sexta-feira, 29 de novembro de 2019

VISITA A BERLIN e PAULO, O CRIADOR DE CAVALOS




                                        VISITA A BERLIN e


                                       PAULO, O CRIADOR DE CAVALOS

                                                           I

Acordei antes da hora habitual e com uma estranha sensação de desconforto, difícil de explicar: não era declaradamente física, nem o era também psíquica, talvez um pouco de ambas, daí a dificuldade em lhe encontrar uma causa.
Com alguma regularidade, na folga semanal, na primeira não dormia no meu apartamento, mas sim em casa da minha filha, na periferia da cidade.
Não é sempre nos mesmos dias; para todos os funcionários da recepção folgarem ao fim de semana, o inicio dela avançava um dia em cada semana, trabalham-se seis dias e folga-se dois. Aquela que está a ser referida foi numa sexta-feira e sábado. Era, portanto, sábado de manhã.
Procurando fazer o menos barulho possível entrei na casa de banho, lavei dentes e rosto e adiei o duche para mais tarde. O pessoal continuava na cama.
Saí, como era hábito, para ir comprar o jornal e tomar o pequeno-almoço; a pé, a distância é pequena.
Este conjunto de pequenos gestos trouxe alguma melhoria à sensação desagradável que sentia quando me levantei e que, na falta de melhor, atribuí ao sonho que terá contribuído para o ter acordado cerca de uma hora antes do habitual. No sonho assisti a uma discussão entre a Sofia e a Irina, lá bem longe, em Berlin, por esta ter chegado a casa para além da hora combinada; a Sofia elevava a voz duma forma a que nunca assistira e foi então que intervim a aconselhar calma e que não me parecia motivo para tal altercação.
O desconforto sentido quando acordei devia ser por causa da minha intervenção na discussão, coisa que não faria se fosse real, não costumo ser mediador em questões de família, pequenas ou grandes que sejam, preferindo guardar para mais tarde a minha opinião e só no caso de achar que vale a pena.
No tempo e universo do onírico, em que o consciente deve ser ultrapassado pelo inconsciente, devemos tomar atitudes inversas, talvez mais consentâneas com o nosso natural procedimento, não sei se este seria um bom exemplo.
O realismo do sonho foi tal que decidi telefonar à Sofia, quando fossem as onze horas, meio-dia em Berlin, não queria acordar a família, desnecessariamente.
Saí, passava já das oito e trinta em direcção às bombas de gasolina para comprar o jornal que depois iria ler durante e a seguir ao pequeno- almoço. Passei em frente ao polo da Universidade Católica, depois ao Isla e cerca de centena e meia de metros adiante passei para a margem esquerda do Lis pela ponte de São Romão.
Estava a passar em frente ao portão da Direcção Geral de Viação, edifício de um só piso e uns três metros abaixo do nível da estrada, quando o telemóvel tocou, no bolso do blusão. Olhei o mostrador e lá estava: Sofia Tm. O coração deu um pulo e o ritmo cardíaco deve ter passado para o dobro!
Alô, Sofia! Bom dia!
- Olá doutor, bom dia! (era assim que há anos ela me tratava e eu por engenheira ou arquiteta)
Então que se passa? Perguntei. Estava para te ligar daqui a bocado, para vos não acordar, para te falar de um sonho que tive e que me acordou mais cedo que o habitual e talvez desse para rirmos um bocado!
- Não, essa é demais! Então voltamos ao mesmo? Estou a telefonar-lhe por dois motivos, depois falamos do seu sonho! O primeiro tem a ver com o sonho que acabei de ter e devido ao qual acordei, espantada com a forma enérgica e nada usual na sua voz, a repreender-me por estar a discutir com a Irina!
Mas que raio vem a ser isto?! Interroguei-me. Andas a sonhar os meus sonhos? Foi por isso que aqui estou cerca de uma hora mais cedo, acordado pelo volume da tua voz, a discutires com a Irina!
- Não sei, não faço a menor ideia, mas gostava de perceber! São coincidências a mais, não acha?
Lá achar, acho, mas tenho a ideia de que não chegaremos a qualquer conclusão! Mas vou tentar perceber! Estando tu na terra do Freud, podias dar uma ajuda na investigação! A curiosidade é grande, confesso! Qual o outro motivo do teu telefonema? Deixemos os sonhos sossegados lá no mundo deles.
- Eu tinha já decidido telefonar-lhe por outro motivo, mas o sonho alterou os tempos, precipitando tudo!
Diz lá, qual o outro motivo, também estou curioso!
- Como o doutor sabe, faço anos no próximo mês…
Sim, vais fazer quarenta! Lá se vão os intas! Ahahah!
- É por isso mesmo; combinei com o Peter e ele concordou que este marco da vida devia ser comemorado! Resolvemos que era interessante convidar os familiares mais próximos de ambos os lados e também alguns amigos mais chegados e, claro, você não podia faltar, tanto mais que, os familiares, minha mãe e a Ana, estarão em período de exames e não vão poder vir e você é tido como sendo da família! Espero que desta vez não vá inventar desculpas! Quando me pode dar a resposta?
Dou já e é afirmativa!
- Que bom, fico tão feliz! Vamos falando?
Claro que sim, tem mesmo que ser! Há pormenores a saber.
- Quer que eu trate de alguma coisa cá, em Berlin?
Acho que não, mas se precisar direi.
- OK, obrigada! Um grande beijo!
Até breve, amiga.


