A TERTÚLIA DO 6º B
ou
A CASA DA GUI
I
O transporte colectivo e sua função social…
Durante quase vinte anos, sem transporte próprio e
a trabalhar cerca de dez quilómetros de distância do local de residência, o
mais natural seria, como foi, a procura de transportes colectivos, autocarro ou
comboio, outros meios não havia então e hoje menos há, tendo sido votada ao
abandono a linha do Oeste que ligava e os carris ainda ligam, os comboios é que
não, Lisboa à Figueira da Foz!
Só durante os primeiros tempos foi usado o
transporte particular de um colega que trabalhava já na empresa e antes
trabalhámos no Tribunal Judicial de Leiria e morava num dos dois bairros, hoje
ditos sociais, nos arredores de Leiria e tinha os filhos num colégio no outro
estremo da cidade, onde os ia levar de manhã e buscar à tarde.
Fazíamos uma vaquinha e no fim do mês pagávamos uma
importância, pouco mais que simbólica, para ajudar na despesa de combustível.
Anos mais tarde, já na década de oitenta, voltámos
a usar o transporte particular, desta vez de um engenheiro, recentemente
integrado nos quadros da empresa, que morava num dos bairros recentemente
construídos na periferia da cidade, tendo também um dos dois filhos, o mais
velho, num colégio infantil junto da Sé Catedral de Leiria; o mais novo e a
esposa, educadora infantil e trabalhava num dos infantários da Vila da Marinha
Grande, levando com ela o mais pequenino.
Esta prévia explicação serve apenas para que se
perceba a pouca mobilidade de quem trabalha fora da localidade da residência e
então me situar naquele que foi o veículo de tudo o que depois foi ocorrendo,
em termos de convivência, de amizade e de muito carinho entre três pessoas, com
idades e vivências muito diversas.
Este transporte colectivo foi, sem dúvida alguma, a
camioneta de carreira das oito da manhã, de Leiria para a Marinha Grande.
II
Salvo raras excepções de atraso, por qualquer das
várias razões, a camioneta saia da gare de Leiria, na Avenida Heróis de Angola,
às oito horas em ponto.
O percurso, por vezes alterado por motivo de obras
ou acidente que impedisse a passagem, não sendo difícil havê-los numa cidade
por dentro da qual passava a Estrada Nacional número Um, de Lisboa-Porto,
chegando antes a ser Auto-Estrada número Um, designação que tomou só depois de
ser concluída a auto-estrada que, com mais ou menos remendos e alterações,
ainda é a mesma, dizia que o percurso era virar à direita ao sair, descer parte
da Avenida citada, depois à esquerda pela Rua São Francisco, novamente à
esquerda pela Rua Mouzinho de Albuquerque, entrar no Largo Cinco de Outubro e
contornar o Jardim Luís de Camões, rodar um pouco à direita para entrar na Rua
Machado dos Santos, para no Largo do Município voltar à direita e então sim,
encontrar a que foi e ainda hoje assim é conhecida, Estrada da Marinha Grande e
que alguém resolveu mudar o nome, para rua dos Mártires.
Quando a esmola é grande…! Alto, lá, não é de
pobres nem de esmolas que quero escrever, isso tem pano para mangas e não é
para aqui chamado! O queria dizer era que, quando o burgo é pequeno e os
candidatos à toponímia são muitos, acaba por dar esta salgalhada! Heróis,
Santos, outro nome ligado à ocupação, depois a República e o nosso mais
celebrado Poeta, vem um dos fundadores da República e como as grandes cidades têm
um espaço, de paragem ou passagem, dedicado aos Mártires da Pátria, Leiria
tinha que ter e como não havia rua disponível e os nomes das outras não cederam
o seu lugar, e acho muito bem, porque mártires foram, são e serão todos, uns
mais que outros, mas mártires, assim alguém teve a ideia de que estradas há por
todo o lado e são poucas as que têm nome, por que carga de água a Marinha
Grande teria direito a nome?! E, zás, ficas a ser Rua dos Mártires! E assim
está, não sei onde acaba e nem vou saber, para mim e sobretudo para este
remover das recordações passadas da memória para o rascunho, depois para o
papel A quatro pela máquina de escrever e agora…as voltas que a vida e as
memórias dão…!...voltam para a memória, mas desta coisa milagrosa que é a
memória do computador! Fantástico! Para quem andou de lousa em punho e ali
começou a vida a aprender escrever…e agora estar na chamada terceira revolução
industrial…!...é obra! Espero que não haja um apagão universal e que por ele
seja tragada, porque posso, ou não estar em condições de repetir, por a minha
também se ter apagado, como espero que suceda um dia, mas não tenho pressa!
