VILA NOVA DE MIL FONTES
(MIL REIS DE JUNHO)
I
Por mais que insistisse com o
Silvério, e já lá vão cinco anos, para que falasse, mesmo que só ao de leve ou
então que desabafasse sobre o que passou nessa viagem à Costa Vicentina e que
tanto o terá marcado, não consegui demovê-lo, estribando-se sempre no habitual
argumento, de que há assuntos que, pelo seu grau de sensibilidade, entram no
domínio do “sagrado” e deles falar é o mesmo que profanar o seu mais profundo
significado.
O certo é que, desde aquela viagem,
até a nossa amizade, que vem dos tempos da adolescência, mesmo que, durante
longos períodos de tempo, tenham sido interrompidos os nossos habituais
encontros, parece ter sido perturbada. Afetada...não me parece!
Falamos de tudo o que nos ocorre e no
que a outros vai ocorrendo, brincamos muitas vezes com o que é sério e outras
tantas solenizamos o trivial, sempre na busca de, duma forma critica,
analisamos e discutimos o que de bom e de mau estão estruturando a sociedade em
geral e o nosso pequeno burgo em especial.
Prometemos não nos ofendermos
mutuamente, mesmo que, sobre o mesmo tema, tenhamos conceções absolutamente
opostas ou mesmo antagónicas; e algumas vezes tem sucedido. Ele cultiva essa
faceta da discussão, alegando que só aprendeu algo mais quando acaba por
reconhecer e dar razão ao opositor. Eu parto sempre com a ideia de ter razão e
quando isso não sucede, fico frustrado; amuado, nunca.
A nossa amizade terá estas
características: de franqueza e solidez, devido, provavelmente, às nossas
diferentes formas de aceitar ou rejeitar. Espero que assim vá evoluindo.
II
Tinha-me dito, a propósito da
alteração de data de um jantar marcado para o inicio de Junho, que o adiamento
se devia ao facto de ir acompanhar, numa auscultação de mercado do mercado
imobiliário, uma amiga de há longos anos, emigrada na Suíça, trabalhando no
ramo da ótica, que queria investir algumas economias na aquisição de uma
moradia, se possível no litoral alentejano, de que sempre gostou.
Os depósitos a prazo não estavam a ser
rentáveis e nos jogos de bolsa não lhe ofereciam a mínima confiança; a ideia
dela era, logo que pudesse, voltar para o seu País, saturada que começava a
estar do clima daquele país, excessivamente frio para o seu equilíbrio físico e
mental.
Penso que, propositadamente, nunca
referiu o nome da sua amiga; e eu, conhecendo-o como conheço, ou penso que
conheço, jamais esbocei a tentativa de indagar sobre ele. Foi assim que sempre
nos entendemos bem e a nossa cumplicidade não era a de derrubar qualquer ténue
ou resistente barreira de intimidade. Era reciproca a forma de proceder.
Sabia ele mais de alguns pormenores de
intimidade meus, não por que os procurasse saber, mas tão só por ser eu
naturalmente mais aberto do que ele é, ou então por serem diferentes os valores
que vamos atribuindo, sendo ele mais rigoroso do que eu sou, na defesa de
princípios do foro intimo. Respeito o seu modo de estar na vida, ele procede do
mesmo modo em relação a mim.
III
Uns dias depois do regresso da curta
expedição, ao almoço, no restaurante que habitualmente procuramos para inicio
das nossas conversas, durante uma entrada de queijo fresco da região, de que
ambos somos incondicionais apreciadores, sempre com uma pitada de sal e de
pimenta, para melhorar, olhámo-nos e, em silêncio, um sorriso aflorou aos olhos
de ambos.
- Estás em pulgas para saberes coisas,
não é ? gracejou ele.
Estou e não estou, respondi. Não é a
minha curiosidade, grande ou muito grande, que vai alterar a tua decisão, que
já tomaste, pois sei, por experiência, que tu só dirás alguma coisa se
decidires fazê-lo e antes, escolherás o tempo e a forma como o pensas fazer.
- É isso mesmo; ainda bem que sempre
facilitas tudo ! acrescentou. Mas podes ficar tranquilo, haveria muito pouco
para contar, por estranho que possa parecer-te! Como sabes, a dimensão das
coisas do foro intimo, variam muito de pessoa para pessoa e eu não costumo cair
na tentação, exibicionista, de as ampliar artificialmente!
Acredito, mas o pouco ou o nada que
tenha sucedido, não deixa de se manifestar, de forma pouco vulgar no teu
comportamento; pareces triste, por vezes distante, algo preocupado! Ou talvez
seja apenas eu, quem está a ver o que de facto não existe.
- É natural que pareça isso tudo e até
será provável que o esteja um pouco; estas questões tiveram sempre o condão de
me provocar algum desconforto, sobretudo quando não têm contornos
suficientemente definidos para se incluírem na área do compreendido e, logo, na
disponibilidade mental.
Vamos ao nosso almoço, antes que
arrefeça e o Jerónimo refile; voltaremos ao assunto mais tarde, quando quiseres
ou mesmo para nunca, se assim o
entenderes. O que conta mesmo é a nossa amizade e o estarmos aqui, uma vez
mais, com saúde e boa disposição!
Bom apetite!
- Igualmente! À nossa saúde e à de
todos de quem mais gostamos e dos que gostamos menos, também.
Tchin, tchim!
IV
Falámos do novo governo, das
trapalhadas que por aí andam, desde o negócio do chuto ao de outro xuto, da
banca e seus barões, dos corruptos e seus corruptores, das guerras quentes e
frias, dos funcionários públicos em geral e dos juízes em particular, dos
professores, advogados e sobretudo a guerra movida a quem trabalha por conta
dos privados.
- É, no mínimo, muito estranho, para
não dizer incompreensível, a atitude dos governantes, que travam uma cruzada
medieval, de exigências várias a quem trabalha, desde a flexibilidade do
trabalho, do horário e local de trabalho, abrindo a duração da jornada até ao
limite do tempo!
