PARAÍSO DE MOSCAS
NERESHEIM,
GERMANY
I
No ar fresco de Março, quando o
telefone tocou, pairava ainda uma desconfortável sensação de insegurança, que
insistia em não se dissipar e que vinha desde o jantar, da primeira noite da epifania
de Janeiro!
Na falta de uma clara e segura
conclusão, apesar das várias tentativas ensaiadas na análise, procurei aceitar,
provisoriamente, como que a aguardar melhor prova, a posição mais cómoda:
teme-se, quase sempre, aquilo que não se conhece.
Só que, aquela comodidade, era tão
frágil e instável, que bastou ser colocada a hipótese de poder ir, em Abril,
conhecer a Suábia para, quase em tumulto ou derrocada, todo o alicerce teórico
da fórmula, sofreu um abalo de tal magnitude que, pouco faltou para ruir pela
base.
E só não terá sucedido, porque a forma
como surgiu a proposta, de tão natural, me deixou indeciso, a ponto de
responder que as coisas não eram assim tão fáceis, tinha compromissos
profissionais e não podia negociar férias de um dia para o outro!
- Diga que não quer vir e não falamos
mais no assunto! Retorquiu a Sofia.
Não é isso, como sabes. Em Janeiro
programei as férias tendo em conta que abrangessem todo o período das tuas e só
foram interrompidas, menos de uma semana decorrida, por ter concluído que, a
partir do terceiro dia, não só a minha presença era dispensável, como podia até
ser não aconselhável, pelas razões invocadas e que eu, na minha habitual quase
ingenuidade, me não tinha apercebido em devido tempo ou em tempo algum.
Reconhecia, no entanto, que a Sofia
não devia estar no seu melhor, depois da gripe que terá durado, afirmação sua,
quase toda a segunda quinzena de Janeiro e continuou pelo mês de Fevereiro e
ainda a rotura daquilo que não chegou a sequer a ser uma experiência – o novo
trabalho que foi iniciar no regresso da estadia em Portugal e que terá sido
interrompido, logo no final da primeira semana, cerca de meados de Fevereiro.
- E se encontrar outra viagem, mais ou
menos nas mesmas condições, podemos voltar a falar? Insistiu a Sofia.
Claro! Como deves imaginar, se eu
pudesse já aí estava! Respondi.
É que, além de gostar de conhecer
aquela parte da Alemanha… -"isto aqui é bonito, afirmava a Sofia!"
…queria tentar perceber o que terá
originado aquele mal-estar de Janeiro e só pessoalmente me parecia aceitável e possível.
Dois dias passados, novamente por
telefone, a Sofia anunciava que havia uma viagem de duas semanas, um pouco mais
cara, de dez a vinte e quatro de Maio.
- Nós pagamos metade da viagem!
Acrescentou ainda.
Não é necessário tal, pois tenho
reserva financeira suficiente para custear a viagem, sem sacrificar coisa
alguma.
Já lhe tinha contado, durante a
epifania de Janeiro, que estava a colocar de lado, como reserva, a quantia de
quinze euros mensais, correspondente a jornais diários que a maior parte dos
dias não lia e de dois jogos de apostas da Santa Casa.
Terminado este diálogo telefónico,
ficou assente que iria aproveitar esse período e de imediato confirmou que
estava marcada e paga.
É, de facto, entusiasmante, esta forma
simples que as novas tecnologias, adaptadas ao mercado, acabam por promover nas
pessoas.
E assim ficou. Viagem de dez a vinte e
quatro de Maio, com partida do aeroporto de Pedras Rubras.
II
No período de tempo que mediou, entre
a confirmação e o embarque, ainda tratámos de vários pormenores, nomeadamente o
que podia ou não levar, face às regras impostas pelas medidas de segurança,
ditas de prevenção contra o terrorismo e também aquilo que devia mesmo levar,
nomeadamente um impermeável, já que a chuva faz visitas frequentes naquela
parte do mundo.
Soube ainda que, no fim de semana de
dezanove e vinte, teriam a visita dos amigos do Luxemburgo, a Teresa e o Paulo
e ainda que o Peter embarcaria para os USA, em serviço, onde permaneceria até à
data do seu quadragésimo aniversário – vinte e sete – e tinha em mente passar o
dia na localidade onde nascera. Pormenores interessantes!
Este último pormenor, parecendo sem
importância para a minha deslocação, revelou-se-me, de imediato, como uma excelente
ajuda, para decidir sobre o que levar como recordação dos quarenta anos do
Peter.
Se, por um lado, me facilitava a
decisão, por outro criava, criou, um problema que, sem dúvida, podia ser tido
de uma falta de originalidade sem classificação. A tal ponto se me colocou o
problema de falta de "liquidez" mental, acabando por trocar
impressões com a Sofia, dizendo-lhe o que tinha em mente comprar e se não era,
de todo, um disparate! Ela disse que não, que até era giro, só que eu iria
gastar uma pipa de massa, o que até nem era tanto assim.
O raciocínio dela, quanto ao custo,
tinha a ver com o facto de, em Janeiro, quando estávamos, o Peter lhe ter
encomendado, pelo telefone, a prende de anos para a irmã, que era um Porto da
colheita do ano em que ela nascera; era este pormenor que estava na origem da
minha indecisão e falta de originalidade.
- Não é nada, faça isso que ele vai
gostar! Respondeu.
E, assim, vi sanada uma dificuldade
que sempre tive: comprar coisas para oferecer e que, na maioria das vezes se
revela mais um estorvo para quem recebe e um enorme desconforto para quem
oferecee. Neste caso era ainda mais complicado, não só por conhecer o Peter há
pouco tempo, quase nada sabendo de seus gostos e hábitos, mas na verdade o que
estava na raiz do problema é a minha mais que reconhecida inabilidade para
comprar o quer que fosse, fora do trivial quotidiano. Carpir, ao cabo de tantos
anos, é uma atitude que nada muda. Como diz o provérbio: "burro velho não
aprende línguas!". E, assim sendo, o melhor é não falar mais do assunto.
III
A bagagem habitual, previamente
planeada, desde os tempos da Marinha Grande (por não gostar de perder tempo com
soluções de última hora, por um lado e pelo vicio criado pelos anos de
responsabilidade no ordenamento, por outro) só foi alterada, como antes ficou
registado, com a inclusão de um impermeável, por recomendação da Sofia,
certamente ainda a contas com a desagradável recordação de Janeiro e da gripe
que a acompanhou, durante o tempo que pela lusitanidade permaneceu, segundo
disse na altura e que ainda sobrou até à Suábia.
Para ler decidira levar, da Lidia
Jorge, o seu último rommance " Combateremos a Sombra", tema que me
despertara alguma curiosidade, pelo tema actual tratado.
Tinha pensado levar o "Eu Não Sou
Eu, Evidentemente" do Torriente Ballester, que já me acompanhara, em dois
mil e cinco, a Berlin, primeira viagem à Alemanha, a convite da Sofia, que
nesse ano festejava quatro décadas de vida; não cheguei a ler quarenta páginas
e, dois anos depois, para que não haja algo parecido com abandono, voltou a
acompahar-me, mas sem resultados positivos: não tinha chegado à página com o
número cem. Peço desculpa ao autor, ele não tem a mínima culpa; outros títulos
já tinha lido e gostado.
Pelo sim, pelo não, decidi juntar ao
acervo da bagagem, o bloco-notas também; posso não ter tempo ou condições,
mesmo sendo duas semanas e num mundo desconhecido, pode muito bem parecer uma
eternidade. Veremos. Sempre poderei tomar umas notas, porque os nomes das
terras, na Alemanha, são difíceis de fixar! Levo o bloco, pesa pouco e pouco
espaço ocupa. Das terras e das não terras, sobretudo para quem não sabe
pronunciar mais que três palavras.
E quando peguei no bloco, como um raio
de luz a surgir por uma greta da nuvem, a sussurrar: pois, çois, leva o bloco,
pode não haver na Alemanha! Sorri baixinho.
Levei o bloco, que não usei!
Como disse antes, o bloco serviria
para anotar lugares ou eventos…o que achasse interessante e me tocasse as
cordas da sensibilidade.
Mal cheguei e pensei no bloco logo
aceitei que não iria usá-lo, por que tudo me sensibilizou e com a curiosidade
de ver tudo o que visível fosse, e era tanto, ficaria sem tempo para o bloco,
por me parecer indelicado deixar alguma coisa sem registo: a surpresa foi uma
só e preencheu todo o tempo.
Mas vamos ficar por aqui; alguma coisa
há-de ficar para escrever sobre esta viagem.