                                                           II

Conheci a Sofia e família há muitos anos, desde início dos anos setenta; ela não se recorda desse período, o que é natural, pois era uma miúda; de igual modo se não lembra de mim, quando ela teria cerca de dez anos espevitados, de lenço vermelho ao pescoço a espreitar o mundo através das janelas escancaradas dos seus olhos.
Seguiu-se um período, após a separação dos pais, em que ela e a irmã, Joana, acompanharam a mãe, Lurdes, para Lisboa. Durante algum tempo só através do Pai ia tendo notícias breves da família “exilada” na capital.
Voltou anos depois, já com a filha Irina, de dois ou três anos, indo trabalhar com o pai, que entretanto passara a explorar por conta própria o estabelecimento onde antes era técnico, na mesma localidade onde eu já trabalhava há anos vários, morando na cidade mais próxima, tal como a Sofia.
Durante algum tempo, não muito, fizemos o percurso da cidade onde habitávamos para a vila onde trabalhávamos, usando o transporte público, a camioneta da Rodoviária, empresa criada com a nacionalização das duas empresas que faziam este percurso.
Não identifiquei a Sofia quando pela primeira vez que a vi ou nela reparei, com um corte e cor de cabelo, só os olhos tinham algo de familiar; a partir de algum tempo que viajava só, passou a trazer uma companhia, a Irina, um pequeno “diabrete” sempre a girar e terá sido num dos primeiros dias que acabámos por esclarecer o que era duvidoso; responsável: Irina.
Sem quaisquer pormenores, por os desconhecer, alguns dias depois a Sofia terá ido morar na localidade onde trabalhávamos e para a qual fui morar também no final do Verão de oitenta e nove.
Num domingo, perto do final do ano, ia apanhar a camioneta para almoçar na cidade onde antes morava, como habitualmente fazia; atravessei o parque e de seguida a Avenida e, sem pressa, dirigia-me para o local onde apanharia o transporte, quando ouvi, uma voz familiar de criança, a chamar bem alto: Zé, Zé, era assim que me chamava desde que nos conhecemos na camioneta. A Irina à frente a correr e como eu abrisse os braços para a receber, dobrado até ficar à altura dela, saltou e abraçou-me e eu a ela! Atrás vinha a Sofia.
- Então, vai passear? Perguntou a Sofia.
Vou até à cidade para mudar de ares e por lá almoçar!
- Mas tem lá compromisso? Pergunta a Sofia.
Não, aqui é uma pasmaceira ao domingo e lá sempre me distraio!
- Porque não almoça connosco? Eu ia agora ao self-service buscar almoço para nós, é só mandar aviar para três em vez de dois!
Óptimo, vamos nessa! Mas sou eu quem paga! E assim fiquei a saber que  moravam há meses num dos blocos, recentemente construídos, num apartamento do sexto-andar.
A partir daí passámos a ter uma relação de proximidade maior, juntando-se à noite, algumas vezes, amigos dela e um ou outro meu conhecido também.
O apartamento da Sofia transformou-se, aos poucos, num espaço de tertúlia heterogéneo, onde todos seriam de idades próximas da Sofia, sendo eu o único de idade que, naquela altura, seria o dobro da deles.
Era bem aceite e sentia-me bem naquela ambiente, com cigarros e vinho, este de má qualidade quase sempre, o dinheiro não abundava, mas as conversas animavam, às vezes exageradamente; era então que a Sofia e eu, mais ela que eu, brincando com o tema em disputa, desviávamos a conversa para outro tema e tudo voltava ao normal.
Como alguns não tinham ocupação certa por diferentes motivos, resolviam alongar a conversa pela noite dentro, ou fora, como se queira. A Irina já dormia há horas e a Sofia, alegando que tinha que estar na loja às nove, dizia tchau, tchau, quando saírem fechem a porta; e ia dormir!
Sem se queixar, só por uma ou outra frase, percebi que ela não estava conformada com a sua situação de trabalho e tudo pareceu ficar claro no regresso de um período de férias que fez em Berlin, em noventa e um, indo eu acompanhá-la ao aeroporto, a que se juntou a mãe, por alegar não gostar de andar de avião e a aversão continua.
Foi de tal modo decisivo este período de férias que logo no ano seguinte para lá voltou a acertar pormenores e no regresso trazia já garantia de trabalho, por sinal na mesma área do que fazia cá e residência fixada.
A Irina seguiu pouco depois, para iniciar a instrução primária.
Nova separação. Mantivemos contacto escrito irregular, mais frequentes as minhas que as dela, mas importantes sempre, sobretudo durante o período do meu primeiro desemprego.
Em minha casa ficaram guardados alguns dos seus pertences, que mais tarde transitariam, juntamente com a maior parte dos meus, para casa de um dos comuns amigos da tertúlia, licenciado em medicina num dos países de leste (sempre gostei deste eufemismo de requentado mau gosto!), mas que não exercia por falta de uma disciplina para obter a equivalência.
E por lá ficaram, ad eternum, os bens da Sofia e os meus, por eu ter ficado sem o apartamento que habitava e o amigo tinha espaço mais que suficiente para guardar.
Regressei à cidade onde residira antes e para a casa do amigo onde já tinha morado antes, de oitenta e cinco a oitenta e sete.