Sempre disseste que o patronato em
geral e o português em particular, incapazes de alterar a seu favor as regras
ditadas pelos grandes fornecedores de energia, de matérias-primas e
tecnologias, se vingava no fator mais desprotegido e fragilizado, que é a
mão-de-obra ou elemento trabalho, não tendo o desenvolvimento bastante para ver
que é este grupo imenso quem está no final da linha de consumo de tudo o que
produzem e que o deixará de estar se não for retribuído o seu produto, de forma
que não tenhamos todos que voltar aos negros tempos do esclavagismo!
- E não te parece que é quase onde já
estamos? Questiona o Silvério!
- Não te parece muito estranho que
seja declarada uma guerra a quem trabalha, em nome de uma nunca discutida
produtividade, obrigando todos a aprender inutilidades, em atos que vão
designando de “formações” e que outra coisa não têm sido do que um canal mais
para que uns tantos encham ou acrescentem o volume da sua fortuna! E sempre em
horários para além do tempo normal de trabalho, aumentando as horas deste, em
prejuízo do seu necessário descanso e de sua vida social e familiar!
- E não será igualmente estranho que
aos “empresários”, ou sejam, os donos das empresas, sobretudo a eles, não seja
recomendada alguma formação, nem que fosse só para aprenderem a mandar, já que
o ter poder para o fazer e fazê-lo só por que o podem, não é o mesmo que saber
fazê-lo?! Não farão eles, parte direta ou indireta do processo mais geral da
produção? A menos que seja entendido que eles, patrões ou seus representantes,
já a “sabem toda” e até mais do que o “mestre da música”!
- Não te parece, mesmo que tenhas sido
rico e sem necessidade de trabalhar, pelo menos a partir de certa altura da tua
vida, que a evolução dos meios técnicos e tecnológicos não são só destinados à
execução, mas antes de chegarem à execução, é da responsabilidade dos
decisores?! Não para passarem a executar, mas para entenderem as etapas
seguintes e quem as executa?
Isto dava para uma semana de discussão
e o nosso almoço está quase a findar e com este finda o nosso tempo! Amanhã
temos que lhe pegar novamente, ou senão os nossos patrões “flexibilizam-nos a
vida”!
- Como acabas de reconhecer, temos de
nos despachar e adiar para outro dia, o que esteve na origem da nossa conversa
de hoje e deste antecipado encontro, temos horários a cumprir; horários que,
por enquanto, ainda sabemos quais são e que, de um dia para o outro, bastando
que a noite de borga entre os nossos “patrões” e seus capatazes no governo,
lhes tenha caído mal e podemos ser transferidos para o “cú de judas”, ou
deixarmos o nosso trabalho na empresa e sermos destacados, em nome da
flexibilização do posto de trabalho, para lhe irmos tratar do jardim, tomar
conta das criancinhas, para eles poderem ir ao tal jantar social, ou ao cinema!
Ou até, como o genial Van Zeller quer, num acesso de azia da noitada de copos e
estúrdia de eunucos, nos mandarem para casa, por ter sido extinto o posto de
trabalho ou sermos considerados inaptos para o trabalho que sempre fizemos bem,
ou até invocando falta de aptidão para o substituir, não ao Van que deve estar
mais morto que vivo, lá em casa, por queixa da amante, que alega justa causa
para o despedimento, segundo a lei da flexibilização do trabalho, que não foste
lá muito legal na cama! Tudo isto passado, fora das horas normais de trabalho e
que, segundo a lei, deviam ser pagas, pelo menos, em dobro! Vão para o nosso
banco de horas, antes que venham a incluir, como horas extraordinárias de
trabalho, as horas de cama que, no geral, são mesmo “ordinárias” !
E por aqui ficamos, não é ? Quando
tens folga para a semana?
- Se tudo correr normalmente, será...,
não, é melhor eu telefonar, logo que tenha a certeza.
Ainda bebes mais um café?
- Não, por hoje chega, preciso mesmo
de dormir! Estes horários poem-me fora do esquema!
Até ao teu telefonema, então.
- Boa viagem e vai devagar! Um abraço
à Sara e beijos à “passarada” !
V
O Silvério telefonou a confirmar o
jantar para o sábado seguinte e a dizer que tinha já encomendado ao Jerónimo,
um pargo no forno, para dois, acompanhado das batatinhas assadas e uma salada
mista; nada de novo, nem de especial, o Jerónimo servia esse prato, desde que
encomendado com antecedência; o pargo tinha que ser procurado bem cedo e ser de
confiança, o que só uma fornecedora lhe garante. O vinho era também o do costume:
branco, fresco, da Ervideira.
Às sete e meia da tarde, como
combinado, estacionei junto ao restaurante e logo o Silvério apareceu, para o
efusivo abraço de saudação!
- Vens muito aperaltado! Comentou de
sorriso franco e divertido.
E tu, mais bem humorado, ou estarei a
ver mal?
- Não estás, não senhor! Esta semana
correu bem, quer o trabalho, quer a vida em geral.
Ainda bem; até o pargo vai notar a
diferença !
- O pargo ainda não sabemos, mas o
Jerónimo já começos a dar palpites: os do costume! Não fosse a tua
disponibilidade e bom humor e eu estaria, um dia destes, na fossa!
Não acredito, tu nunca estás na fossa!
És dos que vão resistindo, mesmo que o mundo vire do avesso!
- Obrigado, amigo, bom seria que assim
fosse, mas não é!
O Jerónimo, ainda com a casa vazia e
sempre simpático, sem ser servil, nosso conhecido de há muito, dos tempos de
outro PREC, como diz o meu amigo, Silvério, aparece à entrada do restaurante e,
fingindo-se zangado, pergunta:
- Então o jantar vai ser servido no
parque ? Os queijos estão na mesa e o branco está a aquecer! Rindo!
- Vamos a eles, caro Jerónimo! Não dizemos
nada de jeito, mas quando nos juntamos, a conversa toma logo conta de nós!
Estivemos anos sem nos encontrarmos, no tempo em que o gajo era rico, mas agora
estamos a desforrar-nos! Tem paciência, oh Jerónimo!
