VISITA A BERLIN e
PAULO, O
CRIADOR DE CAVALOS
I
Acordei antes da
hora habitual e com uma estranha sensação de desconforto, difícil de explicar:
não era declaradamente física, nem o era também psíquica, talvez um pouco de ambas,
daí a dificuldade em lhe encontrar uma causa.
Com alguma
regularidade, na folga semanal, na primeira não dormia no meu apartamento, mas
sim em casa da minha filha, na periferia da cidade.
Não é sempre nos
mesmos dias; para todos os funcionários da recepção folgarem ao fim de semana,
o inicio dela avançava um dia em cada semana, trabalham-se seis dias e folga-se
dois. Aquela que está a ser referida foi numa sexta-feira e sábado. Era,
portanto, sábado de manhã.
Procurando fazer
o menos barulho possível entrei na casa de banho, lavei dentes e rosto e adiei
o duche para mais tarde. O pessoal continuava na cama.
Saí, como era
hábito, para ir comprar o jornal e tomar o pequeno-almoço; a pé, a distância é
pequena.
Este conjunto de
pequenos gestos trouxe alguma melhoria à sensação desagradável que sentia
quando me levantei e que, na falta de melhor, atribuí ao sonho que terá
contribuído para o ter acordado cerca de uma hora antes do habitual. No sonho
assisti a uma discussão entre a Sofia e a Irina, lá bem longe, em Berlin, por
esta ter chegado a casa para além da hora combinada; a Sofia elevava a voz duma
forma a que nunca assistira e foi então que intervim a aconselhar calma e que
não me parecia motivo para tal altercação.
O desconforto
sentido quando acordei devia ser por causa da minha intervenção na discussão,
coisa que não faria se fosse real, não costumo ser mediador em questões de
família, pequenas ou grandes que sejam, preferindo guardar para mais tarde a
minha opinião e só no caso de achar que vale a pena.
No tempo e
universo do onírico, em que o consciente deve ser ultrapassado pelo
inconsciente, devemos tomar atitudes inversas, talvez mais consentâneas com o
nosso natural procedimento, não sei se este seria um bom exemplo.
O realismo do
sonho foi tal que decidi telefonar à Sofia, quando fossem as onze horas,
meio-dia em Berlin, não queria acordar a família, desnecessariamente.
Saí, passava já
das oito e trinta em direcção às bombas de gasolina para comprar o jornal que
depois iria ler durante e a seguir ao pequeno- almoço. Passei em frente ao polo
da Universidade Católica, depois ao Isla e cerca de centena e meia de metros
adiante passei para a margem esquerda do Lis pela ponte de São Romão.
Estava a passar
em frente ao portão da Direcção Geral de Viação, edifício de um só piso e uns
três metros abaixo do nível da estrada, quando o telemóvel tocou, no bolso do
blusão. Olhei o mostrador e lá estava: Sofia Tm. O coração deu um pulo e o
ritmo cardíaco deve ter passado para o dobro!
Alô, Sofia! Bom
dia!
- Olá doutor, bom
dia! (era assim que há anos ela me tratava e eu por engenheira ou arquiteta)
Então que se
passa? Perguntei. Estava para te ligar daqui a bocado, para vos não acordar,
para te falar de um sonho que tive e que me acordou mais cedo que o habitual e
talvez desse para rirmos um bocado!
- Não, essa é
demais! Então voltamos ao mesmo? Estou a telefonar-lhe por dois motivos, depois
falamos do seu sonho! O primeiro tem a ver com o sonho que acabei de ter e
devido ao qual acordei, espantada com a forma enérgica e nada usual na sua voz,
a repreender-me por estar a discutir com a Irina!
Mas que raio vem
a ser isto?! Interroguei-me. Andas a sonhar os meus sonhos? Foi por isso que
aqui estou cerca de uma hora mais cedo, acordado pelo volume da tua voz, a discutires
com a Irina!
- Não sei, não
faço a menor ideia, mas gostava de perceber! São coincidências a mais, não
acha?
Lá achar, acho,
mas tenho a ideia de que não chegaremos a qualquer conclusão! Mas vou tentar
perceber! Estando tu na terra do Freud, podias dar uma ajuda na investigação! A
curiosidade é grande, confesso! Qual o outro motivo do teu telefonema? Deixemos
os sonhos sossegados lá no mundo deles.
- Eu tinha já
decidido telefonar-lhe por outro motivo, mas o sonho alterou os tempos,
precipitando tudo!
Diz lá, qual o
outro motivo, também estou curioso!
- Como o doutor
sabe, faço anos no próximo mês…
Sim, vais fazer
quarenta! Lá se vão os intas! Ahahah!