                                                           III

A Sofia vinha a Portugal quase todos os anos, perto do final das férias, para no regresso levar a Irina que, cerca de um mês antes, era levada ao avião com destino a Lisboa e entregue à guarda do pessoal de cabine e, certamente, ao comandante e em Portugal, com o Pai e avós paternos ficava cerca de um mês.
Algumas vezes, quando nos encontrávamos, o que raramente sucedia, convidava-me para ir passar uns dias a Berlin, para conhecer a cidade, aquelas coisas que normalmente se dizem para mobilizar vontades, mas sempre encontrei ou inventei uma desculpa para não ir: ou falta de tempo, ou de finanças em crise, eram as mais frequentes e eram reais.
Perto do final dos anos noventa noticiou-me que ia casar como Peter dentro de pouco tempo; e dois ou três anos depois, já instalados no seu apartamento em Berlin, os convites passaram a ser mais frequentes, sempre consegui evitar a viagem, mesmo sendo a vontade muita desde o primeiro dia.
E, assim, se chegou ao tempo do seu quadragésimo aniversário sem me ter comprometido; algumas vezes nos encontrávamos, nomeadamente em dois mil e três, em Junho e Outubro para, na qualidade de testemunha, tomar parte no processo de regulação do poder paternal do sobrinho, filho da Joana, ação movida pela mãe que pretendia ver esclarecida e legitimada a custódia do filho, após a separação do casal.
Foi na primeira destas deslocações, em Junho, que nós começámos a estranhar as coincidências nas nossas vidas, mesmo parecendo terem sido diferentes e não passavam só pelo mundo do onírico.
Quando, com prazer imenso, aceitei o convite para a festa comemorativa do seu aniversário, tinha já enorme vontade de conhecer Berlin e também o Peter de que apenas o tinha visto numa fotografia.
Mal nós imaginávamos as surpresas que nos esperavam. Foi sempre assim, sucedem-se os eventos como se eu movimentasse os mecanismos que os despoletam e tivesse influência na sua evolução, o que é de todo inverosímil sequer pensar.
E em Berlin não houve exceção.