Alto lá ! Não dizermos nada de jeito,
uma ova ! O que não dizemos è mal de alguém, que é o que muitos fazem!
Criticamos, mas isso já nós fazíamos quando tínhamos catorze ou quinze anos, ele marçano e eu ajudante de
pedreiro.
- Jerónimo, sente-se um bocadinho,
faça-nos companhia no queijinho e no branco!
- Aproveito; agora ainda posso e a
vossa companhia não a rejeito, é com todo o prazer! O pargo demora aí um quarto
de hora. Traz mais um queijinho, oh Martins, pediu o Jerónimo ao empregado.
- Dentro de dez minutos o pargo está
na conta! informou o Martins.
Venha ele, até já lhe sinto o sabor!
VI
Já sós à mesa, o peixe a arrefecer nos
pratos. Então como foi a semana de trabalho? Perguntei.
- De trabalho, sem sobressaltos !
respondeu.
Pelo menos, pareces mais descontraído!
- É natural, eu também noto: o tempo e
um novo olhar sobre ele, por vezes
trazem mudanças.
- Aquilo que, durante todo este longo
período, me trouxe alguma instabilidade emocional, visto de outro angulo mais
largo, é capaz de não ter sido, de um tão estranho desconforto. Por vezes,
aquilo que não sucede é por que não tem mesmo que acontecer. Só o nosso desejo
de que doutra forma devia ter ocorrido, quando já é pretérito o que desejamos
presente, é que nos pode levar e leva mesmo a um descabido estado de
prostração, chegando a parecer-se com frustração, que não é!
Ainda bem que estás a dar a volta por
cima, como costuma dizer-se! É como costuma suceder sempre, que me lembre.
- Não é bem essa a conclusão, mas
serve como base de raciocínio. O que estava e está na origem deste desconforto
desde há anos, é a dificuldade de encontrar uma explicação razoável para certas
ocorrências. Vou tentar explicar.
VII
- Da viagem apenas sabia quando se
iniciava: não sabia o tempo de duração, o percurso, o meio de transporte e
escalas a fazer; exatamente como eu gosto e por isso não procurei saber; nenhum
dos pontos desconhecido tinham qualquer importância! Importante mesmo, era a
companhia, tudo o restante eram adereços. Penso que, também ela, não tinha um
plano tão definido e nem sequer pensou nesses pormenores, como é seu hábito,
preferindo ter uma ideia geral e tudo o que for ocorrendo é novo, é surpresa.
Não pensaste nisso durante este
período e só agora te ocorreu que conhecias a sua forma de gerir os tempos e mal
fizeste um esforço nesse sentido logo te apareceu a folha aberta do livro que
não tinhas sequer pensado! Não parece bem o teu normal!
- É verdade, mas agora não me vou
penitenciar!
- Num dos primeiros dias de Junho,
cerca das nove horas, deixámos o Largo do Areeiro, onde tínhamos tomado o
pequeno almoço, num Seat Ibiza do século passado, de cor indefinida e ar
cansado, da vida e do abandono, mais com aspeto de quem devia recusar-se a
enfrentar a estrada, do que fazer das fraquezas forças e, com ar marialva e
alguma alegria, abandonar o parque da Gago Coutinho, ou seja, o passeio sem
calçada, com ar desleixado, numa situação que apenas a resignação poderia
aceitar, há mais de uma década.
Seguimos pela ponte 25 de Abril e uns
quilómetros rodados voltámos para a estrada de Sesimbra.
Na primeira localidade onde havia café
com esplanada, à beira da estrada, parámos para o pequeno almoço.
O dia prometia ser de sol, não
excessivo e algum vento também.
À chegada do empregado pedimos dois
galões e duas torradas e, depois mais uma; a minha amiga tem um apetite voraz,
ao pequeno almoço, desde que seja tomado em Portugal, o menu é sempre o mesmo.
o galão e duas torradas e em dias especiais são dois galões também.
Afirma que tem um sabor diferente, em
Portugal.
A refeição que, desde os tempos de
Santa Barbara, sempre melhor me soube, foi o pequeno almoço! E tem alguma razão
de ser: levantar às cinco e meia, entrar na confusão do mercado da Ribeira,
andar quilómetros para localizar os produtos que iriam ser adquiridos, discutir
preços, levar para o transporte e, quase a correr, ir para o Mercado das
frutas, junto ao Tejo, que abria às sete, escolher, carregar ao ombro e
depositar na camioneta que os iria entregar no estabelecimento, passavam-se
sempre duas horas e meia, feitas a correr!
Chegar ao pequeno café, pedir um
galão, uma carcaça de oito tostões, com um queijo fresco cortado às fatias,
sabiam melhor que o melhor manjar! Ainda hoje continua a ser a refeição de que
mais gosto, mesmo com o sentido do paladar alterado pelo gindungo de Angola,
durante o tempo que estive em Luanda. E tenho pena, por ter na família quem
cozinhe bem, com gosto e com alguma ciência, mas só muito raramente algum prato
me desperta e estimula o sentido adulterado. Ganha-se na experiência de provar
vários tipos de cozinhar e dos produtos usados, mas perde-se na rotina de um
futuro sem curiosidades de ensaiar novos menus.
VIII
Pequeno almoço tomado e aí vamos nós,
bem dispostos – há mais de dois anos que não viajávamos juntos -, em direção ao
Cabo Espichel.
Descemos em direção à praia e alí
estacionámos. A Sara entrou numa imobiliária ao lado de um café, aproveitando
eu para beber a bebida de que mais gosto: café, Sical, neste caso.
A entrevista foi longa, a variedade de
oferta era grande, acabando por ser já pela hora de almoço que o zeloso
empregado iniciou o programa da amostragem, desde o já habitável, o já habitado
e o ainda em construção, em várias fases de acabamento.