- É por isso
mesmo; combinei com o Peter e ele concordou que este marco da vida devia ser
comemorado! Resolvemos que era interessante convidar os familiares mais
próximos de ambos os lados e também alguns amigos mais chegados e, claro, você
não podia faltar, tanto mais que, os familiares, minha mãe e a Ana, estarão em
período de exames e não vão poder vir e você é tido como sendo da família!
Espero que desta vez não vá inventar desculpas! Quando me pode dar a resposta?
Dou já e é
afirmativa!
- Que bom, fico
tão feliz! Vamos falando?
Claro que sim,
tem mesmo que ser! Há pormenores a saber.
- Quer que eu trate
de alguma coisa cá, em Berlin?
Acho que não, mas
se precisar direi.
- OK, obrigada!
Um grande beijo!
Até breve, amiga.
II
Conheci a Sofia e
família há muitos anos, desde início dos anos setenta; ela não se recorda desse
período, o que é natural, pois era uma miúda; de igual modo se não lembra de
mim, quando ela teria cerca de dez anos espevitados, de lenço vermelho ao
pescoço a espreitar o mundo através das janelas escancaradas dos seus olhos.
Seguiu-se um
período, após a separação dos pais, em que ela e a irmã, Joana, acompanharam a
mãe, Lurdes, para Lisboa. Durante algum tempo só através do Pai ia tendo
notícias breves da família “exilada” na capital.
Voltou anos
depois, já com a filha Irina, de dois ou três anos, indo trabalhar com o pai,
que entretanto passara a explorar por conta própria o estabelecimento onde
antes era técnico, na mesma localidade onde eu já trabalhava há anos vários,
morando na cidade mais próxima, tal como a Sofia.
Durante algum
tempo, não muito, fizemos o percurso da cidade onde habitávamos para a vila
onde trabalhávamos, usando o transporte público, a camioneta da Rodoviária,
empresa criada com a nacionalização das duas empresas que faziam este percurso.
Não identifiquei
a Sofia quando pela primeira vez que a vi ou nela reparei, com um corte e cor
de cabelo, só os olhos tinham algo de familiar; a partir de algum tempo que
viajava só, passou a trazer uma companhia, a Irina, um pequeno “diabrete”
sempre a girar e terá sido num dos primeiros dias que acabámos por esclarecer o
que era duvidoso; responsável: Irina.
Sem quaisquer
pormenores, por os desconhecer, alguns dias depois a Sofia terá ido morar na
localidade onde trabalhávamos e para a qual fui morar também no final do Verão
de oitenta e nove.
Num domingo,
perto do final do ano, ia apanhar a camioneta para almoçar na cidade onde antes
morava, como habitualmente fazia; atravessei o parque e de seguida a Avenida e,
sem pressa, dirigia-me para o local onde apanharia o transporte, quando ouvi,
uma voz familiar de criança, a chamar bem alto: Zé, Zé, era assim que me
chamava desde que nos conhecemos na camioneta. A Irina à frente a correr e como
eu abrisse os braços para a receber, dobrado até ficar à altura dela, saltou e
abraçou-me e eu a ela! Atrás vinha a Sofia.
- Então, vai passear?
Perguntou a Sofia.
Vou até à cidade
para mudar de ares e por lá almoçar!
- Mas tem lá
compromisso? Pergunta a Sofia.
Não, aqui é uma
pasmaceira ao domingo e lá sempre me distraio!
- Porque não
almoça connosco? Eu ia agora ao self-service buscar almoço para nós, é só
mandar aviar para três em vez de dois!
Óptimo, vamos
nessa! Mas sou eu quem paga! E assim fiquei a saber que moravam há meses num dos blocos, recentemente
construídos, num apartamento do sexto-andar.
A partir daí
passámos a ter uma relação de proximidade maior, juntando-se à noite, algumas
vezes, amigos dela e um ou outro meu conhecido também.
O apartamento da
Sofia transformou-se, aos poucos, num espaço de tertúlia heterogéneo, onde
todos seriam de idades próximas da Sofia, sendo eu o único de idade que,
naquela altura, seria o dobro da deles.
Era bem aceite e
sentia-me bem naquela ambiente, com cigarros e vinho, este de má qualidade
quase sempre, o dinheiro não abundava, mas as conversas animavam, às vezes
exageradamente; era então que a Sofia e eu, mais ela que eu, brincando com o
tema em disputa, desviávamos a conversa para outro tema e tudo voltava ao
normal.