                                                           IV

A viagem foi naturalmente planeada em função do objectivo principal: o aniversário da Sofia. Visitar Berlin seria, como foi, muito agradável, mas não era de facto o principal.
A partida a onze de Junho e regresso a dezoito. Qualquer dos voos fazia escala em Barajas, Madrid. A Companhia era a Ibéria, não faria sentido que não escalasse Madrid, destino da maioria dos que iam para a Alemanha e dos que deste país voltavam.
Foi a minha segunda viagem em voo comercial; a primeira, em Janeiro de noventa e seis, foi para a Madeira, onde passei cinco dias de férias na contemplação espantada de tanta beleza natural.
As duas viagens mais demoradas e longas foram no primeiro ano da década de sessenta, quando em Angola a rebelião deu início à primeira das guerras nas colónias, no Ultramar segundo a teoria do governante-mor, Salazar do Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor e que os Movimentos africanos chamavam de libertação.
Foram “cruzeiros” de oito dias sem escala, na ida só para fardados e no regresso já com alguns civis à mistura, provavelmente todos familiares de militares que terminaram a comissão de serviço. A minha terminou vinte e sete meses depois de ter iniciado e o navio que me levou foi o mesmo que me trouxe: Vera Cruz, assim se chamava.
Quando fui à Madeira a viagem de avião assemelhou-se com a de barco em termos de paisagem; ambas só com mar por baixo e algumas nuvens.
A viagem para Berlin teve um pouco de tudo, sentado junto a uma das janelas que escolhi, fui vendo o filme que se passava a milhares de pés abaixo da nossa rota.
Campos e mais campos, entre Portugal e Espanha, eram manchas negras na paisagem que os incêndios de Verão mais ou menos todos os anos vão acrescentando e este ano as previsões são de tempo quente e seco, sinal de que vão aumentar, noutros locais, as pinceladas de negro sobre um fundo de cor pardacenta e algumas manchas de mata que do ar a cor se tornava indefinida.
Começaram, depois de deixar Barajas, a aparecer alguns campos com aspeto de estarem cultivados e manchas mais escuras com aspecto de corresponderem a floresta.
Por vezes apareciam manchas de nuvens que logo desapareciam, o écran ficava limpo e onde iam aparecendo pequenas aeronaves em rotas muito abaixo da nossa e por duas ou três vezes apareceram de frente, inicialmente parecendo pássaros que iam crescendo e pareciam vir ao nosso encontro, mas que ao cruzarmos era enorme a distância, não dando sequer para ver qual a bandeira ou companhia!
Já sobre território alemão, não por informação prestada ou tivéssemos passado alguma imaginária fronteira, mas pela hora prevista para a aterragem, sobrevoámos uma densa mancha de nuvens durante vária milhas; parecia um tapete de grandes novelos de lã que escondia tudo o que baixo existia, como preparando uma surpresa a quem, como eu, fazia a viagem para aquele lado do mundo.
Atento, apercebi-me que os flaps se movimentavam e que o pássaro gigante perdia altura e em pouco tempo mergulhámos no denso manto de nuvens e asa esquerda do avião era vergastada e a escotilha foi de repente passada por um pincel invisível e ficou embaciada.
Saímos do manto denso e como por magia, aparece o que devia ser a periferia de uma cidade, só que em vez de grandes aglomerados habitacionais eram construções individualizadas, rodeadas de verde, bem ordenadas, mas de aspeto calmo e fresco. Os tons de verde eram muitos e sucediam-se naturalmente, como se obedecendo a um pintor naturalista em dia de inspiração.
O grande milhafre descreveu uma larga curva para a esquerda, sempre a descer e os ouvidos davam sinal de não estarem a achar graça com aquela mudança de altitude; a voz de cabine informava que estávamos a chegar ao aeroporto de Tegel, agradecemos que apertem os cintos.
De imediato as duas assistentes de bordo iniciaram a verificação dos cintos e certificavam-se de que os porta-bagagens estavam bem fechados e uns minutos passados estávamos a rolar numa das pistas do aeroporto nos arredores de Berlin.
Tudo decorreu sem problemas, as bagagens como toupeiras saiam a um ritmo irregular e entravam no tapete que as levaria até aos seus donos. Em poucos minutos estava a caminho da saída com o pequeno malote ao ombro e a reboque uma mala que dias antes e para o efeito tinha comprado.
Mal cheguei à última das portas logo vi a Sofia, sorridente, braço no ar a acenar, como se fosse fácil confundi-la com outra pessoa!
Um abraço e a pergunta inevitável: correu bem a viagem? Não havia mais novidades depois do telefonema do aeroporto madrileno de Barajas, que a única nota de registo foi o almoço num dos bares: umas farripas de bacalhau cru, acompanhado de uns legumes, tudo com sabor a nada!
Metemos a bagagem na mala do carro que ela conduzia e enquanto íamos falando eu ia olhando para os lados da auto-estrada, mais parecendo uma grande avenida, com frondosas árvores cobertas de folhas e uma invulgar sensação de frescura.
A temperatura era agradável naquela época do ano, ao contrário do que estava habituado a ver, com demasiada frequência, nos boletins da Euro News, a máxima a rondar os zero graus.
Chegados ao apartamento, como era sábado, o Peter estava em casa, assim como estavam também a Irina e o namorado.
Informado que estaria pela Sofia, o Peter fazia um esforço enorme para entender o meu português e falar na mesma língua; esqueci-me, como sempre, de que devia falar mais pausadamente para facilitar, mas é um pormenor que me escapa sempre, não por descortesia que não uso, mas por dificuldade em auto condicionar o meu tempo de linguagem, que vem desde oitenta e seis, quando fiz o hematoma na corda vocal e o volume de voz era fraco e grave; como para falar mais alto me cansava, a tendência natural era e é falar mais depressa para me não cansar e enervar! A operação, no ano seguinte, travou as rouquidões frequentes, nas o volume e nitidez do registo vocal nunca regressaram.
O Peter tinha um ar calmo e sorridente e estava convencido de que já nos conhecíamos, versão que a Sofia, distraída como sempre, tentava corroborar, mas depressa os convenci de que não: era mesmo o primeiro contacto.