A maioria era má, desde a construção
aos acabamentos e os preços eram na razão inversa à qualidade! A última que
fomos ver, mais por curiosidade, o preço da vivenda estava fora do plano de
investimento! Situada à entrada, ou saída, de Sesimbra, num lugar cujo nome não
fixei, mas fica na rua que dá acesso direto ao Cabo Espichel e seus espaços
conventuais; era uma propriedade murada, com terreno e pequeno pomar, jardins
em todo o espaço envolvente dos edifícios. Pertencia a um militar na reserva,
que terá exercido funções nas colónias da India! Aquele espaço terá sido como
um abrigo de alguém que não estava muito seguro, a ponto de, no piso abaixo do
nível do terreno, se situar a sala de convívio, com bilhar, móveis de origem
indiana, tendo, inclusivamente, embutido numa das paredes encurvada, um
esconderijo individual, que não era nada fácil dar pela presença daquela
pequena cela!
Segundo o proprietário, a maioria das
árvores e arbustos, foram importados da India e que seriam únicas em Portugal.
O motivo da venda era o estado de saúde da esposa e a ausência do único filho,
médico, a exercer em Lisboa, raramente ali vinha e sentiam-se sós, perdidos
naquele espaço imenso, embora tivessem um casal de empregados que lhes tratavam
das árvores, da limpeza e das roupas!
Chegou a hora de almoço e o programa
de visitas não tinha terminado, prosseguindo depois de almoço, na periferia da
cidade, onde se situavam condomínios fechados, os novos pátios da velha Lisboa,
como eu os designo, mas estes para novos ricos, gente “fina”!
Em terra de pescadores, o almoço foi
peixe grelhado, com sol e mar à vista! Como era hábito, pedimos pratos
diferentes, para podermos fazer uma “vaquinha”, concluindo que ambas as
escolhas foram acertadas.
O plano de visitas previsto para a
tarde foi propositadamente reduzido, optando a pesquisadora por recolher
folhetos, formas de contacto via internet !
IX
A paragem seguinte seria Porto Covo,
onde chegámos perto do fim do dia, por termos parado em vários locais para dar
uma espreitadela e outros tantos por nos enganarmos no percurso e ser sempre
por culpa minha.
Naquele tempo o GPS ainda não era
muito utilizado, por que, por muito esperto que seja, não adivinha e alguém tem
de preparar a papinha para o esperto falar!
A parte mais interessante, em Porto
Covo, foi o termos ido encontrar duas cidadãs holandesas a gerir a imobiliária
mais dinâmica da localidade! A oferta era pouca e os preços fora do habitual,
por isso durou pouco a auscultação do mercado; e o cansaço era mais que muito.
Próximo do mar não havia nada e nem deixavam construir, por decisão camarária,
certamente tendo em conta o que sucedeu no Algarve e até naquela zona, como era
o caso do carvalhal, logo a seguir á Zambujeira do Mar, que tudo o que por ali
havia de terrenos, a Sonae adquiriu! Os lobies da hotelaria e turismo,
nacionais e europeus, exercem pressões de toda a ordem sobre as autarquias e
algumas não resistem e outras até lhes agradava a pressão. O Estado de Direito,
democrático, de rosto humano e liberal, foi cedendo, das mais diversas formas,
acesso ao usufruto dos terrenos que faziam parte das zonas protegidas, pagando
aos reais proprietários valores ridículos e aguardavam que os amigos fossem
fazendo jogadas, onde pululavam corruptos de toda a espécie. Enfim, o costume.
Com todo este desconsolo que nos ia
roubando a alegria, decidimos avançar para a paragem de destino. Vila Nova de
Mil Fontes.
X
Onde, pelos vistos, começaram todos os eventos, que levaram à desarrumação
psíquica de que ainda não conseguiste libertar-te!
- Começaram, não será propriamente o
termo definidor. Foi como se, um vulcão inativo há perto de vinte anos,
entrasse em erupção, não violenta, mas com magma incandescente a descer pelas
encostas do tempo, invadindo tudo, como se uma dose nova, de sangue bem
oxigenado, a percorrer todos os caminhos da sensibilidade. Cada passo era uma
surpresa, cada frase um sino tocando a rebate!
Grossa coisa terá sucedido, exclamei!
- A parte mais emotiva, por estranho
que pareça, tem a ver com factos ocorridos há vários anos; com ela e comigo,
mas sempre separados, os mais sensíveis antes mesmo de nos conhecermos!
A essa, nem que fosse vidente lá
chegaria! Confessei.
- Vais perceber, mas não será hoje;
são quase onze da noite e tens que dormir, como rapaz bem comportado que sempre
foste.
Nem penses! Amanhã é domingo, posso
dormir até me apetecer; e mesmo que domingo não fosse, sempre posso dormir
quanto quero, não tenho que prestar contas, felizmente. E se fizermos uma
direta, como tantas vezes fizemos, nos nossos tempos adolescentes; os tempos,
pois que a nossa adolescência deve ter sido um lapso de tempo e acontecimentos
de que nenhum de nós guarda recordações claras, ou então as não recorda!
- É verdade! Fico sem jeito quando
penso nisso! Como é possível passar em branco um período que, para quase todos,
é dos mais importantes para a sua formação e registo futuro, segundo dizem os
entendidos!?
Entendidos sim, mas que nós não
entendemos nem eles nos entendem a nós, exatamente por que esses sábios não
passaram, nem a título de passeio, pelos trilhos que nós percorremos! Mas
deixemos isso, concordas?
- Assim eu pudesse fazer! Comenta o
Silvério.
Se estás com paciência...curiosidade não é difícil perceber que tens...!
Estou com ambas, mais curiosidade que
paciência, essa sempre a tive e ouvir-te é um prazer, nunca perco a paciência.
- O Jerónimo quer fechar a porta e
deve estar à espera que nós lhe desamparemos a loja para, para a fechar.
Vamos até ao Távola ou para minha casa
?
- O Távola, ao sábado, tem barulho
demais para o meu gosto, a tua garrafeira está nas lonas, ou continua bem
fornecida’ ? pergunta.
Está bem abastecida! Eu bebo pouco e
as visitas são raras e parte delas estão a fazer dieta! Chamam-lhe abstinência,
como se a Quaresma os tocasse! Bebem às escondidas, é o que é!
