seguida anulei esta saída, tendo em conta:
- que a Sofia estava há “séculos” emancipada e do que menos precisa são tutores, físicos ou mentais, para gerir o que sempre geriu, mal ou bem – a sua vida;
- o que restava, afinal, era um medo atávico do desconhecido, da surpresa, do “escuro” e este atavismo só pode ser ultrapassado com um conhecimento mais profundo do elemento que promove o temor.
E neste emaranhado de conjecturas, sem respostas claras e definitivas, depois de uma visita quase mística aos locais de infância e de ausência à procura de um rasto que nos situe no tempo e no porquê, decidiu deixar Aveiro e caminhar em direcção a Lisboa, com escala em Leiria. Por cortesia também, mas de facto para continuar a sua “via-sacra”, sendo Leiria uma das estações dum plano razoavelmente estruturado.
A etapa seguinte era a Marinha Grande e seria natural que o fosse, nem vale a pena citar as razões, até porque as não conheço por inteiro.
A visita, ainda em Leiria, ao espaço onde funcionou um pequeno bar que sempre me pareceu “o pau na engrenagem” na tentativa de parar, artificialmente, duas vontades de difícil acomodação e que agora estava transformado numa pequena loja de pronto-a-vestir para senhora, onde, sem entusiasmo, comprou uma peça que, sendo interessante e lhe ficar bem, não teve outro valor que não o simbólico souvenir para marcar o registo da passagem.
O mesmo tinha sucedido em Aveiro, na ourivesaria ao lado da óptica que foi onde o progenitor iniciara a profissão e onde comprou uma pequena lembrança para si e outra para a princesa que dias antes tinha somado um ano mais.
A procura das botas, também em Aveiro, essa foi genuína e levada até ao limite da busca.
O jantar em Leiria foi morno e temi que a precaridade da residencial que escolheu lhe não proporcionasse o reparador descanso que devia precisar, depois de tantos quilómetros andados no Porto e em Aveiro.
Disse, na manhã seguinte, que tinha descansado bem. Que bom, Sofia! Pensei.
A ida à capital do vidro e visita ao progenitor foi, para mim, instrutiva e esclarecedora, marcou o fim da primeira fase da visita.
Havia que chegar a Lisboa e eu apoiei a manifestada urgência, pelo menos aparentemente.
Seria, afinal, a despedida, não apresentada como tal, mas de facto foi isso mesmo.
Aquilo que imaginei sucedesse e que era a retribuição possível da muita simpatia que me foi dispensada em Junho de dois mil e cinco, acabou por não ser mais que uma dolorosa passagem no tempo, de que ficou uma frouxa sensação de tristeza, que só o facto de ter vindo atenuou.
Mantenho: foi bom a tua vinda, Sofia.



                                                           IX


                        Ainda a
                                               EPIFANIA DE JANEIRO

Tinha decidido, quando iniciei o registo da visita da Sofia, em Janeiro, que ele só incluiria o período que a antecedeu, rico em pormenores de ordem emocional, na falta de melhor classificação e para arrumação das ideias, mas também o tempo entre a chegada ao Porto e a partida de Leiria para Lisboa, ou seja, de catorze a dezassete.
No regresso da Marinha Grande, após o almoço que fizemos na Praça Stephens, a Sofia, perante a ainda mantida decisão de a acompanhar para Lisboa, por qualquer razão ou razão nenhuma, recordou-me que em Abril do ano anterior, quando todos estivemos em Lisboa, a Mãe teria comentado, quando nos recebeu à porta do prédio que habita e que eu não ouvi, talvez por estar atento ao modo como recebeu a Ana e o filho e que me pareceu, no mínimo, desconfortável.
Segundo depois me contou a mãe terá dito que estava a contar com a visita da Sofia e do Peter e não de alguém mais, pelos vistos referindo-se a mim.
Fiquei espantado, mas só até me recordar do cultivado temperamento, pouco amistoso, da Elisa. Não duvidei nem um instante da Sofia.
Era o pormenor que faltava para que a minha não ida a Lisboa fosse posta de lado, uma vez que era em casa da Elisa que a Sofia iria pernoitar durante este período de férias, regressando a quatro de Fevereiro.
Mal saímos da camioneta que nos transportou da Marinha Grande para Leiria, fomos saber os horários dos expressos para Lisboa, sendo o mais próximo para daí a meia hora, ficando logo ali assente que ela iria nesse horário, seria ir só ao meu apartamento, pegar na bagagem e voltar à gare.
Assim foi feito e a Sofia lá seguiu, sozinha, para Lisboa.
Das poucas conversas que trocámos soube que tinha estado com uma forte constipação quase desde que chegou à capital, certamente devida à chuvada do segundo dia no Porto. Contou também que a avó materna, mãe da Elisa, quando a visitou logo se desentendeu com a filha, o que não era novidade por ser frequente; davam-se mal por qualquer razão temperamental.
Quase na véspera de regressar, quando procurou encontrar solução para o telemóvel que eu emprestara, perguntou se eu não queria ir ao Porto jantar, no dia três, véspera de regresso.
Respondi que não estava a contar fazê-lo, por ter interrompido as férias no dia seguinte ao da sua ida para Lisboa e também gostava pouco de despedidas. Contudo podia analisar essa hipótese.
Acrescentou que se resolvesse ir devia avisar o Rafael, com quem ia encontrar-se à noite, na Casa da Música.
Respondi que não faria tal, por não querer colocar o Rafa na posição de senhor feudal a quem tem de pedir-se autorização para entrar no seu feudo.
Ainda hoje fico horrorizado com a recordação deste episódio! Sofisma verbal, que me deixou numa posição incómoda!
O que terá pensado a Sofia?! O que de facto se passava comigo era o que queria entender! Poderia tratar-se de “ciúmes”, não no sentido que ao termo é geralmente atribuído, mas talvez uma sensação de perda de espaço afectivo que eu, sem intenção, alimentaria e de que não queria abrir mão, mesmo que contrariando o meu habitual entendimento em relação à Sofia.
Se eu não conhecia então, pessoalmente o Rafael, assim como hoje não conheço, porquê esta idiota animosidade?! A verdade é que não encontrei ainda uma explicação satisfatória e refugiar-me na desculpa de temer pela segurança da Sofia, seria uma esfarrapada desculpa em que nem eu próprio acreditaria!
A verdade é que necessito, para a esta sensação de desconforto pôr fim, encontrar uma resposta adequada, tanto mais quando encaro, com agrado, a possibilidade de em Maio ir fazer um período de férias na Alemanha.
E na verdade pareceu não ter havido qualquer alteração durante as duas semanas que estive com eles, nenhum de nós abordou sequer o assunto de final de Janeiro, ou porque era assunto arrumado para a Sofia ou, tal como eu, o não digeriu também.
Mas ainda não desisti. Tentarei de novo, noutras circunstâncias.

Reis Caçote
Ag./2007
Dig/12/02/14 (À Susana, Iris e Boris, toda a estima e gratidão
                        Berlin, Junho 2005)




                        À Susana, Iris e Boris, toda a estima e gratidão
                        Berlin, Junho 2005


















                                  


















                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            







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