                                                           V


Entregues as lembranças, feitas as apresentações, lá fomos pondo em dia as novidades, dar um passeio por algumas zonas da cidade, de carro, depois a hora de jantar.
O apartamento situava-se do lado de lá do mais famoso muro do mundo, ou seja no que fora território da RDA; edifício que teria sido construído depois da “separação” do território tinha aspecto sólido, divisões amplas, um pé alto superior aos três metros e todas as janelas eram de sacada, com vidros duplos, até ao chão. A mobília era sóbria, mas com gosto. Funcional.
A cidade impressionou-me, não pelo que é comum impressionarem as grandes cidades, mas por razões diversas: não havia apitadelas de automobilistas nervosos, o trânsito era fluído e calmo; as placas toponímicas penduradas em postes tubulares, quase à altura da cabeça de um passante mais alto, estavam intactas; as bicicletas tinham os seus trilhos próprios e por toda a parte da cidade onde passei me cruzei com velhos e novos a passear em duas rodas. E era uma profusão de veículos em trânsito, com lugares próprios de estacionamento, como que abandonados.
Todos os espaços disponíveis entre edifícios, mesmo quando formavam pátios interiores, tinham árvores e arbustos bem cuidados, assim como os dos passeios de quase todas as ruas. Era uma paleta imensa em tons de verde. O pavimento de algumas ruas, não principais, era em granito, de cor indefinida, mas de sólida aplicação.
O rio que passa dentro da cidade, deslizando pausadamente entre lagos, passando junto ao palácio da Assembleia, parecia não ter despertado a curiosidade da Sofia, não se lembrava do nome e o Peter quem me informou: Spree, o seu nome.
Do famoso muro, pela negativa, mesmo que qualquer muro só pela negativa o entenda, muros ou muralhas, só restavam algumas marcas no pavimento, como um rasto para memórias futuras, mas que a grande maioria deve ter já esquecido! Deixaram um pequeno pedaço, como um monumento sinistro à estupidez elevada à categoria de culto rácico.
O museu da resistência, mesmo ao pé do que seria a principal fronteira, devia ter o essencial, segundo a perspetival de quem o instalou, para  documentar a história recente daquele lugar, como se a brutalidade pudesse ser circunscrita ao espaço de um museu e dele fosse a responsabilidade; tendo certamente o essencial, na minha nada avalisada opinião é pobre; só a soturnidade do local impressiona e os muitos registos escritos e pictóricos me pareceram importantes; o resto é mais panfleto do que história! A todo o momento chegam excursões, a maioria de países asiáticos, com seus trajos coloridos, suas gargalhadas sonoras e carregados de todo o tipo de aparelhos de registo de imagem.
O que me chamou a atenção e deu motivo para alguma tentação de menor solenidade e respeito, foi a encenação teatral do posto fronteiriço, com dois militares, um inglês e outro americano, postados do lado oeste da passagem e do lado leste nada de soldado russo! Porquê? Tentei saber, mas parece que é um pormenor, esta falta de rigor militar, a que já ninguém liga.
Como não me dou bem com eternos segredos e dúvidas excessivas, tive que ser eu a tirar a minhas próprias conclusões: ou o soldado estava de folga, ou se pirou a “salto” para a parte ocidental pensando que ainda estava tudo como antes e para fugir às piadas de mau gosto dos ocidentais sentinelas ou então, pura e simplesmente, a Rússia não alinhou na mal encenada peça de teatro!
A última hipótese pode não o ser assim tão linear, mas parece que deve ser a mais equilibrada, tendo em conta o que vi um ou dois dias depois pude apreciar: a Sofia foi dar comigo um passeio a pé, lá para os lados de Potsdam e depois as duas embaixadas.
A primeira que no trajeto encontrámos foi a dos Estados Unidos da América terá ocupado ou um dos edifícios da era hitleriana ou mesmo anterior ou seria um antigo palácio que correspondia a um quarteirão inteiro, tendo ruas em todas as suas fachadas; as duas avenidas principais eram abertas aos transportes regulares duma cidade, as duas perpendiculares estavam fechadas ao trânsito automóvel com blocos de cimento do tipo dos que em algumas autoestradas são usados como separadores. A dois ou três metros de distância um gradeamento de ferro com cerca de três metros de altura, encimado por uma espiral metálica todo o gradeamento. Em todos os ângulos estava da grade havia placas de proibição de fotografar e filmar, outras informavam que a espiral estava eletrificada e em todos os cantos e a meio do gradeamento havia câmaras de vídeo que cobriam todo o espaço envolvente e os telhados em redor!
O que de imediato me ocorreu foi que os representantes “diplomáticos” dos Stats se tinham autossequestrado ou alguma seita de perigosos alemães do outro lado do muro os transformara em reféns da cidade de Berlin! Mas há quem diga que é a cidade de Berlin quem está sequestrada por uma seita de fanáticos americanos dos serviços secretos. Qual das duas hipóteses estará certa ou mais próxima da realidade?
Relativamente perto, ocupando um edifício apalaçado, enorme, sem grades, sem guardas, sem placas de proibição e com o trânsito a circular normalmente, era a Embaixada da Rússia, tendo como guarda um soldado com ar descontraído para não dizer sonolento.
Tamanha indiferença por parte dos russos será incúria ou apenas rigor sem ostentação?
Será que os Estados Unidos da América se sentem ameaçados em todo o mundo, quando deviam sentir-se amados por serem os salvadores deste mesmo mundo?