- Bora, meu, como diz a nossa
internética juventude!
XI
- Já tinha saudades deste sofá !
Só o não usas mais vezes por que não
queres!
- Eu sei, e tu sabes também, nem aos
amigos deves cansar; ou: a esses muito menos!
O que vamos beber, para iniciar? O
costume?
- Claro! E não estamos mal, não te
parece?
Por mim tudo bem; o que melhor espero
é mesmo saber como a viagem prosseguiu e terminou!
- Vais ter a maior das surpresas,
quando chegarmos à conclusão de que só as viagens-viagens, físicas ou mentais,
são as verdadeiras e razão para narrativa ou crónica simples, tenham ou não
acidentes de permeio.
Devia esclarecer que, antes da viagem, esta viagem, outras, não menos
importantes, nós iniciámos e terminámos; esta seria apenas mais uma, sem mais
estória que as outras, não fosse o ter sido, de todas elas, a que mais perto
esteve de entrar no mundo e no modo da “ode poética”!
Já sei como tu és com as estórias,
sobretudo se envolvem alguém que admiras e gostas e esse alguém estar ausente!
- Ora vês!? ... e tenho ou não razão?
Não nego que tenhas razão, mas cada
caso tem sua dose de rigor e sigilo...!
- Não adiantamos nada discutindo esta
forma de estar com os outros, ambos nos conhecemos bem e por isso sabemos que
não cedemos em questões de principio, o que nunca impediu de continuarmos a
discutir tudo, independentemente do que concluamos. Desde que a nossa
amizade seja como é, franca acima de
tudo e que nunca saia beliscada da discussão.
XII
- Retomando.
Inicialmente, a jornada tinha como
paragem a Vila Nova de Mil Fontes e poderia alongar-se até ao Algarve, se
valesse a pena.
Chegámos tarde e sem jantar.
Estacionou o Seat numa rua fortemente inclinada, que terminava perto da foz do
Rio e fomos procurar restaurante e onde dormir, Dava para entender, pela forma
linear com que se movimentava, que conhecia bem o espaço.
Enquanto avançava, decidida, em
direção à Pensão Mil Reis, com a naturalidade que a caracteriza, ia dizendo:
vínhamos sempre para aqui, há anos, nas férias, eu, minha irmã e nossa mãe e o
restaurante era sempre o Mil Réis! Ao atravessar a rua e olhando para a
direita, apontou para uma casinha de dois pisos, rés do chão e primeiro andar,
pintada de branco, como a maioria das outras e disse. “e ali era onde morávamos,
durante o tempo de férias”
- A minha surpresa foi tal, que só
consegui articular: não pode ser, isto são já coincidências a mais! Estou a
sentir-me a entrar no mundo da fábula!
“ O que se passa>? Que
coincidências são essas? inquiriu a Sofia!”
- já falamos, vamos tratar do jantar e
alojamento, antes que fiquemos com a barriga a bater as horas e durmamos ao relento!
Como o restaurante Mil réis era o que melhor conhecia, foi a ele que se
dirigiu: tocou a campainha, atendeu-nos um casal de idosos, os ainda
proprietários, que informaram ter o restaurante deixado de ser explorado e só a
parte da Residencial funcionava-
“ Ficamos cá? Propõe!”
- Nem se pergunta, vamos a isso,
respondi.
“ A senhora fica no 111 e o senhor no 115”.
“ E onde poderemos ainda comer
qualquer coisa? Indagou.
- “Aí mesmo em frente; penso que ainda
estão a trabalhar, respondeu o senhor”
- Pagámos, guardámos s chaves,
incluindo a da entrada e atravessámos a rua, entrando no restaurante; com bom
aspeto, mas sem clientes! Apenas dois homens, em pé, conversando. O de mais
idade, certamente o proprietário, foi quem nos atendeu; o outro, bastante mais
novo, pouco mais de trinta anos, devia ser cliente ou conhecido.
-“ Ainda nos podem servir qualquer
para servir de jantar?” perguntou a Sofia.
- “Tenho que perguntar à minha
comadre; ela é que sabe de cozinha! Ó comadre, arranja-se jantar para duas pessoas?
Virado para a copa!
- “Só se forem fanecas fritas com
arroz e ou batatas fritas e uma saladinha, respondeu a comadre!”
-“ Para mim está bom ! E você?”
Inquiriu a Sofia.
É ótimo ! Há anos vários que não como
fanecas e de vez em quando lembro de, em Luanda, no primeiro ano, a dona Rosa
nos dava muito as fanecas com arroz! A certa altura propôs-nos um aumento que
seria para melhorar um pouco as refeições! Se até ali nos servia duas ou três
vezes as fanecas, a partir dessa altura passaram a ser umas quatro! Certamente
tinha uma simpatia pelas fanecas e fornecer uma vez mais, era a melhoria
anunciada e que justificava o aumento!
Bebemos um vinho branco fresquinho da
região e eu bebi café e um wiskie, oferta da casa ou do interlocutor, pois
estavam ambos a beber essa bebida quando chegámos! Não percebi a que talho de foice ouvi o mais novo dizer que era
arquiteto! Pensei no provérbio de “as
conversas serem como cerejas e algumas vezes são mais que outras as cerejas,
quando tombam para o lado do panfleto! Não sei se este terá sido o caso, assim
como não produz em mim outro efeito, a não ser um ligeiro enfado! Distintivos e
distinções, só mesmo a nota do meu exame da quarta classe e foi a última, por deixar
de ser forma de classificação! Foi abolida !
Terminado o repasto, bem dispostos e
sem sono, numa noite de agradável
temperatura, a minha amiga, uma vez mais, tomou a iniciativa, perguntando:
- “ Vamos já dormir, ou dar uma volta
por aí?
Por aí, respondi. E dei comigo a
percorrer, de relance, a noite de há dezoito anos, amena e prateada, pela lua a
refletir-se no branco imaculado das paredes, a companhia bem diferente, mas a
magia envolvente semelhante!