IV
Nos primeiros dias de Janeiro, seis e
sete, em sms para a Vizilda, eu registava a previsão: este ano vai ser
memorável! Sem contudo arriscar em que aspectos o seria. Provavemente estaria a
levar em conta o facto de, nos dois anos impares anteriores, terem ocorrido
situações diversas e nada comuns, boas umas e outras nem tanto, sobretudo nos
aspectos social e afectivo.
A resposta da Vizilda, sintética como
era seu hábito, foi:
- "Oxalá o seja e por bons
motivos" Sms de retorno.
Não sendo, por principio, permeável a
crenças ou profecias fáceis, mesmo assim tentei, mentalmente, analizar e criar
um suporte teórico à ousadia da previsão, passando em revista mantal os tais
dois casos impares, anteriores e o que o presente podia trazer de memorável e
porquê.
Como era inevitável, a primeira pista
a seguir, seria aquela que, nos dois referidos anos anteriores, foi o que mais
registos deixou e que estava já a projectar-se no ano em curso, com a anunciada
vinda da Sofia, logo no dia catorze de Janeiro e só isso era razão bastante
para visionar a quase certa previsão de vir a ser um ano memorável.
Voltando a Maio…
V
No dia nove fui para o Porto, onde
dormi, na mesma residencial de Janeiro e na manhã seguinte voei para Stuttgart,
onde o meu espanto começou ainda antes da aterragem.
Do ar se avistavam extensões imensas
de rectângulos em tons de amarelo e verde e algumas de formais irregulares, de
um verde mais pesado e que, de mais perto reconheci, como sendo manchas de
floresta.
Parecia um imenso tapete, que devia
ser de uma frescura só imaginada!
Sabia que aquela região da Alemanha
tinha uma componente agrícola bem demarcada, só que a realidade é mais
impressionante do que qualquer conhecimento teórico.
São campos a perder de vista,
parecendo que tudo se passa num mesmo plano horizontal, só divergindo nos tons
de cor, entre o verde e o amarelo, conforme o tipo de cereal ou legume em
crescimento.
Cada rectângulo devia corresponder a
dois hectares e os cereais eram cevada e trigo em diversas fazes de maturação.
Os legumes, que pareciam nabal em flor
e que teria destino diferente do que habitualmente lhe é dado.
Haviam alguns pomares de macieiras e
não havia, que se visse, um único engenho de rega; o clima, provavelmente, se
encarregaria de suprir a humidade básica para o normal crescimento, talvez por
este ano de dois mil e sete, ter sido ano de "graça". Ou seria assim
todos os anos? Por certo seria a maioria deles, senão estariam à vista os
indispensáveis apetrechos, para suprirem as necessidades do que está semeado.
E o que não faltava era água!
VI
A Sofia lá estava à minha chegada!
Soube depois que ia faltando, por ter feito uma das suas habituais confusões,
quase se perdendo na chegada ao parque de estacionamento, do aeroporto.
Não foi fria a recepção e efusiva,
também não esperava que o fosse, conhecendo-a como conheço, pouco virada a
grandes e exteriores manifestações de alegria, optando quase sempre por gesto
contido, mas franco.
A sua passagem de Janeiro, correndo o
risco de me enganar e estar a ser perversamente rigoroso, havia deixado marcas,
não sei se apenas em mim, marcas que eu iria esforçar-me por apagar, se ocasião
houver e para tal tiver capacidade.
Não foi assim, ou melhor, nem assim
nem assado, não houve um instante que desse aso de abordar tal tempo e tema.
E, assim, cá estamos, exactamente no
mesmo patamar, apenas um pouco alterado por um pequeno incidente, a que devo
ter atribuído um valor fora do contexto, que a distância e a forma como
decorreu a estadia, convidam a não valorizar.
O percurso de Stutgarth a Heidenheim,
um pouco mais de cem quilómetros, pareceu-me ser feito numa só escala de
altitude: os campos sucediam-se e os colmos em estado de crescimento uniforme r
de saudável aspecto, ocupavam todo o espaço de chão disponível, alguns deles
pareciam querer invadir o alcatrão, tal era o aproveitamento do espaço.
- Então ? falou a Sofia em tom
interrogativo!
Estou deslumbrado, confessei, sem
deixar de olhar toda aquela vida vegetal em crescimento, desenterrando as
recordações de infância e comparando-as, na sua pobreza agrícola das terras
áridas do xisto, com aquele solo ubérrimo que não tinha visto antes, nem mesmo
no Alentejo.
VII
De Berlin só vi uma parte, certamente
pequena, do ceentro da grande cidade. Dos arredores nada mais vi do que o que consegui
espreitar durante a descida, depois de deixar para trás um denso manto de
nuvens, já o avião a preparar a aterragem, no aeroporto de Tegel, há dois anos.
Aqui, em Heidenheim é o inverso: são
quase só arredores, a cidade pequena e as localidades, também pequenas, como
pequenos são oe edifícios, os maiores mais parecem armazéns, fábricas de vários
produtos, mas gente era raro ver-se, fora da cidade. Gado, de raça bovina, em
pequenas manadas, preguiçosamente e sem alguém à vista, apascentavam em espaços
que parecia terem sido dimensionados para o número de animais; por certo foi o
tamanho do terreno que sugeriu a quamtidade de animais.
Não era hora de intervalo, cada um
estaria no seu posto de trabalho, daí a ausência de pessoas,
As estradas eram movimentadas, o
trânsito fluía sem pressas ou assim parecia, sem espasmos caóticos e a
sinalização parecia existir só para as pessoasse lembrarem dela.
Temi pelo excesso de quietude!
Confesso.
O trajecto foi de tal modo interessado
no desenrolar da paisagem, sem grandes relevos a contrastar, que quase nada
recordo do que falei com a Sofia.
Um dos motivos de maior espanto, era o
da generalidade das construções, que não era só nas povoações, também dentro da
cidade, neste caso HdH.
Dava a sensação de que as gentes que
por ali andaram, há muitos anos, ou por um conceito estético ou de utilitário
bom gosto, transformaram cada casa num expressão plástica, como tema de fundo,
convergindo nas cores, nos traços arquitectónicos e depois no pormenor de
mosaico, de linhas rectas, formando ângulos opostos, dentro de quadros bem
dileniados.
Terão sido os gnomos das florestas,
densas e luxuriantes na época, que de vez em quando as abandonavam e vinham
para as clareiras, em festa, e aí se desafiavam, cada grupo, a tentar fazer a
casa mais bonita! E aí estão, sem uma grande variedade cromática, que
caracteriza as cidades de uma boa parte do mundo, nomeadamente nas deste país.
Fixei, durante o percurso, que o Peter
estava em Viena, Austria, e que chegaria perto do final do dia.
A Sofia perguntou-me se gostava de
lasanha e como a resposta foi afirmativa, acrescentou que, quando chegásseemos
a HdH, iríamos às compras para fazer a lasanha. E que teria de ir ao Banco
levantar dinheiro para, na manhã do dia seguinte, pagarem a escritura do
apartamento.
Como a minha experiência nesse ramo da
imobiliária era totalmente nula, propuz-lhe, para evitar ir ao banco, adiantar
eu a verba necessária, pois tinha levado euros para as despesas.
A Sofia, no seu jeito peculiar,
perguntou, sorrindo, se lhe emprestava dois mil e quinhentos euros! Risos!
Tivesses ficado em casa, pensei alto,
e terias evitado esta parte gaga! Olhámo-nos e rimos, agora com vontade!
E, assim, adicionei mais um agradável
registo da minha ignorância, ampliado quando chegámos ao nove de Flamenveg e vi
o objecto da escritura!
Que espanto de espaço o que ia passar
a ser deles! Que maravilha de paisagem se avistava da grande varanda ou
terraço, virado para a cidade! Só mesmo fotografando, descrever não é fácil!
O anterior ocupante, empreiteiro e
construtor do seu apartamento, tinha-se esmerado, naturalmente! Aliás, como
fazem a maior parte dos empreiteiros por esse mundo, dito civilizado e rico:
constroem, o pior possível, o que outros irão habitar, mas para seu próprio uso
são cuidadosos e até perdulários, chamando quem sabe mais para projectar suas
ideias. O construtor do apartamento, que habitou não sei quanto tempo, era um
paradigma desta realidade.
Falarei disso mais adiante, se não
esquecer e valer a pena.
Parecia, não fosse o meu espanto sem
limites, que tínhamos ido dar um passeio e estávamos de regresso! Se este quase
nada, por um lado, é o que me seduz e torna a nossa amizade num agradável
oásis, por outro parece-me que o importante nos passa sempre ao lado e que só
de trivialidades somos capazes! E tal não é verdade, ambos o sabemos; só não o
confessamos.