Como alguns não
tinham ocupação certa por diferentes motivos, resolviam alongar a conversa pela
noite dentro, ou fora, como se queira. A Irina já dormia há horas e a Sofia,
alegando que tinha que estar na loja às nove, dizia tchau, tchau, quando saírem
fechem a porta; e ia dormir!
Sem se queixar,
só por uma ou outra frase, percebi que ela não estava conformada com a sua
situação de trabalho e tudo pareceu ficar claro no regresso de um período de
férias que fez em Berlin, em noventa e um, indo eu acompanhá-la ao aeroporto, a
que se juntou a mãe, por alegar não gostar de andar de avião e a aversão
continua.
Foi de tal modo
decisivo este período de férias que logo no ano seguinte para lá voltou a
acertar pormenores e no regresso trazia já garantia de trabalho, por sinal na
mesma área do que fazia cá e residência fixada.
A Irina seguiu
pouco depois, para iniciar a instrução primária.
Nova separação.
Mantivemos contacto escrito irregular, mais frequentes as minhas que as dela,
mas importantes sempre, sobretudo durante o período do meu primeiro desemprego.
Em minha casa
ficaram guardados alguns dos seus pertences, que mais tarde transitariam,
juntamente com a maior parte dos meus, para casa de um dos comuns amigos da
tertúlia, licenciado em medicina num dos países de leste (sempre gostei deste
eufemismo de requentado mau gosto!), mas que não exercia por falta de uma
disciplina para obter a equivalência.
E por lá ficaram,
ad eternum, os bens da Sofia e os meus, por eu ter ficado sem o apartamento que
habitava e o amigo tinha espaço mais que suficiente para guardar.
Regressei à
cidade onde residira antes e para a casa do amigo onde já tinha morado antes,
de oitenta e cinco a oitenta e sete.
III
A Sofia vinha a
Portugal quase todos os anos, perto do final das férias, para no regresso levar
a Irina que, cerca de um mês antes, era levada ao avião com destino a Lisboa e
entregue à guarda do pessoal de cabine e, certamente, ao comandante e em
Portugal, com o Pai e avós paternos ficava cerca de um mês.
Algumas vezes,
quando nos encontrávamos, o que raramente sucedia, convidava-me para ir passar
uns dias a Berlin, para conhecer a cidade, aquelas coisas que normalmente se
dizem para mobilizar vontades, mas sempre encontrei ou inventei uma desculpa
para não ir: ou falta de tempo, ou de finanças em crise, eram as mais
frequentes e eram reais.
Perto do final
dos anos noventa noticiou-me que ia casar como Peter dentro de pouco tempo; e
dois ou três anos depois, já instalados no seu apartamento em Berlin, os
convites passaram a ser mais frequentes, sempre consegui evitar a viagem, mesmo
sendo a vontade muita desde o primeiro dia.
E, assim, se
chegou ao tempo do seu quadragésimo aniversário sem me ter comprometido;
algumas vezes nos encontrávamos, nomeadamente em dois mil e três, em Junho e
Outubro para, na qualidade de testemunha, tomar parte no processo de regulação
do poder paternal do sobrinho, filho da Joana, ação movida pela mãe que
pretendia ver esclarecida e legitimada a custódia do filho, após a separação do
casal.
Foi na primeira
destas deslocações, em Junho, que nós começámos a estranhar as coincidências
nas nossas vidas, mesmo parecendo terem sido diferentes e não passavam só pelo
mundo do onírico.
Quando, com
prazer imenso, aceitei o convite para a festa comemorativa do seu aniversário,
tinha já enorme vontade de conhecer Berlin e também o Peter de que apenas o
tinha visto numa fotografia.
Mal nós
imaginávamos as surpresas que nos esperavam. Foi sempre assim, sucedem-se os
eventos como se eu movimentasse os mecanismos que os despoletam e tivesse
influência na sua evolução, o que é de todo inverosímil sequer pensar.
E em Berlin não
houve exceção.
IV
A viagem foi
naturalmente planeada em função do objectivo principal: o aniversário da Sofia.
Visitar Berlin seria, como foi, muito agradável, mas não era de facto o
principal.
A partida a onze
de Junho e regresso a dezoito. Qualquer dos voos fazia escala em Barajas,
Madrid. A Companhia era a Ibéria, não faria sentido que não escalasse Madrid,
destino da maioria dos que iam para a Alemanha e dos que deste país voltavam.
Foi a minha
segunda viagem em voo comercial; a primeira, em Janeiro de noventa e seis, foi
para a Madeira, onde passei cinco dias de férias na contemplação espantada de
tanta beleza natural.