Não muito distante ouvia-se uma música
conhecida que, com a aproximação, concluímos que era de um bar.
- Vamos espreitar ? propõe a Sofia.
Claro, nem era preciso perguntares !
Conforme íamos entrando o som ia aumentando vários decibéis! Meia dúzia de
pessoas, quase só jovens masculinos; ninguém dançava. Junto ao balcão, em pé,
optámos pela Cuba Livre para beber, acompanhada por uns salgados, sem graça.
Desejámo-nos uma boa noite!
A Sofia ensaiou alguns movimentos
descontraídos de dança, quando o ritmo mudou. Eu tentei fazer companhia,
com a falta de jeito habitual, de quem não ensaiou o suficiente. Ela, ao
contrário, parece ter nascido ao som de ritmos afro ou latino-americanos.
A bebida fresca caía bem na noite
quente e descontraída, de quem está longe de compromissos sociais ou
profissionais.
Duas bebidas e cerca de uma hora
passada, a Sofia propôs que fossemos andar e ver se achávamos algo mais
divertido.
Quando passávamos em frente à casa
onde ela pernoitava, com a Mãe e a Irmã, durante as férias, disse:
-“Tem que me explicar melhor essa
sucessão de coincidências à volta do nome e agora dos locais por ambos
utilizados! Parece muito interessante e estou curiosa”.
Apareceu novo bar, um pouco mais
atraente que o , com música sul-americana naquele momento.
- “Vamos ver como é o ambiente?
Propôs.
Como já disse, estou ao teu dispor,
tirei férias para te acompanhar e meu grande prazer, respondi!
Novamente junto ao balcão, em pé,
colocou a questão da bebida:
- “Vamos na Cuba Livre?”
Vamos nela, até está a saber e caír
bem! A meio da primeira bebida reparámos que, numa das mesas, com mais meia
dúzia de homens, estava o arquiteto com quem cruzámos no restaurante.
- “Oferecemos-lhe uma bebida?” Propôs
a Sofia.
Ele está acompanhado, o mais natural é
não aceitar; faz como quiseres, acrescentei.
- “O senhor do restaurante e ele foram
tão simpáticos...!” acrescenta ela.
Era mais que óbvia a tentativa da
Sofia em chamar a atenção do quase desconhecido e não menos ostensiva era a
minha relutância; incompreensível, devo confessar, já que sempre me alegrava
quando, lá da Suíça ou em férias, anunciava ou se fazia acompanhar por um
namorado!
Estou super-espantado, diz o Rosalvo,
caladinho desde que nos sentámos!
- E somos já dois, mesmo que por
razões bem diversas: eu, por então me sentir “afagado” por uma onda de ciúme
não habitual e tu, por deparares com uma nova faceta em mim, que desconhecias!
É isso ! E porquê?! Questiona-se, ele!
- Sem a ter como definitiva, então e
ainda hoje, cinco anos decorridos, a questão da idade, que sempre aceitei em
rebelião constante , quando dela me lembrava ou alguém me a recordava, é a que
ganha mais consistência.
Ele, seria mais ou menos da idade da
Sofia, com ar de quem está bem na vida e suficientemente disponível para se
deixar andar por ali, sem enfado aparente; os compromissos, se os tinha, não
lhe ofuscavam o gozo da vida.
A última Cuba Livre foi bebida por
ambos, em simultâneo, com duas palhinhas, como em outras ocasiões fizemos, em
locais bem diferentes, bem como a distância temporal.
O pessoal do bar iniciou aquele ritual
de mandar para casa: o arrumar das cadeiras, limpeza das mesas, música a perder
decibéis e algumas luzes a serem apagadas!
- “Estão a pôr-nos na rua !” ri a
Sofia.
Pelos vistos...! Vamos ver o tempo lá
fora? Propus.
A Lua, a fingir que estava poisada na
beira da falésia, fazia a sua despedida, desenhou um dourado caminho sobre a
urbe, parecendo sugerir a segui-la na sua viagem! Mas a terra adormecida, só um
ou dois caminhavam apressados, quase pela certa em direção a casa.
Nós resistimos: espreitámos ainda a
torre do “Castelo do Drácula”, o caminho dourado no mar desenhado, lá mais
abaixo e ao longe, sem ondas que se ouvissem chocar nas rochas.
- “Parece que estamos sós, nesta terra
encantada!” comenta a Sofia com ar desconsolado! Vamos também descansar?
Propôs.
Na falta de melhor...anuí!
Fomos ao carro para pegar na
ligeiríssima bagagem, mas antes ainda descemos
até à zona da praia, de onde vinha aquele cheiro acre, misto de algas e
caranguejos e mais além o chap chap das
minúsculas ondas a acariciar o areal.
- “É lindo este sitio!” diz a Sofia
com voz de satisfação!
Para mim, para além da beleza que
todos lhe reconhecem, tem uma magia que não é fácil descrever! Sobretudo à
noite e neste mês de Junho ! E a partir desta noite, ainda mais difícil vai
ser, falar sobre seu encanto!
Este cantinho do mundo e o de Peniche,
por razões bem diferentes, ambos serão inesquecíveis! E com o passar do tempo,
quando deviam estar a esbater-se os contornos das suas auras, pelo contrário,
são cada dia mais nítidos e suaves; o prazer e ternura ao recordá-los são cada
vez mais intensos e quase sublimes.
- “Ainda vai ter de me contar essa
“aventura”, se assim se pode chamar-lhe, assegura a Sofia. E que coincidências
são essas e em que consistem?! E se não fosse tão tarde ( ou tão cedo?) (risos)
era hoje mesmo que eu queria ouvir! Insiste, entusiasmada, a Sofia.
As coincidências, nada raras entre
nós, não levariam muito tempo a relatar, o que as antecedeu e o que as envolveu
e impregnou de magia, beleza e ternura, é que levaria seu tempo e apresentariam
alguma dificuldade.
- “Vamos ao carro buscar os malotes e
vamos para a residencial, propôs a Sofia.
E assim fizemos, de malotes ao ombro,
eu quase a levitar de alegria e à Sofia sobejava a curiosidade!