                                                           VI


O tempo era pouco para os muitos afazeres da família anfitriã; a Sofia tinha que preparar as coisas para a festa de aniversário, festa que seria numa discoteca ( ou discotoca, por me parecer mais rigoroso )explorada por africanos e ainda apoiar todo o trabalho de busca, via internet algum dele, de modo a preparar a documentação necessária para a candidatura da Irina a três faculdades, por que a nota final do liceu não dava para poder ter direito de opção; mas mesmo assim o tempo chegou para tratar de tudo e a minha companheira de piscina, não só abandonou o usodas  braçadeiras insufladas para boiar, mas se transformou num espectáculo de invulgar beleza e grande serenidade; ia entrar para a Faculdade.
Enquanto mãe e filha se no computador e o Peter saía de manhã bem cedo para a empresa, bem longe de Berlim e quando voltava ao fim da tarde ainda trabalhava até às dez da noite no seu portátil, eu ia fazendo as minhas pequenas incursões pela cidade, sempre perto da Novalis e preparado com o telemóvel para alguma eventualidade, nunca dispensando o cafezinho, de manhã e de tarde, tomado numa pequena “tasca”, a Mediterrânica, explorada por um português do Alto Minho, o Paulo, onde havia sempre um pastel de bacalhau e uma taça de vinho branco alemão, por sinal bem saboroso.
Era na Mediterrânica que podia beber um café com sabor a bica mal tirada, como em Portugal sucede também; era também lá que encontrava um outro português, sem grande alarde intelectual e provavelmente também sem grandes ambições, mas suficientemente apetrechado para falar de trivialidades.
Para chegar ao espaço de serviço da tasca, situado bem a dois metros abaixo do nível do passeio, desciam-se vários degraus de uma estreita escada e então era como uma adega; portas em arco de tijoleira maciça e as paredes eram do mesmo material, algumas meio cobertas com uma rudimentar decoração, tentativa que o Paulo adoptou para tentar que parecesse mais acolhedor o espaço. Algumas vezes o Paulo não me cobrava nada, ou então apenas cobrava o pastel e a taça de vinho, sendo o café oferta da casa.
Gostei mesmo da resignada calma do Paulo mediterrânico!