As duas viagens
mais demoradas e longas foram no primeiro ano da década de sessenta, quando em
Angola a rebelião deu início à primeira das guerras nas colónias, no Ultramar
segundo a teoria do governante-mor, Salazar do Portugal uno e indivisível, do
Minho a Timor e que os Movimentos africanos chamavam de libertação.
Foram “cruzeiros”
de oito dias sem escala, na ida só para fardados e no regresso já com alguns
civis à mistura, provavelmente todos familiares de militares que terminaram a
comissão de serviço. A minha terminou vinte e sete meses depois de ter iniciado
e o navio que me levou foi o mesmo que me trouxe: Vera Cruz, assim se chamava.
Quando fui à
Madeira a viagem de avião assemelhou-se com a de barco em termos de paisagem;
ambas só com mar por baixo e algumas nuvens.
A viagem para
Berlin teve um pouco de tudo, sentado junto a uma das janelas que escolhi, fui
vendo o filme que se passava a milhares de pés abaixo da nossa rota.
Campos e mais
campos, entre Portugal e Espanha, eram manchas negras na paisagem que os
incêndios de Verão mais ou menos todos os anos vão acrescentando e este ano as
previsões são de tempo quente e seco, sinal de que vão aumentar, noutros
locais, as pinceladas de negro sobre um fundo de cor pardacenta e algumas
manchas de mata que do ar a cor se tornava indefinida.
Começaram, depois
de deixar Barajas, a aparecer alguns campos com aspeto de estarem cultivados e
manchas mais escuras com aspecto de corresponderem a floresta.
Por vezes
apareciam manchas de nuvens que logo desapareciam, o écran ficava limpo e onde
iam aparecendo pequenas aeronaves em rotas muito abaixo da nossa e por duas ou
três vezes apareceram de frente, inicialmente parecendo pássaros que iam
crescendo e pareciam vir ao nosso encontro, mas que ao cruzarmos era enorme a
distância, não dando sequer para ver qual a bandeira ou companhia!
Já sobre
território alemão, não por informação prestada ou tivéssemos passado alguma
imaginária fronteira, mas pela hora prevista para a aterragem, sobrevoámos uma
densa mancha de nuvens durante vária milhas; parecia um tapete de grandes
novelos de lã que escondia tudo o que baixo existia, como preparando uma
surpresa a quem, como eu, fazia a viagem para aquele lado do mundo.
Atento,
apercebi-me que os flaps se movimentavam e que o pássaro gigante perdia altura
e em pouco tempo mergulhámos no denso manto de nuvens e asa esquerda do avião
era vergastada e a escotilha foi de repente passada por um pincel invisível e
ficou embaciada.
Saímos do manto
denso e como por magia, aparece o que devia ser a periferia de uma cidade, só
que em vez de grandes aglomerados habitacionais eram construções
individualizadas, rodeadas de verde, bem ordenadas, mas de aspeto calmo e
fresco. Os tons de verde eram muitos e sucediam-se naturalmente, como se
obedecendo a um pintor naturalista em dia de inspiração.
O grande milhafre
descreveu uma larga curva para a esquerda, sempre a descer e os ouvidos davam
sinal de não estarem a achar graça com aquela mudança de altitude; a voz de
cabine informava que estávamos a chegar ao aeroporto de Tegel, agradecemos que
apertem os cintos.
De imediato as
duas assistentes de bordo iniciaram a verificação dos cintos e certificavam-se
de que os porta-bagagens estavam bem fechados e uns minutos passados estávamos
a rolar numa das pistas do aeroporto nos arredores de Berlin.
Tudo decorreu sem
problemas, as bagagens como toupeiras saiam a um ritmo irregular e entravam no
tapete que as levaria até aos seus donos. Em poucos minutos estava a caminho da
saída com o pequeno malote ao ombro e a reboque uma mala que dias antes e para
o efeito tinha comprado.
Mal cheguei à
última das portas logo vi a Sofia, sorridente, braço no ar a acenar, como se
fosse fácil confundi-la com outra pessoa!
Um abraço e a
pergunta inevitável: correu bem a viagem? Não havia mais novidades depois do
telefonema do aeroporto madrileno de Barajas, que a única nota de registo foi o
almoço num dos bares: umas farripas de bacalhau cru, acompanhado de uns
legumes, tudo com sabor a nada!
Metemos a bagagem
na mala do carro que ela conduzia e enquanto íamos falando eu ia olhando para
os lados da auto-estrada, mais parecendo uma grande avenida, com frondosas árvores
cobertas de folhas e uma invulgar sensação de frescura.
A temperatura era
agradável naquela época do ano, ao contrário do que estava habituado a ver, com
demasiada frequência, nos boletins da Euro News, a máxima a rondar os zero
graus.