III
Era um dos horários mais utilizados, o das oito,
por ser aquele que mais se ajustava ao horário de trabalho de quem o iniciava
às nove, como eram os funcionários públicos e dos outros serviços. Os da
indústria, ligados directamente à produção, ou trabalhavam toda por turnos as
vinte e quatro horas, ou então iniciavam às oito da manhã.
Era neste horário que os estudantes que
frequentavam as aulas na Marinha, seguiam também, os de Leiria, da Barosa e de
Albergaria, aqui em maior quantidade por ser um lugar com alguma densidade
populacional e ficar quase à entrada da Vila da Marinha Grande.
Era um grupo animado o dos estudantes, como se iam
conhecendo bem, os da Barosa faziam uma ruidosa recepção aos iam de Leiria e os
de Albergaria eram recebidos festivamente pelos que já lá estavam! O problema
dos lugares sentados, ou melhor, a falta deles por estarem ocupados, era o tema
mais usado para a galhofa: querias um lugarzinho para sentar essa padaria?! Não
querias mais nada?! Vai apanhar a camioneta a Leiria?!
Às terças-feiras era um pouco mais diversificado e
devia ser também ao sábado, mas esse não sei como era, a partir do ano em que
foi instituída a “semana-inglesa”, não trabalhar ao sábado até às treze, como
antes e nessa altura ainda não usava os transportes públicos.
Eram os dias de mercado em Leiria, hoje é mais
conhecido por feira, porque há o mercado todos os dias e que antes se chamava
praça! Se alguém vier a ler este “riquíssimo texto de alta cultura” deve dizer:
mas que grande confusão! Uma feira que foi mercado, um mercado que foi praça…!
Espero que não arrume para o lugar dos esquecidos, como eu fiz a tantos
escritos desde que aprendi a ler o que não era obrigatório! Se o fizerem, estão
no uso de um direito e fazem o que a maioria não faz: ou não lêem nada, ou lêem
enão sabem interpretar ou então, que é muito mais cómodo, tudo está bem desde
que alguém lhes diga: isto é assim!
Voltando à camioneta das oito de Leiria para a
Marinha e às terças-feiras de mercado (ou será de feira?) que naquela época
ainda era animado! Agora são dias de feira, como antigamente era a de Março,
mas sem carrosséis e outras diversões, onde se vende de tudo, um pouco mais
barato e nalguns casos em muito, como dizem os pregoeiros, boa parte deles de
raça cigana, que transformam em arraial os acessos ao recinto, nem sempre o
mesmo, variando de acordo com a boa ou má disposição do edil do pelouro das
feiras e mercados, pensam os feirantes, mas não é! O que obriga a mudanças
frequentes tem a ver com a mesma estratégia de médio e longo prazo: aliviar da
concorrência as grandes superfícies para que seus lucros subam, nem que tenha
de ser com o desaparecimento total do comércio tradicional, o que quase já
sucedeu. Há casos em que não se nota a falta, porque não eram muito estimadas,
mas o desaparecimento do que seja vai provocando a desertificação do centro da
cidade, das cidades, porque a moléstia é a nível do país.
É a modernidade, é a sociedade de consumo, é o
mercado livre, é a globalização! Reais pulhas estes da globalização! Porque será
que no mundo se está a agravar o que já era mau? Porque será que os grandes
merceeiros não procuram o interior dos países, uma vez que a globalização devia
servir todos e não apenas os que já nada lhes faltava?!
“Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos
do mal” assim diz o catecismo na sua oração! Mas funciona tudo ao contrário!
Empurrai-nos para a tentação até cairmos e não nos livreis do mal.
Eu não irei cair na tentação de zurzir nas
aldrabices dos aldrabões aqui neste espaço, só porque estou a escrever, uma
vintena de anos depois de os factos terem ocorrido. Por isso mesmo volto às
terças-feiras e à camioneta das oito:
Eram dias de brilho novo: os habitantes da Barosa
que não criavam animais de capoeira, ou por não terem condições físicas, ou por
não terem a vida organizada para os criarem, era à feira de Leiria que os iam
comprar e aproveitavam para adquirirem outros bens, que depois teriam que levar
para casa.
Assim, a camioneta das oito, para além dos
passageiros habituais, passava a ter as alcofas com couves, nabos, cenouras,
galos a espreitar por entre a rama dos nabos e do alho francês, para poder
respirar! Os balanços da má estrada e os encontrões nas curvas o bicho era
apertado e em vez de cantar de galo, desatava a barafustar numa escandaleira
infernal só porque alguém, para se manter em pé, lhe tocava na crista que ela
não via, mas a defendia como o rei da capoeira, agora sem capoeira e o mais
certo é que nunca mais tivesse, pois iria direitinho ao forno, mal o despissem,
ficando uma partes para a canjinha ou talvez arroz de cabidela, para canja são
mais indicadas as galinhas, porque os médicos o que receitavam era cama e caldo
de galinha, porque era não sei, era coisa de médico, mas ficava sempre mais
bonita uma canjinha com um ovo ainda sem casca a boiar à superfície e os galos
não têm ovários para essa iguaria!