                                                           VII


Na tarde de um dos dias, terá sido na segunda ou terça-feira, eu tinha chegado no sábado, quando cheguei à Mediterrânica, estava o Paulo acompanhado por um individuo moreno, de idade indefinida, arriscando os cerca de cinquenta anos, com ar debilitado, estranhamente espantado ao ouvir o meu cumprimento ao Paulo da mediterrânica tasca, nos confins de Berlin, na língua de Camões e Fernando Pessoa!
- Temos mais um português neste canto do mundo! Diz ele numa voz insegura, mas revelando uma clara manifestação de alegria que, de todo, a vida parecia recusar-lhe!
- Por acaso não se chama Paulo? Acrescentou o desconhecido, com ar que pretendia ser divertido!
Não, o meu nome é Silvério, mas porquê? Agora era meu o espanto ao ouvir um português sem sotaque numa voz quase a desaparecer.
- É que assim seríamos três! Respondeu o agora Paulo também!
Quase me senti culpado em não me chamar Paulo em vez de Silvério e assim sermos três em vez de dois! Não era querer muito aquele desconhecido, mas fiquei com a ideia clara que a ele daria algum prazer juntar três Paulos, mais do que juntar três portugueses, num buraco de Berlin; e a saúde que depois desejámos de taça erguida seria mais bonita se em coro disséssemos: aos três Paulos, em vez de aos três portugueses, acidentalmente juntos numa tasca na que foi a zona leste de Berlin!
Propositadamente esquecido que era Silvério e celebrei aos Paulos, aliando-me à maioria, ao menos uma vez na vida!
- E de que região de Portugal é o Silvério? Pergunta o segundo Paulo.
Duma quantidade de sítios de Portugal, mas mais de Lisboa e Leiria do que da aldeia onde nasci, a terra das gravuras rupestres!
- A terra de quê? Onde fica isso?
Pelo real e total desconhecimento, este Paulo, tal como eu, não tem qualquer autoral naquela manifestação artística de há trinta mil anos!
- Conhece Cascais? Pergunta o Paulo com voz cansada e notório esforço, não percebi se só físico ou também emocional.
Relativamente bem, respondi.
- Eu não nasci lá, mas tenho lá casa e família; tenho estado pouco tempo lá; tenho vivido na Polónia, criando cavalos, mas desfiz-me do negócio, vim há algum tempo para Berlin e dentro de uma semana vou para Portugal, para Cascais. Poderíamos encontrar-nos lá um dia destes para continuarmos a conversa e almoçarmos ou jantarmos! Pode dar-me o seu contacto?
Claro, com todo o gosto! Respondi. Dei-lhe o número do telemóvel e agradeci a simpatia da proposta.
Despediu-se, cansado, de olhos a esconder-se, sem brilho, nas cavidades orbitais!
- Então até amanhã! Disse ainda.
E tentou subir os degraus que o levariam ao passeio, à rua; mas o seu equilíbrio muscular deve ter sofrido profundo abalo, não sei qual a causa e quase terá deixado aquele corpo! A cada tentativa de subir mais um degrau o seu equilíbrio era menor e ameaçava desarticular-se ali mesmo, sem outro efeito que não fosse o drama da queda inevitável e o ruir escada abaixo! Simplesmente horrível!
Foi o Paulo da Mediterrânica quem ajudou o criador de cavalos a criar agora a força e equilíbrio para chegar ao último degrau, que mais parecia o último da vida!
Seguiu, quase sufocado, encostado à parede do edifício, em direcção a casa, ali perto, segundo confirmou o Paulo, mas longe demais para o criador de cavalos, dado o seu estado físico.
No dia seguinte tardou a aparecer e quando o fez vinha acompanhado por um familiar ou alguém que com ele vivia, segundo o Paulo comerciante.
Falámos pouco e cá fora, sentados nos bancos da miniesplanada que o Paulo ali instalara. Não arriscou descer.
Despediu-se, com a promessa de em breve me contactar! Acredito que tivesse essa firme intenção.