Abriu a porta da rua da Residencial (
foi ela quem guardou as chaves), subimos os dez ou doze degraus em mármore
quase branco, de acesso ao primeiro andar.
O quarto cento e quinze ficaria,
segundo a ordem da numeração, ao fundo do corredor, pelo que se via com a fraca
luz da iluminação de presença a indicar a numeração; o cento e onze ficava
mesmo no final dos degraus, tendo um varandim ao fim do qual ficava a porta.
O efeito da Cuba Livre era mesmo de
libertação, apenas atenuado pelo ar fresco da noite, aquela hora da madrugada!
A boa disposição tomara conta de nós, rindo por tudo e por nada; nunca me tinha
sentido tão bem na companhia de alguém, mesmo na da Sofia noutras ocasiões, não
muitas, devo acrescentar.
A luz difusa das pequenas lâmpadas,
transmitia ao espaço uma penumbra tão frágil, que mal dava para vermos os
contornos dos nossos rostos.
Colocámos os malotes no chão fresco de
mármore do pequeno corredor e a Sofia pergunta
- “Onde vamos continuar a conversa, se
no quarto dela se no meu?!
Onde tu quiseres, respondi. Como
decisão não houve, sentámo-nos no chão, junto aos malotes e a porta de entrada
do cento e onze, decisão tomada quando ela tentou abrir a porta e chocámos,
ficando sentados lado a lado, de costas na parede exterior do quarto e os pés
nos varões verticais do varandim que protegia da escada.
- “Então vamos lá às coincidências,
intimou a Sofia, fingindo um ar muito sério e atento, só percetível na voz, os
rostos bem perto mas integrados na obscuridade do espaço!
Sem grandes pormenores, preveni.
- “Eu, quando não perceber, aviso! Tranquilizou-me
a Sofia!
XIII
Há dezoito anos, também no mês de
Junho, foi este o palco escolhido por uma amiga que eu vou apelidando de
cometa, outras vezes de Halley, pois só entra em cena de tempos a tempos, neste
caso foi para celebrar os seus quarenta anos!
- “Olha que coisa...! comentou
baixinho a Sofia.
O nome dela é como o teu e
conhecemo-nos em Luanda, em mil novecentos e sessenta e um, na semana que
antecedeu o Natal, acabada de chegar do Algarve, onde nascera.
Eu já por lá andava, como tu sabes,
desde o inicio de Julho e tinha já feito, sem o saber, tudo o que a linha da
frente da guerra, de mim exigira: a operação Esmeralda em Setembro e um
reabastecimento de munições de artilharia (uma das minhas especializações, a
outra foi meteorologia, aplicada à balística) na noite de um para dois de
Dezembro, dia da Independência de Portugal, feriado, mas que em Angola o era
também, por ser uma das províncias ultramarinas!
Estávamos já instalados no GACL- Grupo
de Artilharia de Campanha de Luanda e a residência era na Maianga, em casa de
uma família de Tomar, ele taxista e a dona Rosa administrava a pensão completa,
apoiada por um par de adolescentes, de Angola naturais.
Inicialmente eramos três furriéis que
usávamos aquilo que devia ter sido, antes da guerra, a sala de jantar da
família!
Com alguma frequência aparecia um
sargento, chegado de Portugal, isolado, por vir substituir algum que tivesse
sido ferido ou mesmo abatido nos confrontos diários.
Nos primeiros dias de Dezembro aparece
um segundo sargento, que apenas dormia, estando em Luanda a tratar do
arrendamento de uma vivenda, mobilada, que havia em quantidade por os donos se
terem posto a andar quando a confusão se agravou, para instalar a família que
devia chegar a Luanda perto da semana de Natal.
Chegou, como previsto, a esposa e duas filhas, a mais velha com
dezoito anos e a outra com dezasseis, Conceição a mais velha e Sofia, a mais
nova.
Inexplicavelmente, a mais nova,
apaixonou-se por mim, nem sequer me apercebi de que tal sucedera e na véspera
de Natal, estava eu de serviço, chamaram-me ao telefone: era a dona Rosa a
informar-me de que a Sofia estava lá em casa, decidida a passar o Natal comigo!
Como o serviço de piquete só de noite
é que fazia umas rondas, consegui arranjar quem me substituísse e eu fui saber
o que havia!
Acabei por ir passar o Natal com a
família da jovem, nascendo uma amizade que resistiu ao tempo, até agora.
- “Primeira coincidência!” concluiu a
Sofia.
Exato. Mas há mais:
No decurso daqueles vinte e quatro
anos, sem nada de especial a registar, houve encontros vários, sempre avisados,
em Lisboa, sobretudo.
As outras coincidências residem neste
espaço que, afinal, tu devias frequentar, nas férias com a família, em Julho ou
Agosto e nós estivemos cá em Junho, pela primeira vez, em mil novecentos e
oitenta e cinco, ocupando, exatamente, durante três dias, o mesmo primeiro
andar que tu, há horas, indicaste como sendo o que sempre ocupavam no Verão.
- “É, de facto uma estranha coincidência
e se a juntarmos a outras que já sucederam connosco, então ainda se torna mais
estranha!” comentou a Sofia.
- “E o que se passou de tão especial,
para que, espaço e tempo, fossem elevados à quase mística categoria de
paraíso?” quis saber.
Não é razoável, nem hábito meu,
desbravar terrenos comuns a outros protagonistas, estando eles ausentes! Posso
acrescentar que a surpresa da proposta, a alegria que se seguiu à minha
aceitação e a delicadeza de tudo o que envolveu o encontro, só podem ser entendidos
por quem os viveu!
As coisas, como hoje sucederam, desde
que cá chegámos, ganham, para além de um ar festivo, descomprometido, liberto,
azougado mesmo. E as pessoas, mesmo sem querer, são enleadas nesta tela, de
matizes suaves e densa malha, mas leve como brisa.
É, assim, que eu me tenho sentido
desde ontem!
- “Por recordação?!” Sussurrou a
Sofia.