Também apareciam patos, menos vezes, mas quando
viajavam connosco e alguém os incomodava era uma gritaria sem nexo, penso que
até os mudos refilavam.
Estes barulhentos passageiros, que não pagavam
bilhete, começavam a ficar pelo caminho aos poucos, por vezes logo na Ponte das
Mestras, depois na primeira da Barosa e só mais raramente alguns iam até meio
da subida e no lugar do Sobreiro, onde é o cemitério, muito raramente chegava algum.
Era então que a veia humorística dos passageiros de
todos os dias se manifestava!
- Hoje, os galináceos vinham bravos! Aquele ganso
que ficou na Barosa para o parecia o tipo da banda da minha terra quando saca
uma fífia bem aviada do seu clarinete desafinado! E o raio do coelho, mesmo com
as patas atadas, conseguiu lançar a confusão geral, tais eram os saltos que
davam! Esta gente devia pagar o bilhete a dobrar! E outros que não recordo, mas
tinham a ver com a disposição dos passageiros tradicionais.
A Isabel, da empresa Belchior, aproveitava tudo:
- Até me está a crescer água na boca a pensar
naquela galinha que ficou na Ponte das Mestras!
Na Barosa, sobretudo, saiam a maior parte das
alcofas dos legumes e dos galos e patos que se cruzavam com os miúdos que iam
para a escola; era um chinfrim dos diabos! Tanto em alguns dias que o motorista
dizia que não arrancava dali enquanto não estivesse tudo acomodado, pois não
queria ter responsabilidades; vinha a saraivada de apupos e dichotes: oh,
mestre, eu preciso estar na escola às oito e meia e não vou desculpar-me com o
desembarque dos patos! Não foram os patos que originaram a confusão, foram os
galos, se calhar fartos de andar de camioneta e é só uma vez na vida, enquanto
nós é todos os dias, com patos ou sem eles!
- Vamos lá a sentar, ordenava o motorista e o
cobrador, na época ainda havia cobradores, ia pondo ordem na turba.
A de Albergaria, já sem criação a desembarcar, era
a mais movimentada, os miúdos da escola eram aos magotes e como conheciam os
que já vinham de Leiria e da Barosa, disputavam o lugar, alegando que os
sentados já vinham no bem-bom há muito tempo e era a vez de eles beneficiarem.
Era boa rapaziada, faziam muito barulho, mas pouca
guerra, o que era bom.
Quase todas as semanas apareciam rostos novos,
homens ou mulheres; uns continuavam e engrossavam o grupo, que seria hoje seria
chamado de núcleo duro da viagem. Outros não apareciam mais que uma vez ou duas
e não faziam história, nem da viagem, nem dos registos da Rodoviária.
Uma das caras que ficou para a história do grupo,
foi uma funcionária da Feis-Fábrica Escola Irmãos Stephans, penso que
economista e que com a pressa dos afazeres da madrugada, fazia a maquilhagem na
camioneta, com a naturalidade com que eu lia o jornal ou ela em casa, frente ao
espelho, mas que naquele lugar, com os solavancos do percurso era uma carga de
trabalhos, sobretudo quando chegava aos lábios, última das operações: passava o
baton, mas, uma valeta mais funda, ultrapassava o perímetro que queria pintar e
lá limpava e voltava a fazer o contorno, por vezes duas e três vezes! Ah! Com o
risco dos olhos também era frequente, corrigia duas e três vezes, mas nunca vi
um gesto de revolta, nem sequer um ar de aborrecimento! Era uma coisa que tinha
de ser feita e repetia as vezes necessárias.
Havia duas educadoras de infância, sempre
aprumadas, um vendedor de tintas para a construção civil, sempre calado e com
ar de abatido, que antes tinha sido comerciante de pronto a vestir para
senhora, em Leiria, negócio que não terá corrido bem e deve ter abandonado.
Alguns dos passageiros da manhã cruzavam-se ao
almoço, num dos restaurantes do centro da Vila e ao fim do dia, na camioneta
das dezoito e um quarto, para regressarem a Leiria.
Quase certo é que outras camionetas e outros pontos
do pequeno País terão percursos parecidos, com seus protagonistas, seus tipos
de linguagem e temas de conversa.
Os que mais recordo, com saudade e muita tristeza,
eram os metalúrgicos da Lisnave e Setenave, em grupos compactos de macacos
azuis vestidos, avançando como tropas de choque pelo Terreiro do Paço em
direcção aos barcos que faziam o percurso para o Barreiro e Cacilhas; a maior
parte levava numa das mãos o capacete e na outra a lancheira com o almoço, que
não seria muito avantajado, mas de certeza sabia bem, comido junto à muralha do
molhe onde os grandes barcos eram reparados, sobretudo os de carga e
petroleiros.