VIII
Da cidade, que aos poucos se deve ter
ido arrumando, num vale entre três ou quatro colinas, sobressai a esguia torre
de estilo gótico da igreja, parecendo querer entrar nos domínios celestiais,
sem causar danos de vulto, semelhante a outras que vi durante o trajecto e em
Berlin, há dois anos, quando lá estive!
Quase no topo da colina a Sudeste, a
esgueirar-se para Sul, como que a deixar caminho para a cidade se expandir, um
castelo medieval, de duas torres cilíndricas e terminadas em cone, balizando o lado que olhava a cidade, não de forma sobranceira, antes a
recomendar a aproximação da urbe, certamente relutante nos primórdios da
fundação.
Havendo, naturalmente, edifícios de
arquitectura e construção do século XX, a maioria, a grande maioria deles, mais
ou menos luxuosa, obedeciam à linha asquitectónica anterior: frontarias lisas
de caixilharia adornante e todas encimadas pelos telhados, de duas ou mais águas,
em vertigem de inclinação: o vermelho e o tijolo, misturados com cinzentos-
azulados, eram as cores dominantes.
Na colina, quase em frente ao castelo
medieval, do outro lado da cidade, para Nordeste, o bairro onde a Sofia e o
Peter moram, deve ter crescido, sem pressas e também sem alardes de mau gosto,
mesmo quando todas as construções fugiram ao traço dominante. Se Heidenheim
fosse uma grande cidade, este seria um subúrbio de bom gosto, destinado a
forasteiros que demandam a novas paragens, de trabalho e não de diversão, que
HdH parece dispensar.
Alguns dos edifícios, como é o caso
daquele em que moram os meus anfitriões, têm dois ou três pisos e
águas-furtadas, de desenho temerário para a região e seu clima, de inclinação
quase nula, se comparada com a vertiginosa dos telhados tradicionais; os
materiais usados e o sistema de drenagem da neve, quando o tempo dela chega,
permitem tal ousadia de construção.
O bairro, quase todo de edifícios com
um ou dois pisos, tipo vivenda, foram nascendo pela encosta como se árvore
fosse. Chega-se ao tronco por uma via a nascente e outra a poente e chega-se ao
topo da árvore por dois ramos principais que depois se dividem em braços mais
pequenos, até ao ponto mais elevado pelo ramo Flamenveg.
Do alto apenas se avistava a parte da
cidade à direita do Castelo Medieval; o restante da cidade ficava encoberto por
um conjunto de parques e moradias, também estas não visíveis, pelas frondosas
arvores: salgueiros, tílias, nogueiras, cerejeiras, sobretudo pinheiros
nórdicos.
Todos oe espaços entre prédios eram
ajardinados, parecendo haver um saudável despique entre os moradores das
vivendas, que raramente se viam, em apresentar o seu espaço mais profusamente
decorado com plantas das mais variadas espécies e seleccionadas para resistirem
à neve que durante semanas as cobria.
À volta do bairro existia uma faixa de
terreno não arborizado, seguindo-se uma zona de mata, que não cheguei a
perceber a dimensão, de pinheiros e carvalhos e uma grande variedade de
arbustos endémicos cobrindo os espaços entre as arvores.
Nos passeios de todas as ruas, do
bairro e da cidade, haviam árvores já antigas e muitas outras com aspecto de
terem sido recentemente transplantadas, numa ininterrupta sucessão, sem ser
excessiva, preenchiam todos os espaços: cerejeiras novas, já com frutos em
crescimento, eram frequentes em quase todas as ruas.
Às portas de algumas vivendas
empilhava-se lenha, cortada em pedaços de tamanho bem definido, certamente para
o Inverno, inevitável na altura própria ou fora dela, como sucede em todas as
latitudes, onde os elementos meteorológicos parecem estar numa fase de
pré-loucura.
A forma displicenda como a lenha era
deixada, à vista de todos e à mão se
semear de qualquer passante, o que levava a concluir que, naquela parte do mundo,
os furtos ou roubos, se os havia, não eram de lenha certamente.
IX
O apartamento que o casal vinha usando
em regime arrendamento e que iria, no dia seguinte, passar a propriedade sua,
após escritura que se efectuaria no dia seguinte pela manhã, revelava-se, a
meus olhos, de palácios ignorantes, um da era cibernética.
Não era, não é, um apartamento acabado
com a intenção de ser vendido ao virar da página, tal era a combinação dos
diversos elementos formando um conjunto harmonioso e de grande beleza estética:
as madeiras, claras, brilhavam pela ausência de detalhes que em nada
beneficiariam o conjunto, vivendo em perfeita harmonia com as pedras
ornamentais, de tons verdes, a espreitar por detrás dos móveis, formando
elementos escultóricos, que davam vida à cor uniforme dos móveis; as janelas e
sacadas apareciam a nascente, iluminando a divisão principal e considerada a
mais intima, bem apetrechada de uma casa de banho, onde os mármores e seu
recorte, revelavam um refinado bom gosto.
O espaçoso quarto do casal, tal como a
casa de banho, era outra obra de arte, de moderna arquitectura, onde o
aproveitamento de vários planos davam uma dinâmica própria ao espaço.
A cozinha, bem equipada de móveis e
electrodomésticos, era ampla, com duas janelas de sacada que davam acesso à
varanda-terraço, virada a nascente, recebia Sol mal ele despontava e durante
todo o dia, nos dias em que sol havia, por uma das "janelas", toda em
vidro inclinado, do parapeito exterior até ao tecto.
A sala, com duas janelas de sacada que
dão para a grande varanda, uma virada a nascente, quase junta à da cozinha e outra
virada a Sul, seguindo-se mais três, estas de modelo informal em toda a
extensão do apartamento, só a última não dá para a varanda, onde o Sol entra a
jorros, quando acorda e por vezes com alguma violência, chegando mesmo aos
quarenta graus.
Pormenor que me seduziu: a sala não
tem porta de entrada! À entrada do apartamento há a vitrina dos sapatos, que
para andar pela casa ou se anda descalço os com chinelos que há na gaveta da
vitrina, Logo a seguir à vitrine há uma pequena casa de banho, com janela
virada a poente, com o mínimo dos móveis e a máquina de lavar roupa.
Descalçados os sapatos contornando o móvel liso, em madeira, desenhando uma curva
que leva à sala, sem porta!
Do mesmo espaço inicial e do lado
esquerdo, é a porta de entrada para o quarto e casa de banho que vivem no mesmo
espaço, mas em separado. E junto à porta do quarto de casal começa a escada,
esboçando a espiral, degraus em madeira, libertos da tábua tradicional, apenas
os degraus, pela qual se chega ao piso de cima, composto de um espaço grande do
lado esquerdo, tido como o escritório do Peter, tinha um sofá cama de casal e
uma mesa que podia servir de estirador, mas que pouco devia servir.
Do lado direito tinha um pequeno
espaço, correspondendo ao final da escada e que na altura parecia um púlpito
sem nave, estando adornado com uma escultura em cobre, sem estilo definido,
caminhando para o surrealismo. Seguia-se o corredor, tendo do lado direito uma
casa de banho com poliban, sanita e lavatório e no final do corredor era um
quarto com cama de corpo e meio, uma estante que tudo levava a crer tratar-se
da biblioteca que a Sofia levou para a Alemanha. Tinha ainda um espaço esconso,
que correspondia ao desenho do telhado. Tinha uma janela que podia abrir-se de
forma normal ou na modalidade de damper, virada a Sul, tal como as do corredor.
Todo o primeiro piso tinha aquecimento
sob o pavimento, regulável e como suplemento tinha dois de parede, um para o
espaço das refeições e o outro na sala de estar, sendo uma cristaleira que
simulava a divisão dos espaços.
O móvel de fundo ocupava toda a
parede, servindo de biblioteca, bar e televisão. Estava instalado um sistema
musical, com comando para regular o som e também para seleccionar o espaço onde
se podia ouvir em separado. Os estores eram também parte do comando
A varanda ou terraço que cercava uma
boa parte do aposento, era o lugar onde o Peter exercitava os seus dotes de
chef de cuisine.
Tinha
vasos para plantas em toda a extensão da varanda, mas estavam vazios, a
neve ainda não deixara substituir por novas.
Desta varanda, voltada para o centro
da cidade, mas de que se avistava apenas a poente, assistia-se a magníficos pôr
de Sol, sempre diferentes. Registei alguns deles.
X
Com a revista aos espaços terminada e
arrumada a bagagem, faltava aguardar a chegada do Peter para apreciarmos a
lasanha, que parecia estar…hummmmm uma maravilha.
E vinha com apetite! Fez uma entrada com
queijo de Castelo Branco e um tinto do Douro, ambos acabadinhos de chegar à
Alemanha de Baixo.