Não, Sofia, exatamente por que tudo
ganhou, desde ontem, uma dimensão de encantamento e festa inigualáveis e
indiscritíveis, por palavras; só mesmo sentido poderá ser explicado! Em muito
supera o que se passou então.
Hoje, ou este ontem-hoje, que devia
ser eterno, supera tudo o que alguma vez vivi, imaginei ou mesmo sonhei!
Adquiriu um tal grau de beleza estética e emocional, que começo a ter receio de
que tudo não passe mesmo, de um daqueles sonhos delirantes e que tudo se esfume
ao acordar!
- “Eu já não entendo é nada disto!”
desabafa a Sofia. E agora ? Interrogava-se-me, O que fazemos?” aflita, cabeça
encostada à minha.
- “E se você me beijasse, o que sucedia?”
perguntava-se-me.
Nem quero sequer pensar e menos
imaginar! Respondi.
- “Vá lá, o que sucedia se você me
beijasse? Implora/ordena a Sofia.
E eu a adiar a resposta que tinha
vontade e necessidade de dar. Urgentemente.
- “Responda! O que sucederia se me
beijasse?”
Deu-se a explosão! Pareceu que tudo se
tinha estilhaçado, não como derrocada de ruídos, mas sim como um trecho musical
operático, em que todo o instrumental entra em ação e o ar parece ceder ao
sublime da partitura!
Ainda sentados, os braços procuravam
outros, em quase desespero e as bocas se uniram num beijo único, de cambiantes
doces e alucinados que tudo elevaram ao cume da exaltação!
Atabalhoadamente, abriu a porta do
cento e onze, os malotes abandonados, as luzes apagadas e a busca de novo
contacto foi caótica da minha parte! A vertigem daquele contato, nunca antes a
experimentara e receio não a ter vivido como merecia e desejava.
Os gestos, que devia ser cuidados e
calmos, foram precipitados e agitados: roupas desapareceram dos corpos, sem
destino de repouso, perdidas na quase escuridão e o que se encontrou naquele
frenesim, foram os corpos “virgens ambos” de uma tal proximidade. Alucinados, é
que me parece agora e me pareceu no momento do contacto, mas incontroláveis e
deliciosamente tensos, quando o sensato seria: o deslizar suave do percurso,
naquele lago de tépidas águas e mansas e revigorantes ondas.
Parecia que tudo iria decorrer sem
pressas e o tumulto iria dar lugar ao acalmar dos sentidos; nada disso, o
frenesim continuou sem tino e percorria já a parte mais intima do seu corpo e
tudo levava a pensar ( quem pensará, num momento assim?) que o poema iria
atingir a seu tempo, a onda que tanto esperava, quando a Sofia, num tom de voz
desconhecido, anuncia:
- “ Eu não tenho qualquer proteção!”
Não conheço o efeito de uma descarga
elétrica a atingir-me no momento inesperado, mas não será pelo exagero que
errarei!
Aliviei a tensão e o gesto esboçado
não foi além do breve traço.
Eu tinha, como sempre tenho, a não
referida proteção, mas o aviso atingiu-me no ponto em que tudo se apaga e o
alerta coloca tudo no lugar dos princípios que defenderei, como defendi
sempre, e até ao limite cultivei: os
momentos mais importantes da minha vida, e este seria o mais importante de
todos, por motivos que nunca fui capaz de explicar, deviam ser vividos na
plenitude dos sentidos! Sóbrio, sem limitações ou falsos escapes!
Instintivamente decidi não denunciar a
existência daquilo que permitiria chegar ao termo do ato iniciado! Já não era o
nosso primeiro ato, por falta de um adereço!
Não devo ter frustrado por inteiro o
esforço da Sofia, ou talvez tenha, por não conhecer seus limites, mas consegui
ficar eu convencido de que nem tudo se perdeu!
O debate intimo começou de imediato,
de lágrimas incontidas a embaciar-me os olhos, ficou a imagem da Sofia a entrar
na casa de banho, recortada pela luz que de lá sobrava: um perfil perfeito que
vezes sem conta tentei registar na tela e outras tantas fracassei!
XIV
Não sei calcular o tempo que mediou,
entre a imagem de perfil, recortada no caixilho formado pela abertura da
entrada na casa de banho e o ouvir bater à porta do meu quarto, o cento e
quinze, lá no fundo do corredor e, do lado de fora ouvir a voz da Sofia a
perguntar, com a habitual naturalidade,
- “Então não vai tomar o pequeno
almoço ?”
Devo ter respondido positivamente, não
recordo, tal como não recordo quando e como fui parar ao meu quarto! Prostrado
e frio, fui tomar duche bem quente!
A manhã estava límpida, mas um vento
vindo de Norte, frio, não ajudou nada, no retomar a energia, que o sonho e a
ressaca, ou a ressaca do sonho, me roubara.
Fomos até à falésia, a Sofia encolhida
com frio, tal como eu, escolheu uma pequena concavidade da duna, com o chão de
areia limpa, onde me sentei e ela se sentou entre as minhas pernas; assim
estivemos, não sei quanto tempo, mas o suficiente para me recompor da onírica
agitação, de que ela não suspeitava e de que eu não me atrevia a falar! Tal
como nunca falei durante todos estes anos.
Voltámos ao ponto de abrigo dos barcos
de pesca, mas do que precisava mesmo, era localizar o meu porto abrigado, que
não encontrei ainda, mas continuo esperançado de o encontrar um dia.
Passámos pelo castelo do Drácula,
fomos levantar as bagagens e o almoço foi feito na esplanada do restaurante,
com o Sol a escaldar e, assim, retomei o ritmo metabólico e psíquico que a
noite, ou o principio do dia me tiraram definitivamente.
Todos estes anos passados e, por
estranho que pareça, nunca fui capaz de falar deste “sonho louco” da noite
passada na Vila que ambos amamos!
Um dia o farei, agora me parecendo
mais fácil, a nossa franca e descomplexada e muito bela AMIZADE !
Reis Caçote
2oo3/dig.5/17
2oo3/dig.5/17
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