Não se percebia o que diziam, tal era o número de
vozes que parecia virem do chão, acima do ruido das botas que se arrastavam
pelo alcatrão em direcção a mais um dia de esforçado e mal pago trabalho.
IV
Uma manhã, de tempo mal encarado e a ameaçar chuva,
mas que no resto parecia ser igual, eis que, na segunda paragem da camioneta
das oito, aquelas que ainda hoje existem, a camioneta e a paragem, esta situada
a meio da descida que existe entre a rua de Dom Nuno Alvares Pereira e o Bairro
de Jericó, nas traseiras da ex-Escola Comercial e Industrial, hoje Escola de
Domingos Sequeira, entrou, com ar cansado de quem teve de correr para apanhar a
camioneta, uma nova passageira ou a não tendo visto antes, o que duvido, por
ser difícil passar despercebida.
Alta, esguia, de cabelo quase ruivo e que se via
bem não ser a cor natural e uns olhos que, mesmo não revelando alegria e que só
ela devia ser natural, eram rasgados, duma profundidade irreal e de um desenho
perfeito.
Não houve, de certeza, passageiro ou passageira que
não olhasse a aparição e logo por todo o autocarro se começou a ouvir, sem se
perceber, os comentários em surdina, que soavam como zoada de fundo; sempre que
uma cara nova aparecia era motivo de comentário do grupo residente e sem
grandes novidades para contar.
Mas desta vez a manifestação foi mais acesa e
demorada, parecendo que algo de anormal se estava a passar ou iria passar! E
passou.
Sentou-se num dos lugares disponíveis mais à
frente, porque os primeiros eram quase cativos e era na gare que a distribuição
se fazia, mal a porta do veículo era aberta.
Eu, como sempre fazia, sentava-me num dos bancos o
mais atrás possível, assim me safando do pessoal da frente, quase sempre de
língua afiada e a sentirem-se com direitos especiais por os terem adquirido
durante os vários de uso permanente da carreira, antes dos Claras e da
Rodoviária Nacional, após o Abril de setenta e quatro.
Aproveitava para ler o jornal que todos os dias
comprava, mas mal a novidade entrou na camioneta, dobrei-o, meti-o debaixo do
braço e logo começou uma luta, que foi assumindo contornos de derrota quando
pensei que não iria lembrar-me de onde conhecia a nova passageira! O rosto
fazia-me lembrar alguém conhecido, mas noutra época e não a localizava em
determinado espaço geográfico, maneira mais segura para me recordar de alguma
pessoa conhecida; eram o rosto e cabelo que não eram conhecidos, mas os olhos!…aqueles
olhos garantiam-me que faziam parte de um registo bem nítido.
Como habitualmente faço, sobretudo durante e depois
de deixar o Tribunal, quando procuro lembrar-me de alguém que sei conhecer,
faço o percurso mental dos lugares onde poderei ter visto determinada pessoa e
ao fim de algum tempo tenho a solução! Procedo como os policias, pegam na
descrição para fazerem o retracto robot, mas desta vez não estava a resultar.
E dei por mim a recriminar-me mentalmente desta
incapacidade de identificar rostos, mas o mal vinha já de longe e a
recriminação não adianta nada; só quando um rosto era mesmo invulgar ou tinha
particularidades muito especiais é que o fixava de imediato, não precisando do
artificioso esquema mental para lá chegar; e este devia ser o caso, segundo a
linha de raciocínio standardisada, mas a explicação do insucesso viria a seu
tempo. Ou não viria mesmo.
A forma adoptada, sendo útil para algumas
situações, era, não raras vezes, causa de embaraços, por me deparar com pessoas
que me tratavam tu cá tu lá e eu, “moita carrasca”, apenas acompanhava de
ouvido, pelo quase crónico hábito de ser simpático com todos, mesmo que não
percebesse, nem do que, nem de quem se tratava!
A situação mais bizarra deu-se, uma noite, na sala
de espera do doutor Felizardo, com a minha então esposa a aguardar a sua vez
para ser atendida.
Do espaço designado por consultório saiu um homem,
dirigiu-se a mim, deu-me um abraço, fez o interrogatório do costume,
apresentei-lhe a Graciete e desatou a falar da sua “enxaqueca”, da forma como
tinha evoluído e das melhoras que registadas. Mais de dez minutos terão
decorrido na explanação da doença, eu continuava a ouvir e no momento em que eu
estava quase a perceber qual era o tipo de maleita foi quando ele achou que
estava na hora de partir, porque tina táxi em espera.
O abraço de despedido, o aperto de mão à Graciete,
o beijinho ainda não estava tão democratizado como agora, e quando ele estava
achegar à porta que dava acesso à escada e esta à rua, a Graciete dispara a
esperada pergunta:
- Quem é este senhor, tão simpático?