Chegados ao apartamento,
como era sábado, o Peter estava em casa, assim como estavam também a Irina e o
namorado.
Informado que
estaria pela Sofia, o Peter fazia um esforço enorme para entender o meu
português e falar na mesma língua; esqueci-me, como sempre, de que devia falar
mais pausadamente para facilitar, mas é um pormenor que me escapa sempre, não
por descortesia que não uso, mas por dificuldade em auto condicionar o meu
tempo de linguagem, que vem desde oitenta e seis, quando fiz o hematoma na
corda vocal e o volume de voz era fraco e grave; como para falar mais alto me
cansava, a tendência natural era e é falar mais depressa para me não cansar e
enervar! A operação, no ano seguinte, travou as rouquidões frequentes, nas o
volume e nitidez do registo vocal nunca regressaram.
O Peter tinha um
ar calmo e sorridente e estava convencido de que já nos conhecíamos, versão que
a Sofia, distraída como sempre, tentava corroborar, mas depressa os convenci de
que não: era mesmo o primeiro contacto.
V
Entregues as lembranças,
feitas as apresentações, lá fomos pondo em dia as novidades, dar um passeio por
algumas zonas da cidade, de carro, depois a hora de jantar.
O apartamento
situava-se do lado de lá do mais famoso muro do mundo, ou seja no que fora
território da RDA; edifício que teria sido construído depois da “separação” do
território tinha aspecto sólido, divisões amplas, um pé alto superior aos três
metros e todas as janelas eram de sacada, com vidros duplos, até ao chão. A
mobília era sóbria, mas com gosto. Funcional.
A cidade
impressionou-me, não pelo que é comum impressionarem as grandes cidades, mas
por razões diversas: não havia apitadelas de automobilistas nervosos, o
trânsito era fluído e calmo; as placas toponímicas penduradas em postes
tubulares, quase à altura da cabeça de um passante mais alto, estavam intactas;
as bicicletas tinham os seus trilhos próprios e por toda a parte da cidade onde
passei me cruzei com velhos e novos a passear em duas rodas. E era uma profusão
de veículos em trânsito, com lugares próprios de estacionamento, como que
abandonados.
Todos os espaços
disponíveis entre edifícios, mesmo quando formavam pátios interiores, tinham
árvores e arbustos bem cuidados, assim como os dos passeios de quase todas as
ruas. Era uma paleta imensa em tons de verde. O pavimento de algumas ruas, não
principais, era em granito, de cor indefinida, mas de sólida aplicação.
O rio que passa
dentro da cidade, deslizando pausadamente entre lagos, passando junto ao
palácio da Assembleia, parecia não ter despertado a curiosidade da Sofia, não
se lembrava do nome e o Peter quem me informou: Spree, o seu nome.
Do famoso muro,
pela negativa, mesmo que qualquer muro só pela negativa o entenda, muros ou
muralhas, só restavam algumas marcas no pavimento, como um rasto para memórias
futuras, mas que a grande maioria deve ter já esquecido! Deixaram um pequeno
pedaço, como um monumento sinistro à estupidez elevada à categoria de culto
rácico.
O museu da
resistência, mesmo ao pé do que seria a principal fronteira, devia ter o
essencial, segundo a perspetival de quem o instalou, para documentar a história recente daquele lugar,
como se a brutalidade pudesse ser circunscrita ao espaço de um museu e dele
fosse a responsabilidade; tendo certamente o essencial, na minha nada avalisada
opinião é pobre; só a soturnidade do local impressiona e os muitos registos
escritos e pictóricos me pareceram importantes; o resto é mais panfleto do que
história! A todo o momento chegam excursões, a maioria de países asiáticos, com
seus trajos coloridos, suas gargalhadas sonoras e carregados de todo o tipo de
aparelhos de registo de imagem.
O que me chamou a
atenção e deu motivo para alguma tentação de menor solenidade e respeito, foi a
encenação teatral do posto fronteiriço, com dois militares, um inglês e outro
americano, postados do lado oeste da passagem e do lado leste nada de soldado
russo! Porquê? Tentei saber, mas parece que é um pormenor, esta falta de rigor
militar, a que já ninguém liga.
Como não me dou
bem com eternos segredos e dúvidas excessivas, tive que ser eu a tirar a minhas
próprias conclusões: ou o soldado estava de folga, ou se pirou a “salto” para a
parte ocidental pensando que ainda estava tudo como antes e para fugir às
piadas de mau gosto dos ocidentais sentinelas ou então, pura e simplesmente, a
Rússia não alinhou na mal encenada peça de teatro!