A Sofia quase só provou o tinto, mas a
lasanha foi por todos atacada. Estava excelente.
O fecho do dia, como digestivo, foi
uma caminhada pela mata, que quase faz companhia aos últimos edifícios do
bairro; com trilhos bem definidos e por eles bem conhecidos, mesmo com o Sol a
despedir-se e a noite a aproximar-se de mansinho, não interromperam a
caminhada, subindo e descendo, eles de sapatilhas todo o terreno e eu de
sapatinhos quase sem rasto, parece-me que algo estranho nos acompanhava, aos
sapatos e a mim, tirando do que mais se manifestava, o direito, por duas vezes,
umas areias grandes demais para ali ficarem.
No dia seguinte de manhã, irei
inspeccionar os sapatos super leves, ainda convencido de que as areias entravam
por onde os pés entram, estranhando que só no direito entravam.
- Fizemos uma boa caminhada! Dizia o
Peter, no seu português acidentado, meio soletrado a que o sotaque dá uma
sonoridade divertidíssima!
- Oitenta minutos! Contabilizava ele.
- Zé, vai uma cervejinha? Pergunta o
recém chegado.
Claro, temos que repor os líquidos
perdidos! Respondi.
- E quer ele perder peso! Refilala a
Sofia. Eu bebo chá, acrescenta.
E, assim, sem cerimónias, chegou a
hora de dormir, com um CD a chegar ao fim.
O dia seguinte era o da escritura da
compra do apartamento
O acto não demorou muito e, de tarde,
enquanto o Peter foi para a VOITH terminar o trabalho da deslocação à Austria,
com a Sofia a ciceronear, fomos dar uma volta pela cidade:
Heidenheim.
XI
A primeira e única tentativa de
organizar um diário foi quando parti para Angola, num dos últimos dias de Junho
de mil novecentos e sessenta e um.
A tentativa resistiu aos três
primeiros dias de viagem. A partir do quarto dia, quando o Atlântico Sul e o
Vera Cruz se desentenderam e a luta, desigual, foi travada em batalhas
intermináveis, de noites e dias sem interrupção, ao fim do dia o cansaço e a
desorganização gástrica e intestinal eram tais, que o diário seria a última
coisa que me apetecia colocar em dia. Diário, em dia, pois claro!
O que encontrei, muitos anos depois de
regressar, registado num pequeno bloco de papel quadriculado, era tão pobre e
tão sem jeito, que nunca mais daquelas folhas me servi ou socorri para apoiar o
que, muito mais tarde, em jeito de memórias, fui organizando. Menos ainda
serviria, muitos anos antes, para encorajar alguns pequenos atrevimentos na
arte poética e relacionados com aquele período, de mais de dois anos em Angola
passados.
XII
A viagem à Suábia, mesmo com a
peripécia do bloco de permeio, nunca teve a intenção de poder ser um diário,
nem sequer tal ideia me ocorreu.
Parti, como faço quase sempre e nas
mais diversas situações da vida, para a viagem tendo só em vista o poder estar
com os amgos, contactar com novas situações e novas gentes e como estas vivem.
Os monumentos que, habitualmente
mobilizam as pessoas a viajar, para mim só servem como referências para
discorrer sobre que tipo de povos por lá andaram e qual o seu grau de
desenvolvimento, material e cultural.
Não teve também, de certeza, da parte
dos amigos que me receberam, qualquer organização planeada de visitas, o que me
agradou, avesso que sou a grandes ou pequenos aparatos e, menos ainda, perturbar
o tempo dos meus anfitriões por uns dias, mas amigos toda a vida, assim o
espero. E que seja longa, a deles; a minha, mesmo sem longas viagens pelo
mundo, fez já um longo percurso, pelo "interior" desse mundo.
Com ou sem programa, a verdade é que,
contas feitas, até pareceu ter sido delineada em pormenor, por casualidade ou
natural sensibiidade da Sofia!
XIII
VESTAL – mal o Peter nos deixou, após
a escritura e foi para VOITH, provavelmente para ultimar o trabalho da viagem à
Austria, a Sofia, ao volante do seu "carocha" metalizado, novo, mas
copiado do modelo original Wolks, ainda com os vidros movidos a manivela,
dirigiu-se para uma estrada que passa entre duas colinas, a da direita mais
alta, de costas para Nordeste e que era aquela que deu guarida ao bairro
Flamenveg, todo ele virado a Sul e Poente.
Poucos quilómetros pela estrada
secundária, com os habituais passeios pedonais bem marcados na sua cor de
tijolo, virou à direita por um trilho não alcatroado e parou junto a um espaço
que, sem muros ou cancelas, apenas um sinal de trânsito a informar que era
proibido o trânsito automóvel. Mesmo ao carocha!
A menos de cinquenta metros adiante
erguiam-se, de ambos os lados, aglomerados de rocha, que a erosão, provocada
pelos elementos meteorológicos e os muitos séculos da idade, foram
transformando em disformes catedrais de rocha vulcânica, quase todas já
decoradas por pinheiros e outras "enfesadas" árvores, que só a
teimosia as mantinha, porque a rocha em que se apoiavam, não lhe poderiam ter
prometido abundância, nem a outras que se foram instalando.
Tudo leva a crer, do historial nada
sei, que aquela zona, hoje calma até ao bocejo, terá vivido uma agitada época
geológica, até do seu ventre sair, sabe-se lá com que dores e convulsões, uma
boa parte do que por lá está e de que são testemunhas visíveis e silenciosas,
durante milhões de anos, os aglomerados magmáticos, que no vale se juntaram,
como resistentes a aconselhar prudência e respeito a quem no santuário entra.
Antes deles haveia tudo, mas, de certeza,
nada do que hoje há.
Depois destas sentinelas, mais para o
interior do estreito vale, há uma unidade hoteleira, que não vi, por falta de
tempo e menos ainda de curiosidade. De hotelaria vinha eu saturado.
-
O começo do "mundo" naquele lugar, deixara uma marca bem
vincada!
- Da cidade, Heidenheim, registei
ainda a calma, o encanto da arquitectura dominante, de arte desconhecida, a
torre com o relógio a encimar duas "janelas" esguias e a seguir a
pirâmide de não sei quantos metros, com esbelta elegância e sóbria em adornos,
habituais em outras construções de outras igrejas.
Na encosta a Sul o medieval castelo,
que terá testemunhado as batalhas que na época se travavam pela posse das
terras e ainda hoje é, em alguns pontos do mundo, mais mortíferas as que são
desencadeadas pela posse do que do interior da terra podeser tirado.
Medievalismo de intestino!
XIV
Sábado. Tomado o "pequeno
almoço" (pequeno é alcunha)no nove de Flamenveg, o trio partiu, no Audi do
Peter, atravessando a cidade e passando ao lado da colina do Castelo, rumámos à
periferia.
Do lado poente da colina do Castelo,
estende-se um extenso vale onde uma povoação se instalou de ambos os lados de
uma rua principal, quase toda ela
adornada com as típicas e só umas poucas de arquitectura de nenhuma inspiração.
Betão. Só.
Do lado direito há uma
"estrada" só para comboios, penso que só de mercadorias e,
naturalmente, com pouco movimento.
Na referida rua, tal como nas cidades
de província em Portugal, foram armadas tendas cobertas com lona, onde de tudo
se expunha e vendia, desde artesanato a roupas, certamente de contrafacção,
como no extremo ocidental da Europa e um pouco por todo o mundo, só que, aqui,
não tinham a ASAE para apreender a mercadoria contrafeita, como em Portugal,
deixando os vendedores contrafeitos por ficarem sem o produto que contavam
vender.
Plantas ornamentais e ervas aromáticas
ocupavam uma boa parte da mercadoria exposta.
De bizarro contraste com as feiras
semanais de Portugal, era a ausência de música em altos berros e berros sem
musicalidade alguma, a apregoar a mercadoria. Ouvia-se apenas, um ruído de
fundo das vozes das pessoas que trocavam impressões, informavam-se dos preços e
algumas fechariam negócios.
Era tal a ausência de gritaria que,
num espaço entre as tendas de lona, um latino-americano, exuberantemente
vestido com o traje daquela zona do mundo, entoava as suas músicas na flauta,
ampliando o som com um pequeno equipamento, que seria dispensável naquele
espaço de murmúrios quase em segredo.
A certa altura, como vindo de outro
planeta, começou a ouvir-se uma língua conhecida, cantada bem alto, por baixo
de uma bandeira bem ao alto levantada: era seis portugueses, jovens, alegres, a
desafiar o quase silêncio quase religioso duma feira que, de diferente das do
seu País e do meu e da Sofia, era a ausência dos pregões a tentarem sobrepor-se
ao Toni, ao Quim e ao Marco.