Não faço a mínima ideia, mas ele me conhece de
algum lado ou me confundiu com outra pessoa, não sei, mas deve ser do Tribunal!
- Mas tu saíste do Tribunal há dez anos! Exclamou a
Graciete!
- E o pouco que falaste foi como se o conhecesses
perfeitamente e alimentaste a conversa alguns dez minutos! Insistia.
- Parece impossível! Voz de enfadada ou até mesmo
irritada e revoltada.
Pode parecer impossível, mas não é! Deves ter
reparado que eu mal falei, apena me limitava a confirmar com o velho sim ou a
negar quando era para negar e a apoiar aquilo que ele dizia ter feito e ter
resultado! Não calculas o que isto me custa, mas as pessoas dirigem-se a mim
como se eu fosse o seu confessor e não é fácil dizer, a quem se me dirige, que
deve ser engano, coloca-te no lugar delas! Vês como o senhor ia com ar de
alivio por ter achado alguém para desabafar!
- Isto é demais! Ainda criticava a Graciete.
Reconheço que é, mas que posso eu fazer?!
Esta parte gaga de manter um diálogo em tudo oco
era a forma que achei para não ser dado como louco ou não ter dado nisso! Em
Luanda, com uma frequência anormal, ou talvez não, levava pontapés ou caldaços
por detrás e quando me virava lá vinha o pedido de desculpa!
- Oh, amigo, desculpe lá, mas pareceu-me fulano, de
quem sou amigo!
Não há problema, sucede, amigo! E já estou
habituado!
- Não está a querer dizer…?
Não estou a querer dizer nada do que certamente
pensa; apenas que de vez em quando sou confundido com outro e não sei porquê!
Devo ter um modo de andar tão vulgar, ou então uma fisionomia posterior, que
confunde as pessoas!
Mas não vale a pena perder tempo com este aparte
que pouco tem a ver com o tema ou assunto que me propus tratar.
V
Passei o dia todo a “pegar” naquele rosto, sem cabelo
arruivado, procurar situá-lo em todos os locais, a arranjar-lhe ocupações,
família, tudo, que foi nada. Não consegui. Faltava a localização espacial e
temporal para aquele rosto.
Nos dias seguintes voltou a aparecer, penso que
terá faltado num deles e esta falta, que devia dar-me descanso mental, trouxe
outro tipo de preocupação: a possibilidade de desaparecer, como tantos outros
foram desaparecendo e eu sem achar a solução.
Podia, à saída da camioneta, ir no encalce dela e
ver onde se dirigia para trabalhar ou com quem se ia encontrar, mas o tempo que
tinha para chegar à Fábrica a horas, novamente na Guarda Nova, e eu sempre quis
ser pontual; sobretudo agora com a nova responsabilidade da Organização do
Trabalho.
Quando saía da camioneta ela nem sempre tomava o
mesmo rumo, ora seguia em frente até à Residência Paris e depois virava à
direita pela rua que ia dar aos bombeiros, enquanto eu virava à esquerda para
atravessar o topo Norte do Parque, ou seja, no sentido contrário ao dela.
Outros dias ela saía da camioneta e voltava para
trás e tomava a rua que ia dar na mesma aos bombeiros mas passava pela traseira
do edifício da camionagem.
A Isabel da Balchior, com o seu temperamento
brincalhão e atrevido, era capaz de já ter averiguado e saber o que eu me esforçava
em vão para descobrir, mas não tinha “lata” para, “como quem não quer a coisa”
lhe perguntar. O que ela iria pensar? Ou mesmo dizer, desbocada como é!
- Ficaste com o nariz no ar! Estes raios dos homens
são sempre os mesmos! Basta verem uma cara nova e sobretudo bonita e ficam logo
com o “espirito santo de orelha”!
Era o que ela diria se eu perguntasse! E por isso
eu não perguntava, não perguntaria!
Este dilema passou a ser, desde não sei que período
da vida, o meu “calcanhar de Aquilles”!Merda de timidez!
Mas um dia, estávamos a almoçar do self-service da
Residência Paris, quando o penteado ruivo-alaranjado passa em direcção à
Rodoviária.
Desejou boa tarde e bom apetite, não sei se para os
dois se só para a Isabel, mas pelo sim, pelo não, educadamente, correspondi
também à saudação, agradecendo e aproveitei a boleia do cumprimento para
perguntar à minha companheira de refeição: oh, Isabel, quem é a nova colega de
viagem, esta que agora cumprimentou?
- Acho que é uma filha do Almeida Fernandes, da Óptica
Penedo, parece que tem estado lá para Lisboa e agora veio trabalhar com o Pai!
Esta parte final já mal a ouvi; fixei até ao chegar
ao Almeida Fernandes!
Eureka! Porra! Tanto trabalho mental para não
chegar ao que era óbvio!
Só faltou levantar-me e desatar aos saltos!