                                                           VIII


A campanha eleitoral estava no auge e a candidatura de Ângela Merkel continuava com algum avanço, segundo as sondagens, sobre o seu adversário, o ainda chanceler Schroeder.
Por outro lado a guerra no Iraque trazia em sobressalto os lideres da União Europeia, sobretudo aqueles que, direta ou indiretamente, deram o seu apoio à iniciativa do lunático Bush.
Encontros de alto nível foram tidos em Berlin, com razões que teriam a ver com a Alemanha se não ter declarado a favor do conflito, assim como a França, mas também por haver interesse politico por parte da candidatura do chanceler em exercício. Em política vale tudo, continuo a pensar.
Ao contrário do que é habitual ver em Portugal, não havia profusão de cartazes e grandes painéis, parecendo que tudo sucedia dentro dos espaços fechados onde as grandes decisões em nome do Povo, para o Povo, mas bem resguardadas dos olhares deste.
A sede da candidatura de Merkel era ponto de convergência de grandes encontros, sendo as bandeiras dos vários países hasteadas à porta do grande e moderno edifício, bem no centro da cidade.
Um dos dias de passeio pela cidade a azáfama policial era grande! Ruas fechadas ao trânsito, para quase de imediato serem reabertas, logo que as sirenes dos veículos da polícia que abriam e fechavam caminho passavam, tudo voltava à normalidade.
Ou era Tony Blair, cujo sorriso plastificado não vi, quem se dirigia para a sede do governo alemão, ou era o representante de Portugal; um desassossego!
Veio depois uma passagem de modelos no grande centro comercial em Potsdam e para rematar era a promoção do último do Batman, com exposição do protótipo do carro que o transportaria para as grandes aventuras que para eles estavam roteiradas e que eu aproveitei para ver em pormenor e fotografar, mais para satisfazer pedidos de Portugal e do filho de uma das amigas da Sofia que devia ser um entusiasta do moderno aventureiro, o tempo dos espadachins tinha ficado lá longe no tempo!
Divertida, a Sofia, dizia que eu não podia sair de casa por que punha tudo em alvoroço, com policia a tapar e destapar passagens, sirenes a ensurdecer o ar em repouso até ali, um frenesim!
- Temos estado como no céu! Veio você e deu origem a todo este caos! Dizia e ria a Sofia.
E parecia que era verdade! Bem…tenho que ir embora e deixar que a paz volte a Berlin.


                                                           IX


O dia do aniversário chegou, o Peter ofereceu-lhe um conjunto de caneta, tinta e bloco-carta, penso que da Dupont, luxuoso! Entendi que a oferta era um pouco para ambos, para ela continuar a escrever para mim quando a Portugal regressasse! Eu dei o perfume que tinha levado de Portugal, receando que em Berlin não houvesse perfumes! O namorado da Irina deu um belíssimo candeeiro de sua autoria, quer no design, quer no fabrico!
Jantámos em casa, confecionado pela Sofia, os cinco e mais dois convidados, amigos da Sofia e no dia seguinte fomos jantar a casa de uma família, ele alemão e ela boliviana, que nos serviu um manjar tradicional do seu País.
O dia da festa, o sábado, chegou e com ele chegou o casal do Luxemburgo, que ofereceu uma belíssima peça-escultórica, em pedra-sabão e que a mim pareceu simbolizar o signo da aniversariante: Gémeos! Não vinha assim etiquetado, mas parece que todos, penso que mais por simpatia, anuíram pela representação.
Com a chegada do casal, passámos a ser três os representantes da tertúlia do sexto B, que me trouxe gratíssimas recordações e não poucas saudades!
O fim da festa levou a Irina e namorado, às quatro da madrugada para o aeroporto, para fazerem férias em Portugal e não foi aceite a minha proposta de ir com eles para Te gel e lá esperar pela hora do meu voo, às oito para Madrid e depois Lisboa.
O Peter levou-me ao aeroporto, através das avenidas e parques que uma semana antes tinha visto em sentido inverso e com outro motorista. Foi comprar dois cafés, para despertar, enquanto eu aguardava na fila para o chec-in.  Levei um bruto escaldão na boca e quase ficou intacto no contentor mais próximo.
Foi uma semana que, como tudo na vida, não será possível repetir e até reproduzir em palavras! É peça única!
Excecioneis! Todos!


                                                           X


Aguardava que, mais dia, menos dia, o Paulo de Cascais, onde raramente ia, ex-criador de cavalos na Polónia, me contactasse, como ficara em Berlin combinado, para a continuação da conversa mal esboçada e para o almoço ou jantar, ou até ambos.
Confesso que a minha curiosidade era grande e a demora estava a tornar-se ansiosa! Por hábito não gosto de deixar coisas pendentes, mas também não gosto de fazer crer que estou a pressionar, portanto era uma questão de esperar!
Cerca de um mês depois do meu regresso a Sofia deu-me a notícia que o Paulo que eu conhecera na Mediterrânica, porventura cansado do seu ato, também único, de criar cavalos, foi pelo Universal Criador chamado a sua Divina e Eterna presença e, assim, não poderá cumprir a promessa que em Berlin fizera! A vida terminou para ele!
Estás perdoado, Paulo! Descansa em Paz!

Reis Caçote
Set/2005
Dig. Abril/14





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