Eram a segunda pincelada original no
cromática uniforme das telas, que um invisível artista plástico quebrou a
uniformedade com as duas pinceladas: a flautada Andina e a cantata lusitana.
A ida à feira de sábado, que poderia
pensar-se fazer parte de um plano previamente elaborado pelo casal anfitrião,
para as suas compras, não era tal. Estaria já programado, mas com outra
finalidade.
A avó do Peter ofereceu à Sofia um
casaco de pele, de um castanho luzidio, que poderia ser de marta, de peles nada
mais sei além da cabra e da ovelha e um pouco da chincila, que foi moda há
alguns anos, mas como criadores e eram animais pequenos que nunca dariam um
casaco daqueles.
O casaco, para poder ser usado pela
Sofia, teria que ser à silhueta esguia da Sofia, ajustado.
Num dos estabelecimentos de base fixa,
daquele espaço de feirantes, que vendia artesanato variado, plantas
ornamentais, entre outras coisas, funcionava também um pequeno atelier(como se
escreverá em alemão, este francesismo, enxertado na língua de Camões?)onde,
durante mais de uma hora, uma senhora de uns sessenta anos e outra com cerca de
meio século, elegantíssima e com a segurança de quem sabe do oficio, ia dando
sugestões para as alterações que, uma vez aceites pela Sofia, a técnica marcava
ao longo do lustroso pelo castanho.
Não menciono o custo contratado da
operação, que mesmo a Sofia, a sentir-se dentro da modificada pela, achou um
exagero. Tendo a técnica se apercebido da troca de olhares entre o casal, para
não perder o negócio, ofereceu à Sofia um gorro de idêntica pele, no qual a
Sofia tinha mostrado interesse ou curiosidade. Bónus incluído no preço!
À saída, no café em frente, comentei
que a dama das medidas, devia estar, ou ter estado, ligada ao mundo da moda.
Não obtive, nem esperava, qualquer comentário por parte do casal. Meses mais
tarde, no último trimestre de dois mil e sete, a Sofia me confessou, por sms,
que a dama a tinha desafiado a passar modelos dela. Aplaudi: força, Sofia,
parar é não viver!
Passou os modelos da dama e também
passou uma grande ráspia de frio nos bastidores da passerelle! Sacrificios
profissionais.
Ainda nesse sábado, dia doze, um
familiar do Peter celebrava uma data especial, não recordo se era aniversário.
Marcaram encontro ao jantar, para uma vila ou aldeia, penso que situada entre
Heidenheim e Stutgarth.
Fomos umas horas antes. O Peter queria
parar num clube de golf que ficava a caminho, para saber condições e horários,
com vista a inscrever-se ou não.
Já com o Sol a despedir-se chegámos a
um enorme portal aberto, num espaço
muralhado, sobrando acima da muralha as paredes e sobretudo os telhados de
algumas casas, de forte inclinação, com duas e até três fiadas de pequenas
janelas, a espreitarem das telhas.
As cores da ornamentação exterior mão
eram vivas como as de HdH, mas tinham uma harmonia plena de beleza e refinado
bom gosto. Pareciam ter sido esbatidas pelo passar do tempo, ganhando matizes
que só as beneficiavam.
Não consegui folheto os documentação
sobre a data da construção do seu passado feudal, mas tudo levava a pensar que
eram no plural os séculos decorridos.
Os equipamentos de moagem, alguns
ainda instalados no seu espaço funcional, espantavam pela dimensão,
nomeadamente as mós.
Devia ser um centro agicola de grande
riqueza e a religião prevalecente devia ter grande implantação e influência,
tendo em conta as dimensões e riqueza da sua igreja.
Não tive o cuidado de me prevenir
antes com película fotográfica e o rolo estava a ficar a zero, exactamente
quando mais dele precisava.
Mas se voltar aquela parte do mundo,
tudo irei fazer para voltar, com tempo, á bela e imponente, Dinkelsbuhl, de dia
e à noite para melhor apreciar as suas tonalidades de castanho e ferro. Em Maio
ou noutro qualquer mês do ano, até para ver as diferenças.
XV
Primeiro domingo.
Acordei cedo, por qualquer razão que
desconheço ou razão nenhuma, esta sim, naturalmente desconhecida.
Quando morava na Latino Coelho, em
Leiria, havia sempre um sino de igreja ( estava rodeado delas !)que, para
chamar os crentes à oração ou para anunciar o aproximar da hora para a
celebração da Eucaristia, acordava crentes e não crentes, indistintamente. Só
um ou outro, duro de ouvido, ou surdo de todo, escapava a este sonoro
despertar.
Não foi, garantidamente, o toque de
qualquer sino que, no nove da Flamenweg, me despertou; nunca lá ouvi um sino a
tocar, o que não é garantia de que não tocasse. Não ouvi e isto me basta.
Seria o meu relógio biológico? Também
não creio, já que o meu trabalho não cria hábitos de registo, disperso pelas
horas todas do dia e mudando todas as semanas, incluindo domingos, feriados ou
santificados dias, para não rimarem.
Esta dispersão de horas de despertar
deve ir apagando qualquer esboço de registo biológico que teime em instalar-se.
Nas duas manhãs anteriores, de sexta e
de sábado, sobretudo na primeira, reparei, quando acordei e espreitei para a
rua que desce para os limites da cidade, que os automóveis estacionados, ocupavam todos os lugares de estacionamento,
em frente ou ao lado das vivendas, como que num passe de magia, tinham desaparecido
quase todos, o que sempre produziriam algum ruído, mas seria tão pouco que não
dava para violar a fronteira da calafetagem e duplos vidros das janelas e
acordar os que ainda se ficaram pela vale dos lençóis, como era o meu caso, de
forasteiro em férias.
Dormia, normalmente, com o estore
levantado; a janela era virada a sudoeste e o alvor não atingia directamente o
aposento; e como o nove era o ponto mais alto da Flamenweg, da cama só se via o
azul do céu, quando nuvens não havia.
Como não ouvia ruídos no piso
inferior, calculei que os meus anfitriões estivessem ainda acamados; eles já
por ali estavam há tempo suficiente para se habituarem a estas nuances de falta
de ruído e, naturalmente, aproveitassem o domingo para, sem compromissos
profissionais, darem ou não, descanso ao corpo.
Levantei-me, procurando não fazer
barulho, fui à casa de banho despejar o resto da cerveja do jantar da véspera e
com a imagem da quase isotérica Dinkelsbuhl, voltei para a cama, não antes de
espreitar o tempo: estava nublado, mas não frio.
Peguei no "Combateremos a
Sombra" da Lidia Jorge, ms não resultou; não conseguia concentrar-me na
leitura de modo a continuar.
E, de rompate, sou atingido por
atingido por um misto de nostalgia e saudade, quando reparei que faltava, naquele ambiente, alguém: recuei
no tempo cerca de dois anos, até Berlin, onde sempre havia uma sensação de
frescura de alguém, que raramente se via, mas que ali faltava – a Iris!
Foi difícil recompor-me daquele
desconforto! O quase silêncio do local, a quietude da paisagem sem horizonte, o
sossego da cidade e a sonolência do apartamento, estavam a começar a
asfixiar-me, chegando mesmo a ter vontade de, naqueles instantes, regressar a
Portugal e tentar esquecer a imensa alegria que me levou a a HdH.
Deixei os pensamentos fluir e eles se
encarragaram de trazer, para o nove de Flamenweg, a pessoa que lá faltava! E
foi tal a aplicação concentrativa, que me pareceu ouvir, vindo de um etéreo
ponto do universo, sem referência, a voz calma e a meus ouvidos musical, com
sonoridade de português e alemão e que tão bom soava aos meus, mas que de
imaginação não passava.
Virei-me para a revisão dos dias
anteriores e coloquei-a no meu percurso e a pensar que tipo de estória ela
saberá, agora que em História procura especializar-se! Será que, alguns
daqueles locais, farão parte do seu estudo? Naturalmente, não, mas gostava de
os visitar com ela e perguntar-lhe se deles a história sabia alguns pormenores,
tais como, o da estudante de história de hoje, lá do centro da piscina,
perguntava: " oh, Zé, aqui ainda tenho pé?"
Há quanto tempo ele tinha deixado o
ponto da piscina onde pé tinha, passando pelo ponto mais profundo e estava
agora a meio, entre os dois pontos.
Claro que tens pé! Respondia! Continua
a nadar até aqui, mas sempre com os olhos nela, não fossem as forças
faltar-lhe!