A Isabel, arguta como era, apercebendo-se da minha
alteração, quis logo tirar “nabos da púcara”:
- Conhecia-la? Sabes quem é o pai?
Ao pai dela conheço-o há vários anos, ainda antes
do vinte e cinco de Abril, quando fez parte da lista do nosso Sindicato – o da
Isabel era o mesmo, por isso ele era dos Trabalhadores de Escritório e Comércio
– em mil novecentos e setenta e um.
- Ah, pois, também me lembro dele lá do Sindicato,
mesmo que poucas vezes lá tivesse ido. Mas conheço-o mais daqui da Marinha, é
muito conhecido e trabalha aqui há muitos anos!
E da filha também recordo, era ela novita, andava
nos pioneiros, juntamente com a irmã mais velha.
- Isso não sei, não sou muito ligada aos partidos!
Referiu a Isabel.
É natural, o casal separou-se e as filhas
acompanharam a mãe, indo viver para Lisboa; sei, não por ele e nem recordo quem
disse. Mas da Mãe não me recordo; desta filha sim, aqueles olhos …diziam-me
qualquer coisa.
- A vida é assim! Comenta a Isabel.
- Mas que é uma linda mulher, lá isso é! E acho que
tem uma filha, disse-me a minha colega!
Não porque o Fernandes falasse da família e também
raramente me cruzava com ele fora das coisas do Sindicato, mas alguns outros
membros da direcção de vez em quando referiam alguns pormenores: que a filha
mais velha foi para a Faculdade e a Mãe de ambas também; a mais nova terá ido
para uma escola de arte, mas mais pormenores não sei.
Um dia, numa deslocação a Lisboa em serviço da
empresa, não recordo para tratar que assunto, acabei por ir à boleia do
Fernandes, talvez por um dos directores da empresa ter sido antes dirigente do
Sindicato, no mandato anterior e deve ter sido da conversa entre eles que a
boleia foi negociada.
Acabámos por almoçar ambos, no restaurante do
Monumental, onde comi, pela primeira vez, gelado como sobremesa! Nunca mais
esqueci!
- Afinal estás bem mais perto do que pensavas,
confessa lá! E pelo teu ar…pareces encantado! Ria a Isabel, mas ela ria por
tudo e por nada!
Não fiz qualquer comentário, mas fiquei satisfeito
por, em tão pouco tempo ter aprendido e relembrado tanto pormenor.
VI
A certa altura fui encarregado pela Comissão
Concelhia do PCP, de Leiria, de coordenar as questões relacionadas com as
Associações de Amizade dos diversos países ditos de Leste, depois de o ter
feito, com algum êxito, aquando do sexagésimo aniversário da Revolução de
Outubro.
No período que antecedeu o das comemorações fui
nomeado para acompanhar o trabalho dos pioneiros, nunca cheguei bem a perceber
porquê, mas que me entusiasmou, pois sempre tive curiosidade em saber como era
a relação entre os organismos do Partido e as organizações juvenis.
Nesse tempo e como trabalhava na Marinha Grande,
fiz o acompanhamento, de perto, do que se ia fazendo para que os mais pequenos
vivessem uma vida sã e de pensamento livre. A Marinha Grande foi escolhida
devido ao número de militantes e, também, de pioneiros, com uma actividade bem
diversificada. Também às Caldas da Rainha ia uma vez por mês, assim como a
Alcobaça! Nunca interferi no programa de actividades ou outro, nem aceitaria a
tarefa se ela contivesse essa componente!
Foi na Marinha Grande, aí por volta de mil
novecentos e setenta e cinco ou setenta e seis, que conheci as duas as duas
filhas do Fernandes, dirigente do Sindicato. Se conheci a Mãe foi de modo que
não ficou registo.
Como já disse antes o Fernandes fazia parte da
Direcção do Sindicato, onde na época se travavam lutas duras pela direcção do
mesmo.
Era, na época, um Sindicato rico e a recém-criada
UGT – União Geral de Trabalhadores, de que não irei falar por ser um dogma, um
pouco como os de algumas religiões, nascida numa gruta bem conhecida, de
cesariana, e fez seus primeiros tempos na incubadora onde outros nascituros
foram iniciando os seus primeiros dias, estava a precisar que o ambiente fosse
favorável para que pudesse ser apresentada à “sociedade”. Ou seja, precisava de
fundos e de homens de mão para as tarefas de guerrilha, fazendo as alianças
mais espúrias, mas que resultavam para o efeito pretendido: dividir os
trabalhadores!