A última hipótese
pode não o ser assim tão linear, mas parece que deve ser a mais equilibrada,
tendo em conta o que vi um ou dois dias depois pude apreciar: a Sofia foi dar
comigo um passeio a pé, lá para os lados de Potsdam e depois as duas
embaixadas.
A primeira que no
trajeto encontrámos foi a dos Estados Unidos da América terá ocupado ou um dos
edifícios da era hitleriana ou mesmo anterior ou seria um antigo palácio que
correspondia a um quarteirão inteiro, tendo ruas em todas as suas fachadas; as
duas avenidas principais eram abertas aos transportes regulares duma cidade, as
duas perpendiculares estavam fechadas ao trânsito automóvel com blocos de
cimento do tipo dos que em algumas autoestradas são usados como separadores. A
dois ou três metros de distância um gradeamento de ferro com cerca de três
metros de altura, encimado por uma espiral metálica todo o gradeamento. Em
todos os ângulos estava da grade havia placas de proibição de fotografar e
filmar, outras informavam que a espiral estava eletrificada e em todos os
cantos e a meio do gradeamento havia câmaras de vídeo que cobriam todo o espaço
envolvente e os telhados em redor!
O que de imediato
me ocorreu foi que os representantes “diplomáticos” dos Stats se tinham autossequestrado
ou alguma seita de perigosos alemães do outro lado do muro os transformara em
reféns da cidade de Berlin! Mas há quem diga que é a cidade de Berlin quem está
sequestrada por uma seita de fanáticos americanos dos serviços secretos. Qual
das duas hipóteses estará certa ou mais próxima da realidade?
Relativamente
perto, ocupando um edifício apalaçado, enorme, sem grades, sem guardas, sem
placas de proibição e com o trânsito a circular normalmente, era a Embaixada da
Rússia, tendo como guarda um soldado com ar descontraído para não dizer
sonolento.
Tamanha
indiferença por parte dos russos será incúria ou apenas rigor sem ostentação?
Será que os
Estados Unidos da América se sentem ameaçados em todo o mundo, quando deviam
sentir-se amados por serem os salvadores deste mesmo mundo?
VI
O tempo era pouco
para os muitos afazeres da família anfitriã; a Sofia tinha que preparar as
coisas para a festa de aniversário, festa que seria numa discoteca ( ou
discotoca, por me parecer mais rigoroso )explorada por africanos e ainda apoiar
todo o trabalho de busca, via internet algum dele, de modo a preparar a
documentação necessária para a candidatura da Irina a três faculdades, por que
a nota final do liceu não dava para poder ter direito de opção; mas mesmo assim
o tempo chegou para tratar de tudo e a minha companheira de piscina, não só
abandonou o usodas braçadeiras
insufladas para boiar, mas se transformou num espectáculo de invulgar beleza e
grande serenidade; ia entrar para a Faculdade.
Enquanto mãe e
filha se no computador e o Peter saía de manhã bem cedo para a empresa, bem
longe de Berlim e quando voltava ao fim da tarde ainda trabalhava até às dez da
noite no seu portátil, eu ia fazendo as minhas pequenas incursões pela cidade,
sempre perto da Novalis e preparado com o telemóvel para alguma eventualidade,
nunca dispensando o cafezinho, de manhã e de tarde, tomado numa pequena
“tasca”, a Mediterrânica, explorada por um português do Alto Minho, o Paulo,
onde havia sempre um pastel de bacalhau e uma taça de vinho branco alemão, por
sinal bem saboroso.
Era na
Mediterrânica que podia beber um café com sabor a bica mal tirada, como em
Portugal sucede também; era também lá que encontrava um outro português, sem
grande alarde intelectual e provavelmente também sem grandes ambições, mas
suficientemente apetrechado para falar de trivialidades.
Para chegar ao
espaço de serviço da tasca, situado bem a dois metros abaixo do nível do
passeio, desciam-se vários degraus de uma estreita escada e então era como uma
adega; portas em arco de tijoleira maciça e as paredes eram do mesmo material,
algumas meio cobertas com uma rudimentar decoração, tentativa que o Paulo
adoptou para tentar que parecesse mais acolhedor o espaço. Algumas vezes o
Paulo não me cobrava nada, ou então apenas cobrava o pastel e a taça de vinho,
sendo o café oferta da casa.
Gostei mesmo da
resignada calma do Paulo mediterrânico!
VII
Na tarde de um
dos dias, terá sido na segunda ou terça-feira, eu tinha chegado no sábado,
quando cheguei à Mediterrânica, estava o Paulo acompanhado por um individuo
moreno, de idade indefinida, arriscando os cerca de cinquenta anos, com ar
debilitado, estranhamente espantado ao ouvir o meu cumprimento ao Paulo da mediterrânica
tasca, nos confins de Berlin, na língua de Camões e Fernando Pessoa!