E lã vinha, aquela minúscula sereia,
de cinco anos ou menos, de que apenas se via a cabeça, suspensa das
bóias-braçadeiras, até junto a mim, mudava o rumo e continuava a nadar! Falta
de força nunca revelou, mas quando o cansaço era grande, dormia em qualquer
sitio.
E assim se cimentava uma amizade, toda
feita de ternura, que não se perde, nem pelo facto de ter crescido, outros
mundos percorrido e estar quase sempre a milhares de quilómetros de física distância.
Ainda peguei na tese de doutoramento
da Luisa, que a Sofia, na véspera, me
autorizou a ler, mas depressa se revelou tão incapaz de me trazer a
concentração necessária, como o "Combateremos a Sombra" da Lidia
Jorge!
Apreciar a velha e eterna questão dos direitos em geral e dos humanos em
particular, à luz da filosofia, é tarefa mais complexa e ousada, do que a
questão vista pelo caminho do Direito geral. Ler, sem a concentração que não
dispenso, seria, no mínimo, desrespeitoso para quem escreveu. Ler, só por ler,
não contem comigo!
No centro deste tumulto opcional,
pareceu-me ouvir, vindo do piso inferior e subindo a escada em meia espiral à
velocidade do som, a voz da Sofia: "oh, doutor, já está acordado?"
Há séculos! Respondi. Fiz barulho
demais?Eu desço já.
Não lhe falei no meu desconforto
daquele alvorecer e só meses mais tarde,dele falei à Iris, mas de forma
alijeirada!
Seguiu-se o pequeno almoço e depois
dar uma volta pela cidade.
XVI
A visita seguinte foi à cidade onde a
Sofia iria trabalhar, no inicio de Junho.Schwabisch Gmund.
De HdH até lá, os primeiros cerca de
trinta quilómetros são no planalto superior, com uma ligeira inclinação,mas
acima dos setecentos metros de altitude, segundo o Peter e que depois confirmei
no folheto turístico.
A partir dos trinta e tal quilómetros
iniciam-se uns poucos de descida, com
curvas e contra-curvas, sempre a estrada ladeada de densa floresta de pinheiros
nórdicos. Em alguns locais eram tão densas e altas as árvores que, mesmo em pleno dia, a noite aparecia como num
túnel, vegetal, de certo modo comparado com a parte da estrada que vai da
Marinha Grande até São Prdro de Moel,, pelo norte e que dá acesso à Praia
Velha, pedaço de que a Teresa, dos idos tempos de imobiliária, tanto gostava.
De ambos os lados da estrada,
sobretudo nos pontos de mais acentuada inclinação, haviam caixas em betão, com
abertura para a estrada, que a Sofia esclareceu conterem serradura ou areia,
para ajudar algum condutor que, nos dias de nevão, ali pudesse ficar atascado!
Tens que ter cuidado, Sofia| Isto deve
meter medo nessas alturas! E vais ter que fazer o percurso duas vezes por dia,
qual deles o mais complicado, quer descendo, quer subindo.
- São só três dias por semana!
Respomdeu. Uma pessoa habitua-se!
Apanhados num quiosque e no Posto de
Turismo, bem como na catedral, um folheto desdobrável forneciam uma série de
informações sobre a diversidade de temas, destinados aos turistas: a arte e
arquitectura, sobressaindo o mosteiro, originalmente de estilo gótico, com
acrescentos de barroco; teria sido fundado pela ordem mendicante de Santo
Agostinho.
O tempo foi sempre pouco para
apreciar, quando tanto havia para ver; mas a finalidade primeira, confesso, era
estar com os amigos.
Próximo do local de trabalho futuro da
Sofia, um largo com um pequeno lago foi aproveitado para esplanada onde, já
quase no regresso, nos sentámos para comer um gelado! O que a Sofia escolheu,
tal como o que eu escolhi, eram tão exagerados que a Sofia, mais olhos que
barriga (não é apenas um dito antigo, a Sofia é mais olhos e barriga nenhuma),
não o conseguir acabar.
Não quero deixar de registar a beleza
do órgão da catedral, embutido em madeira escura esculpida, era um regalo para
os olhos; para os ouvidos não sei, calado estava quando entrámos e silencioso
ficou, quando saímos.
Também as fachadas dos edeficios,
nesta zona, são diferentes das de HdH e arredores.
XVII
A cidade, cuja prevista visita me
estava a provocar uma grande curiosidade, era ULM, de que apenas sabia, e não
era de somenos importância, ser a terra em que nasceu Einstein e ali terá
ensaiado algumas de suas teorias com outros cientistas de renome; ter a
espectacular catedral gótica, de que se destacava a torre mais alta, toda em
pedra, com mais de cento e sessenta metros; ser uma antiga e das mais
importantes do Sacro Império e ser um centro comercial de grande importância
naqueles tempos.
Porém, o que mais me excitava a
curiosidade da visita era, sobretudo, a sua localização, na margem esquerda do
rio Dan, ou Danúbio. E porquê ?
Desde há muito, nomeadamente a partir
dos meus contactos, superficiais, com ah Geografia Mundial, me fui habituando,
talvez por uma de método, a ordenar os rios de reconhecida importância, em três
categorias, nada institucionalizadas, apenas para meu "governo"
pessoal:
- os rios económicos, onde se situam
os grandes portos de circulação de mercadorias;
- os rios culturais, por terem nascido
e crescido, nas suas margens, algumas das cidades de grande e reconhecida
influência cultural;
- os românticos, como o Danubio que
Johann Strauss elevou, com a inclusão de seu nome, numa das suas composições,
talvez não a mais conseguida, musicalmente, mas por certo a mais celebrada e
divulgada, percorrendo e abrilhantando os grandes e sumptuosos salões, dos
muitos palácios da época medieval e que muitos ainda resistem, bem conservados,
no mundo hoje dito ocidental, sobretudo europeu.
A minha admiração é, muito
provavelmente exacerbada; sem qualquer cultura musical ou da dança e a parte
visual através dos filmes que foram mostrando, com a sua arte quase mágica os
pares, luxuosamente vestidos, rodopiando com a leveza de aves que do paraíso
não eram!
O Dan foi para mim, até ter olhado o
pequeno trecho, do seu longo percurso, que vai da ponte que liga as duas margens
até à curva onde se esconde, umas centenas de metros a juzante e visto da
muralha que o separou da cidade, um misterioso e belo meio liquido, onde
imaginariamente coloquei, para meu uso pessoal, tudo o que eu gostaria que o
Dan tivesse.
Não encontrei a cor azul que da valsa
me ficou gravado, mas não me decepcionou por inteiro, no seu ar calmo e até
doce que parece ter, ao passear-se por tão belos espaços que passaram a ser
aquela cidade de Ulm.
Como seriam as margens do seu percurso
antes da edificação da cidade? Essa é a sua
parte misteriosa, que resguarda e conserva a minha quase obsessiva
necessidade de a querer recriar; necessidade que não satisfarei e gostaria que
alguém fizesse. Eu não. Prefiro ficar com este caldo intemporal da realidade
presente e da imaginação ausente.
Ensaiei essa aventura, sobre a Luanda
que encontrei e a que terá achado o seu fundador, Paulo de Novais e por aí
fiquei. São tão irreais hoje, perante o que está, resultado das colonização, a
guerra pela sua manutenção, contra os
que a não queriam e depois a guerra entre os diversos interesses.
Voltando à margem do Dan:
Depois de o ter olhado atentamente, na
companhia da minha anfitriã e ter registado uns quantos pormenores
fotográficos, é que, com outro olhar, porventura mais equidistante, apreciei a
parte da cidade que deve ser, do ponto de vista arquitetónico, a mais cuidada, onde a grandiosidade e o
arrojo estão patentes, na sua elegante e delicada técnica se conjugam: a catedral
gótica e sua torre a perder de vista, onde não subi, por falta de tempo e
ausência de companhia, da qual se avistam os Alpes, segundo o folheto
desdobrável de fotografias turísticas; o casario junto ao rio e seus pequenos
canais, são de uma beleza tão suave que me apeteceu ali ficar, até me cansar.
Se voltar à Alemanha e àquela parte do
pais, farei todo o posivel para lá voltar e, se condições tiver, ficar o tempo
suficiente para apreciar a cidade e o Dan, com o cuidado que merecem.
XVIII
Outras visitas se seguiram, algumas de
que não ficou registo especial, não por que o não justificassem, apenas não era
a todas dedicado o tempo adequado, por falta de tempo.
Impressionou-mee uma cidade, cujo nome
não recordo, visitada já na companhia dos amigos vindos do Luxemburgo, onde uma
grande zona comercial albergava os hipercentros de uma boa parte das mais
conhecidas marcas: de vestuário, de calçado, com áreas diferenciadas conforme
as idades e géneros, electrodomésticos e perfumes que o dito mundo ocidental e
europeu vai gerindo.