Eram tumultuosas as Assembleias convocadas,
chegando algumas a entrar pela madrugada e sem que se conseguisse aprovar ou
sequer fazer cumprir a Ordem dos Trabalhos. Tempos com vida e sem que da luta
saísse uma clarificação, que hoje se mantem! A UGT continua a ser o aliado
natural, através dos seus dirigentes, de todos os governos desde o primeiro
constitucional e, logo, do patronato. E terá o tempo de vida que seja
necessário para que os governos vão dizendo para dentro e para fora, que as
Leis criadas contra quem trabalha tiveram o acordo dos trabalhadores. Uma farsa
que só em países dependentes e ao serviço dos atentados mais sórdidos contra a
humanidade, podem suceder.
A saída para a capital após a separação dos pais,
de que não soube nem tinha que saber, assim como o tempo que decorreu, não
tenho dados e os que agora sei, as duas formaturas, da Ana e da Mãe e o
regresso à Marinha, da Susana, sei-o por me ter ido sendo contado durante o
tempo de convivência de que iremos falar de seguida, nomeadamente a ida à URSS
integrada numa das visitas de pioneiros que se efectuavam, não sei se
anualmente e que estavam integradas no programa acordado pelos dois Partidos de
estreitamento de laços de amizade internacionalista!
VII
Ainda na fase de já saber quem era a nova
passageira da camioneta das oito e eu fazendo o percurso mental que me levou
até aos Pioneiros da Marinha Grande e aos mais ou menos dez anos de idade da
nova companheira de viagem, dela não sairia tão cedo porque, mesmo que o não
pareça, a minha real e natural timidez não me deixaria avançar mais! Este meu
comportamento deve ter-me evitado alguns contratempos, não sei se terá, mas que
terei perdido a oportunidade de conhecer pessoas interessantes e com quem podia
ter aprendido mais, disso não tenho dúvidas.
O mais estranho é que este comportamento só surgiu
já na idade adulta, sem razão aparente, mas que eu vou justificando, na falta
de melhor, com o respeito que a todos é devido; antes, do que recordo também,
era característica que não tinha, bem pelo contrário: quase sempre era eu quem
tomava a iniciativa, e se corria mal, tinha como antidoto o lema de que não me
arrependo do que faço, de pouca eficácia psíquica, mas assumo a
responsabilidade do que faço e lamento o que devia ter feito e não fiz.
Estava a referir-me à fase em que sabia quem ela
era, a origem da recordação, mas não tínhamos dito um ao outro uma só palavra;
ela era o contrário das conhecidas de muitas viagens, entrava muda e saía
calada. Era, digo bem.
Não tinham passado muitos dias e eis que, na
paragem da Rua dos Mártires, a primeira desde que saía da gare, que está junto
ao convento dos Franciscanos e frente à rua que dá acesso ao bairro que passou
a ser o de Tukoshima com a geminação das cidades e que antes era dos Capuchos,
penso que por ali estar apenas a Igreja da Ordem dos Franciscanos, também
conhecidos por frades do capucho, por fazer parte do seu manto e cobrir a
cabeça quando o frio chegasse, entra a novel passageira e desta vez acompanhada
por uma pequenita e que de imediato relacionei como sendo a filha de que a
Isabel falara.
Nos seus mais ou menos dois anos de idade, era uma
criança franzina fisicamente, de “nariz arrebitado”, que mal chegou ao lugar
que foi escolhido para ambas, subiu para o banco e passou em revista todo o
interior da camioneta, num olhar muito rápido como que para se situar.
Era como um farol que, neste caso não alertava os
mareantes, mas sim o seu próprio caminho, observando com minúcia alguns dos
viajantes, do alto do pedestal almofadado.
A companheira mais velha, a Mãe, arriscando com
alguma segurança, tentava certificar-se de que a filha não tivesse algum
percalço com os solavancos e nas curvas.
Após um olhar que parecia distraído a todo o espaço
interior, recomeçou a inspecção, mas agora com a minúcia de quem procura alguma
coisa.
Não sei se terá visto em mim algum pormenor que lhe
prendeu a atenção, nem alguma vez chegarei a saber, mas que não me espanta por
aí além, pelo facto de os “pirralhos” juvenis sempre acharem em mim algum
sinal, qual não sei, mas deve estar relacionado com alguma figura das suas
fantasiosas incursões pelo mundo que o adulto não conhece; o certo é que me
fixou com atenção e não desagrado.
A fórmula que sempre deu resultado com estes seres
espantosos, foi a que ensaiei: uma cara de macaco, enrugando o nariz e
arrepanhando os lábios e logo o seu rosto pequenino se modificou, esboçando um
sorriso de beleza rara e tentou ensaiar a minha carantonha, por mais que uma
vez, talvez por ter pensado que não estava ainda bem como queria.
Repeti a carantonha e ela sorriu mais abertamente
quando repetiu a tentativa uma vez mais.
A Mãe, disfarçadamente e pelo canto do olho, ia
acompanhando a cena de teatro mimico, não ensaiada, só com dois actores, sem
encenador, mas a ficar já com uma plateia que era toda a do lugar dela para
trás! O palco era o espaço aéreo entre o seu púlpito e o meu, três bancos
atrás. E sorrisos não faltavam!