- Temos mais um
português neste canto do mundo! Diz ele numa voz insegura, mas revelando uma
clara manifestação de alegria que, de todo, a vida parecia recusar-lhe!
- Por acaso não
se chama Paulo? Acrescentou o desconhecido, com ar que pretendia ser divertido!
Não, o meu nome é
Silvério, mas porquê? Agora era meu o espanto ao ouvir um português sem sotaque
numa voz quase a desaparecer.
- É que assim
seríamos três! Respondeu o agora Paulo também!
Quase me senti
culpado em não me chamar Paulo em vez de Silvério e assim sermos três em vez de
dois! Não era querer muito aquele desconhecido, mas fiquei com a ideia clara
que a ele daria algum prazer juntar três Paulos, mais do que juntar três
portugueses, num buraco de Berlin; e a saúde que depois desejámos de taça
erguida seria mais bonita se em coro disséssemos: aos três Paulos, em vez de
aos três portugueses, acidentalmente juntos numa tasca na que foi a zona leste
de Berlin!
Propositadamente
esquecido que era Silvério e celebrei aos Paulos, aliando-me à maioria, ao
menos uma vez na vida!
- E de que região
de Portugal é o Silvério? Pergunta o segundo Paulo.
Duma quantidade
de sítios de Portugal, mas mais de Lisboa e Leiria do que da aldeia onde nasci,
a terra das gravuras rupestres!
- A terra de quê?
Onde fica isso?
Pelo real e total
desconhecimento, este Paulo, tal como eu, não tem qualquer autoral naquela
manifestação artística de há trinta mil anos!
- Conhece
Cascais? Pergunta o Paulo com voz cansada e notório esforço, não percebi se só
físico ou também emocional.
Relativamente
bem, respondi.
- Eu não nasci
lá, mas tenho lá casa e família; tenho estado pouco tempo lá; tenho vivido na
Polónia, criando cavalos, mas desfiz-me do negócio, vim há algum tempo para
Berlin e dentro de uma semana vou para Portugal, para Cascais. Poderíamos
encontrar-nos lá um dia destes para continuarmos a conversa e almoçarmos ou
jantarmos! Pode dar-me o seu contacto?
Claro, com todo o
gosto! Respondi. Dei-lhe o número do telemóvel e agradeci a simpatia da
proposta.
Despediu-se,
cansado, de olhos a esconder-se, sem brilho, nas cavidades orbitais!
- Então até
amanhã! Disse ainda.
E tentou subir os
degraus que o levariam ao passeio, à rua; mas o seu equilíbrio muscular deve
ter sofrido profundo abalo, não sei qual a causa e quase terá deixado aquele
corpo! A cada tentativa de subir mais um degrau o seu equilíbrio era menor e
ameaçava desarticular-se ali mesmo, sem outro efeito que não fosse o drama da
queda inevitável e o ruir escada abaixo! Simplesmente horrível!
Foi o Paulo da
Mediterrânica quem ajudou o criador de cavalos a criar agora a força e
equilíbrio para chegar ao último degrau, que mais parecia o último da vida!
Seguiu, quase
sufocado, encostado à parede do edifício, em direcção a casa, ali perto,
segundo confirmou o Paulo, mas longe demais para o criador de cavalos, dado o
seu estado físico.
No dia seguinte
tardou a aparecer e quando o fez vinha acompanhado por um familiar ou alguém
que com ele vivia, segundo o Paulo comerciante.
Falámos pouco e
cá fora, sentados nos bancos da miniesplanada que o Paulo ali instalara. Não
arriscou descer.
Despediu-se, com
a promessa de em breve me contactar! Acredito que tivesse essa firme intenção.
VIII
A campanha
eleitoral estava no auge e a candidatura de Ângela Merkel continuava com algum
avanço, segundo as sondagens, sobre o seu adversário, o ainda chanceler
Schroeder.
Por outro lado a
guerra no Iraque trazia em sobressalto os lideres da União Europeia, sobretudo
aqueles que, direta ou indiretamente, deram o seu apoio à iniciativa do
lunático Bush.
Encontros de alto
nível foram tidos em Berlin, com razões que teriam a ver com a Alemanha se não
ter declarado a favor do conflito, assim como a França, mas também por haver
interesse politico por parte da candidatura do chanceler em exercício. Em
política vale tudo, continuo a pensar.
Ao contrário do
que é habitual ver em Portugal, não havia profusão de cartazes e grandes
painéis, parecendo que tudo sucedia dentro dos espaços fechados onde as grandes
decisões em nome do Povo, para o Povo, mas bem resguardadas dos olhares deste.