Pelo incomum, deixo dois registos:
- a onda de calor que se fez sentir no
final da semana de treze a vinte de Maio, atingindo os quarenta graus
centígrados:
- no final de uma das tardes dessa
semana, estando o céu sem um mínimo traço de nuvens, avistei, da varanda do
apartamento, a nascente, uma nuvem muito densa e branca, de formação vertical,
como se da categoria dos cumulonimbos se tratasse! Ao meu espanto sobre aquele
fenómeno, que pensei ser meteorológico, responderam os meus anfitriões: "é
uma central nuclear, existente a uns quilómetros daqui que deve estar a fazer
uma descarga de vapor de água!
A estranheza foi só por ser tão
ostensiva a aparição da nuvem, pois sabia que a Alemanha possuía, em
funcionamento, mais de meia centena de centrais nucleares, desde que estive
ligado às Associações de Amizade, nelas incluída a de Portugal- RDA, República
Democrática da Alemanha.
XIX
No móvel da sala e num dos espaços que
a Sofia destinou aos livros, havia um volume, edição especial, referente ao
arquitecto, Balthasar Neumann, que desfolhei distraidamente, talvez por estar
em lingua alemã o texto ou por qualquer outro motivo que não recordo.
Recordo, porém, que gostei do que vi.
Deve ter sido um nome grande, no seu tempo, na construção de belos exemplares
do Barroco. A Sofia devia gostar especialmente da sua obra.
Na véspera do meu regresso a Portugal
e da partida dela para os USA, onde ia encontrar-se com o Peter, foi-me anunciado iríamos que
iríamos visitar uma das obras de Neumann, um mosteiro, que ficava a nordesde de
Heidenheim, cerca de cinquenta quilómetros.
Saímos, já perto do meio dia, ela teve que tratar
ainda de alguns pormenores de assuntos pendentes.
O Sol brilhava, não com as fúrias do
fim de semana! Já fora da cidade, subindo uma suave colina, com o sol do lado
direito, surgiu lá no alto, como vinda de outro planeta, uma esbelta figura de
mulher, de cabelos apertados atrás, formando aquele penteado que tem sido
designado por"rabo de cavalo", loiro e que parecia deslizar sobre o
manto verde da encosta, a uns vinte metros ao lado da estrada.
Devia ter calçados uns patins, não sei
seem linha ou de rodas paralelas e, mesmo não sendo muito acentuado o declive
da descida, logo desapareceu em direcção ao vale que nós tínhamos deixado para
trás.
Ficava bem, recortada no fundo verde,
aquela imagem deslizante, vestida de fato desportivo claro, que não deslizava
sobre o tapete verde vegetal, mas sobre um espaço alcatroado, destinado a
ciclistas e outros meios de locomoção mais radicais, que da estrada se não via.
A paisagem, em geral, era idêntica às
anteriores, com campos cultivados sem interrupção, a não ser as pequenas
manchas florestadas.
O relevo era menos plano e nas bermas
da estrada cresciam árvores novas, recentemante transplantadas, que em alguns anos
preencheriam os espaços entre outras mais velhas.
A economia dominante da região devia
assentar na agro-pecuária, não por se verem muitos animais nas pastagens, tudo
levando a pensar que estariam resguardados em estábulos; eram grandes as áreas
de pastagem e em alguns espaços tinha já sido cortada e agrupada em rolos,
aguardando o transporte para a ensilagem.
Eram viagens de poucas falas. A
paisagem enchia-me por inteiro os espaços emocionais disponíveis. Era, por
certo, a nostalgia do meu chão, que em Fevereiro passavam de verde a matizado
de cores suaves, entre o branco e o rosado, das amendoeiras e os odores se
misturavam numa alquimia refrescante, suave e que convidava a encher de ar os
pulmões e afinar os sentidos, em hibernação durante o Inverno: o da visão, o do olfacto, o da audição com a sinfinia da
natureza: o zumbido das abelhas, o chilrear dos pássaros nativos, como que a
festejar a Primavera e dar as bos vindas aos que iam chegando: de preto as
andorinhas, de cinzento as rolas, os cucos, poucos e raramente vistos,
preguiçosos e opotrtunistas, que nem o seu ninha construíam, nem os filhos
alimentavam! A sua utilidade era apenas a de visionário, vidente, aura que não
perdia por se não mostrar!
- Oh, cuco lá da ribeira, quantos anos me dás de solteira?
- Oh, cuco lá da ribeira, quantos anos me dás de solteira?
E a resposta demorava, bem mais do que
alguns corações, pediam! Mas o sábio cuco, tinha que fazer contas e reunir
dados! Quando a resposta chegava, duas ou três cucadas quase seguidas, o cuco
era maravilhado com aplausos que ele não ouvia, ao contrário era ijuriado
quando era muitas as cucadas ou quando não respondia!
Todos, à sua maneira, saudavam Março e
a chegada da Primavera, não a do calendário, a essa nunca ligaram!
Quando digo infância é por que hoje e
de há décadas várias, o verde quase desapareceu com as sementeiras e de quem as
fazia. O que hoje, além destas minha recordações e meia centema de velhos,
alguns hectares de oliveiras novas e outros tantos de vinhas, decastas
apuradas. Tudo mais são cardos, as silvas e giestas e dois ou três rebanhos de
ovinos e caprinos para os pastores estarem ocupados.
De novo mesmo, são os riscos que
ninguém via, nas testas das fragas que a ninguem agradavam.
O Darwin entrou de férias e a sua
evolução esqueceu. Fiquemos com a criação, a má criação, agora em sotaques
vários, regionais, pirenaicos alpinados!
Cofesso-o, sem lágrimas, nas com uma
profunda revolta que não sei descrever. Só gritando-a!
Voltemos à germânica viagem:
Nada do que me cercava, naquele imenso
país, que os mapas afirmavam, me trazia um pouco de meu: a nada cheirava o ar, os verdes e amarelos
eram a paleta inteira e aos ouvidos faltava tudo, até a voz da anfitriã, atenta
à condução.
XX
A miragem deslizante tinha já ficado
para trás quilómetros vários, ampliados pela direcção oposta de uma em relação à outra.
Tinhamos terminado a suave subida e
viajávamos agora num vale suave, com o Sol a inundar e aquecer o manto verde
dos campos semeados.
A seguir a uma curva começámos a
avistar, a meio de uma colina, do lado esquerdo, inicialmente um torre e aos
poucos toda a fachada do edifício, virada a nascente, correspondendo ao corpo
principal do mosteiro.
Era o barroco em todo o seu explendor!
Da ordem Beneditina, saído do
estirador do arquitecto Balthasar Neumann, o que a Sofia terá feito questão de
me mostrar.
Tinhamos feito já o percuso pelo
gótico, sendo o exemplo mais arrojado a catedral de Ulm e a aliança entre o
barroco e peças da Renascença no mosteiro da Ordem, também mendicante,de Santo
Agostinho, em Schuabich Gmund, onde a Sofia iria trabalhar.
Regressando ao Balthasar Neuman.
A torre principal, do lado direito da
entrada, olhada de frente, elevava-se acima do corpo principal do edifício, de
três pisos e amplas janelas, mais cinco planos, estreitando conforme crescia.
Os três primeiros planos, acompanhando
o corpo do grande conjunto, são quadrangulares e os cinco seguintes octogonais:
os três primeiros com dupla janela em casa face e os dois últimos apenas uma,
oval, em cada lado do polígono, encimado o conjunto por um abóbada, esta com
armação metálica e envidraçada e no centro, também octogonal, uma coluna de
vários metros que suportava uma peça
escultórica e na extremidade, uma cruz.
Descrever o interior seria, se o
tentasse, tarefa complicada, não só por desconhecer as designações dos diversos
espaços, mas sobretudo pela fortíssima impressão causada.
Comparando com os dois exemplares do
gótico já nomeados, onde a obscuridade predomina, quer pela localização dos
edifícios, quer pela filtragem de luz obtida com os vitrais, quer ainda pela
tipo de materiais usados nas peças ornamentais interiores, nomeadamente a
madeira de cor escura ou escurecida, quer pela minúcia escultórica dos
ornamentos, a nave do exemplar barroco é um festival de luz.
O que a atmosfera do gótico parece uma
ameaça que exige o silêncio, no barroco ficamos subjugados à intensidade da luz
e à manifestação de saltar de alegria!
As paredes, altíssimas, todas de um
branco imaculado, reflectem e parecem ampliar a luz que entra pelas grandes
janelas, criando uma ambiência de iluminada quietude interior.
O altar mor é um palco feérico de luz
natural, mudando de tonalidade desde as colunas do púlpito, que passa de um
azul diáfano num percurso sem sobressaltos até ao branco-pérola que ladeia o
centro do altar, com o sacrário encimado por uma imagem de Cristo crucificado,
cujo nicho se eleva até ao cimo do do plano arquitectónico vertical. Segu-se
uma cúpula de arcos de três dimensões, cujos tectos estão decorados com frescos
de rara beleza, indo do castanho ao azul suaves e que acentuam a luz do espaço
envolvente do altar.
O conjunto das janelas terminadas em
arco, que vão quase do chão até ao inicio dos frescos, transmitem uma
intensidade de luz que se projecta até aos bancos da nave da Igreja.
O pormenor mais relevante é o de as
janelas se não verem, apenas se vendo as aberturas por onde a luz entra e
transforma em aura todo o espaço.
Olhando a nave, de costas para o
altar-mor, o coro, onde um órgão embutido nos diversos espaços entre as seis
entradas de luz, é outra obra monumental, sendo os pormenores do púlpito e da
abóbada do tecto dignos de uma visita depormenor.
De cada lado do coro sai um
corrimão-galeria que terminam próximo do altar mor. Situam-se a vários metros
de altura e no tempo da nossa visita, um frade de idade avançada, alto e
consistente, todo vestido de negro, era a pincelada móvel destoante de todo o
conjunto iluminado. Calmamente, percorria o espaço de um dos lados da galeria,
de que apenas se viam os pormenores da construção do corrimão; atento aos
movimentos dos curiosos visitantes, como zelador silencioso de um tão belo e
comovente espaço.
Seriam centenas, noutros tempos, os
membros residentes da Ordem, que ocupavam este espaço imenso.
Agora, segundo a Sofia, não serão mais
do que uma dezena os que se perdem pelos corredores do mosteiro. Serão figuras
intemporais, estes respeitáveis anciãos, de preto vestidos, pelo menos os dois
que avistei.
Se voltar à Suábia hei-de pedir aos
anfitriões que me possibilitem nova visita a Neresheim, mesmo que só para rever
e melhor olhar o seu
Klosterhospiz.
Klosterhospiz.
XXI
Como a viagem e visita nos abriu o
apetite, acordámos em almoçar ali, uma vez que no enorme espaço ajardinado,
entre os edifícios de apoio ao mosteiro e seus muitos ocupantes e estudiosos,
talvez para o rentabilizar minimamente nod dias que correm e dar-lhes outro
tipo de vida, agora mais virada para as coisas terrenas, funcionava um
café-restaurante, com esplanada eum quiosque.
Escolhemos uma mesa fora dos arcos que
poderiam ter sido os claustros daquele genero de mosteiro. Eram quase duas da
tarde e o Sol aquecia.
Do que havia naquele dia, decidimos
comer uma uma refeição tipicamente regional, uma espécie de rissol de dimensões
avangajadas, cujo recheio eram legumes e a bebida um vinho branco da região
também.
A Sofia optou por um prato à base de
carne, com uma sinfonia de legumes a acompanhar.
O serviço não tardou e mal os pratos
foram servidos, não sei se praga ou
maldição, deu-se um assalto tão violento de moscas, não sei se residentes ou em
trânsito, que literalmente ocuparam
todos os espaços da mesa! Eram centenas, avançando para dentro dos
pratos com tal ousadia, ou fome, que nem o gesto de asespantar as convencia a
abandonar o espaço. Cheguei a ter em simultâneo, oito moscas dentro do prato.
Ainda olhei em volta e para as mesas
que no claustro estavam a ser usadas para ver se o assalto era geral ou aos
dois portugueses em particular, mas estar a atribuir a um atentado xenófobo
moscatel era coisa que não me soava bem.
Deve ter sido o facto de termos
escolhido uma mesa ao Sol e o facto de sermos só nós a provocar a sua
curiosidade ou nos queriam reverenciar com a sua indesejada presença.
E num ápice regressei aos meus tempos
de miúdo e a Castelo Melhor, único sitio onde alguma vez vi mais moscas
concentradas do que ali: era na queijaria do meu parente José Maria Patricio,
que ficava nas traseiras da residência, na zona onde o Sol não chegava e cujo
resíduo aquoso escorria a céu aberto, rua abaixo até se infiltrar, a mais de
cem metros, para dentro da propriedade
da tia Amélia Caçote, sogra dele e tia-avó minha.
Todo o percurso do liquido ainda com
resíduos de leite qualhado, era um foco de moscas de tal envergadura, uns
milhares que, todos os dias se abasteciam do sustento e de seguida irem
incomodar toda a população.
A Sofia, sem mostrar grande afronta
pela provocação, já de regresso a HdH perguntou, não sei se a brincar se a
sério, se aquilo não seriam abelhas?!
Oh, Sofia, pelo amor de deus ! Abelhas
?! Eram moscas e iguais às portuguesas, sem qualquer sotaque que as
distinguisse!
E sem diferença alguma daquelas que
nos fizeram interromper a refeição de frango de churrasco que iniciámos numa
das mesas ao ar livre no areal da praia Velha, em São Pedro de Moel, era a Gui
uma juvenil de uns quatro anos e a iniciativa de levantar ferro e irmos comer o
frango noutro local, foi tua, como poderia ser minha.
Meses mais tarde, já na fase da
passagem a escrito a minha primeira visita à Suábia, tentei um álibi para
aquele inesperado encontro, só me ocorreu que, naquele local, onde deviam abundar
criações de gado, bovino e outros, ovino, por exemplo e que sucedesse coisa
parecida com a queijaria do meu parente e que os responsáveis pelas explorações
usassem repelentes das moscas, acabando estas por andar a procurar novos locais
de reunião e abastecimento.
É natural que o próprio mosteiro tenha
ainda, como fonte de rendimento residual, aquilo que há décadas seria: criação
de gado, com mão de obra barata e vastos campos de pastagem! Queiramos ou não
este tipo de explorações gera sempre a presença dos visitantes alados, moscas
ou outros.
Tudo não passa de conjecturas,
naturalmente.
O incidente serviu, pelo menos, para
que a narrativa, mais ou menos ficcionada, não tivesse como título uma apologia
do barroco e fosse adoptado, mesmo revelando nenhuma inspiração,
PARAISO DE MOSCAS.
Reis Caçote/2009-ult.dig.08/19
NOTA FINAL:
Viviam-se tempos de grande tensão,
real ou nem tanto, com sistemas de alta segurança diferenciados, alegadamente
devido aos vários atentados do ano anterior e este ano de dois mil e nove,
sendo os aeroportos os mais vigiados e aplicadas medidas severas que não
comentarei, por não as conhecer minimamente!
O aeroporto de Stuthgart,
naturalmente, não deixou de aplicar as medidas recomendadas ou decididas pelas
autoridades germânicas.
Dia vinte e quatro de Maio, eu
regressava a Portugal e a Sofia, a partir do mesmo aeroporto e com menos de uma
hora depois, iria para os Estados Unidos, USA, onde o Peter já se encontrava e
nos EE UU, no Oregon, planeara festejar aquele aniversário natalício, no Estado
onde nascera.
Viagem normal, aparcamento do
automóvel e seguir as demarches para os voos reservados.
Tinha já feito o chec in da bagagem e
a Sofia estava a confirmar a sua presença no guichet respectivo.
Achei que era um instante a ficar
registado, da bagagem de cabine peguei na máquina fotográfica e procurava o
melhor ângulo para obter a foto, virando costas à bagagem.
Num ápice, dois agentes da policia, um
homem e uma mulher, sem pressas, dirigiam-se à minha bagagem, abandonada, uma
perigosa ameaça às regras de segurança!
Eu estava de costas para a bagagem e
para os agentes, mas a Sofia, liberta já da formalidade, notou que os policias,
fardados, se dirigiam para a minha tralha.
Oh, Zé, olhe a bagagem, então deixa-a
abandonada sabendo que é uma ameaça tomada pela policia!
Imediatamente me aproximei, antes de
os agentes chegarem e o que podia ser uma sarilhada ficou sanada.
- Então você deixa a bagagem e volta
costas, sabendo como estão a ser vigiados os aeroportos, logo a partir das
gares? Ralhou a Sofia!
E tinha razão, a verdade é que não
tinha mesmo levado a sério as anunciadas medidas de segurança.
Chamada para embarque para mim, maleta
ao ombro descia a escadaria e quase a desaparecer fiz uma divertida saudação
militar, uma bem marcada continência e ficou o sorriso já esquecido o incidente
da bagagem!
Reis Caçote!
Sem comentários:
Enviar um comentário