A sede da
candidatura de Merkel era ponto de convergência de grandes encontros, sendo as
bandeiras dos vários países hasteadas à porta do grande e moderno edifício, bem
no centro da cidade.
Um dos dias de
passeio pela cidade a azáfama policial era grande! Ruas fechadas ao trânsito,
para quase de imediato serem reabertas, logo que as sirenes dos veículos da
polícia que abriam e fechavam caminho passavam, tudo voltava à normalidade.
Ou era Tony
Blair, cujo sorriso plastificado não vi, quem se dirigia para a sede do governo
alemão, ou era o representante de Portugal; um desassossego!
Veio depois uma
passagem de modelos no grande centro comercial em Potsdam e para rematar era a
promoção do último do Batman, com exposição do protótipo do carro que o
transportaria para as grandes aventuras que para eles estavam roteiradas e que
eu aproveitei para ver em pormenor e fotografar, mais para satisfazer pedidos
de Portugal e do filho de uma das amigas da Sofia que devia ser um entusiasta
do moderno aventureiro, o tempo dos espadachins tinha ficado lá longe no tempo!
Divertida, a
Sofia, dizia que eu não podia sair de casa por que punha tudo em alvoroço, com
policia a tapar e destapar passagens, sirenes a ensurdecer o ar em repouso até
ali, um frenesim!
- Temos estado
como no céu! Veio você e deu origem a todo este caos! Dizia e ria a Sofia.
E parecia que era
verdade! Bem…tenho que ir embora e deixar que a paz volte a Berlin.
IX
O dia do
aniversário chegou, o Peter ofereceu-lhe um conjunto de caneta, tinta e
bloco-carta, penso que da Dupont, luxuoso! Entendi que a oferta era um pouco
para ambos, para ela continuar a escrever para mim quando a Portugal
regressasse! Eu dei o perfume que tinha levado de Portugal, receando que em
Berlin não houvesse perfumes! O namorado da Irina deu um belíssimo candeeiro de
sua autoria, quer no design, quer no fabrico!
Jantámos em casa,
confecionado pela Sofia, os cinco e mais dois convidados, amigos da Sofia e no
dia seguinte fomos jantar a casa de uma família, ele alemão e ela boliviana,
que nos serviu um manjar tradicional do seu País.
O dia da festa, o
sábado, chegou e com ele chegou o casal do Luxemburgo, que ofereceu uma
belíssima peça-escultórica, em pedra-sabão e que a mim pareceu simbolizar o
signo da aniversariante: Gémeos! Não vinha assim etiquetado, mas parece que
todos, penso que mais por simpatia, anuíram pela representação.
Com a chegada do
casal, passámos a ser três os representantes da tertúlia do sexto B, que me
trouxe gratíssimas recordações e não poucas saudades!
O fim da festa
levou a Irina e namorado, às quatro da madrugada para o aeroporto, para fazerem
férias em Portugal e não foi aceite a minha proposta de ir com eles para Te gel
e lá esperar pela hora do meu voo, às oito para Madrid e depois Lisboa.
O Peter levou-me
ao aeroporto, através das avenidas e parques que uma semana antes tinha visto
em sentido inverso e com outro motorista. Foi comprar dois cafés, para
despertar, enquanto eu aguardava na fila para o chec-in. Levei um bruto escaldão na boca e quase ficou
intacto no contentor mais próximo.
Foi uma semana
que, como tudo na vida, não será possível repetir e até reproduzir em palavras!
É peça única!
Excecioneis!
Todos!
X
Aguardava que,
mais dia, menos dia, o Paulo de Cascais, onde raramente ia, ex-criador de
cavalos na Polónia, me contactasse, como ficara em Berlin combinado, para a
continuação da conversa mal esboçada e para o almoço ou jantar, ou até ambos.
Confesso que a
minha curiosidade era grande e a demora estava a tornar-se ansiosa! Por hábito
não gosto de deixar coisas pendentes, mas também não gosto de fazer crer que
estou a pressionar, portanto era uma questão de esperar!
Cerca de um mês
depois do meu regresso a Sofia deu-me a notícia que o Paulo que eu conhecera na
Mediterrânica, porventura cansado do seu ato, também único, de criar cavalos,
foi pelo Universal Criador chamado a sua Divina e Eterna presença e, assim, não
poderá cumprir a promessa que em Berlin fizera! A vida terminou para ele!
Estás perdoado,
Paulo! Descansa em Paz!
Reis Caçote
Set/2005
Dig. Abril/14
Sem comentários:
Enviar um comentário