Ainda não tínhamos chegado à Ponte das Mestras, a
caminho da Barosa e depois de mais umas momices ensaiadas, a pequena actriz, a
segurar-se com força quando as curvas eram mais apertadas, empurrando a mão da
mãe que a segurava, quando uma voz bem timbrada e clara de modo a dar bem para
perceber, perguntou:
- Quem tu és? Como chamas?
Fingindo que lhe dizia um segredo, colocando a mão
direita em concha ao lado da boca, respondi: sou Zé! E como é teu nome?
- Eu sou Gui!
Gui? Lindo nome e linda menina!
- Posso ir p’raí? Pergunta.
- Mas que atrevimento vem a ser este?! Fingindo a
mãe zangada.
Vem, respondi.
A Gui não deve ter sequer ouvido o discurso da mãe;
desceu do banco, tentou passar entre os joelhos da mãe e as costas do banco da
frente, mas aqui o obstáculo deparou-se e só foi ultrapassado quando a mãe
desviou os joelhos para o corredor e, assim, a Gui se safou daquele aperto.
Ajudada pela mãe na parte inicial do trajecto,
segurando-a pela mão, logo outra mão a segurou e eu era o terceiro que fui ao
seu encontro e a segurei até ela, com alguma facilidade trepou para o assento e
se instalou, com ar de quem era uma profissional nestas andanças de camioneta!
A plateia manteve um respeitoso silêncio, mas duas
senhoras tiveram que tapar a boca e abafar um sonoro risinho!
- Não vais incomodar o senhor! Recomendou a mãe,
olhando por cima do encosto do banco.
Agora havia já rostos dos bancos da frente que se
viravam para ver o que se passava nas suas costas; do nosso lugar para trás
deviam ter começado a comentar o desempenho dos três actores, ouvia-se um
cochichar que se alterou com a paragem na Barosa e os alunos a entrar e darem o
sinal de que ainda estavam em liberdade.
A minha companheira não se interessou com a
alteração e acabava a inspecção minuciosa do companheiro junto a si sentado,
mirando-o bem da cabeça aos pés, sim, debruçou-se para ver que os meus pés
chegavam ao chão e os dela não.
Foi então que me olhou e eu aproveitei para iniciar
o diálogo: quem é aquela senhora? Perguntei-lhe, apontando para o lugar de onde
ela tinha vindo.
- É a Mãe! Respondeu.
E como chama a mãe?
- Susana! E tu tens mãe? Perguntou.
Tenho, mas está muito longe!
- Porquê? Inquiriu.
A casa dela é lá longe e está na casa dela.
- Onde é tua casa? Interroga a Gui, curiosa
É em Leiria, mas vou sempre para a Marinha Grande.
- Porquê? Insiste.
Porque é lá que trabalho.
- A Mãe também! Informa!
Também o quê? Mora em Leiria?
- Sim, mora em Leiria e eu também! E trabalha com o
Avô João!
Onde trabalha? Perguntei, perguntei?
- Não sei! Sobrancelhas franzidas , como quem é
apanhado em falta.
Agora já em pé!
- Oh Mãe, onde tu trabalhas? Perguntou em voz alta
para a Mãe ouvir.
- Não estás a chatear o senhor, pois não? Pergunta
a Mãe Susana.
- Não tou nada! Onde tu trabalhas? Repete a minha
companheira.
Como não houve resposta, eu disse-lhe ao ouvido:
deixa, deve ser segredo!
- O que é o segredo? Perguntou de imediato.
É… uma coisa que…que não queremos que as pessoas
saibam!
- Oh!...e encolheu os ombros.
O diálogo durou todo o trajecto, sempre a querer
saber mais e mais. E foi quando saímos da camioneta, a Gui pela minha mão,
quando a Mãe se apresentou: Que trabalhava na óptica Penedo e pediu desculpa
pelo “atrevimento” da filha.
Antes de nos separarmos perguntei à Gui: amanhã
também vens?
- Um encolher de ombros e o olhar interrogativo
para a Mãe, foi a resposta.
Dás-me um beijinho, Gui?
Deu dois e apertei a mão à Mãe, desejando-lhes um
bom dia e, como quem não quer a coisa, disse: até amanhã, à mesma hora.
A Gui desapareceu mesmo! Algumas viagens depois,
deixei de a ver, mas fui-me certificando que andavam por perto, passando frente
à óptica e ver se a Mãe lá estava.
Esta cena de autocarro foi comparada com outra,
passada em Luanda, no machimbombo de São Paulo para a Mutamba, há vinte e seis
anos, mas essa é outra estória que outro espaço lhe foi reservado.
VIII
Uma nota intermédia: o eclipse das estrelas.
No seguimento de um espirro, num Domingo de Páscoa
de há não sei quantos anos, perdi a voz; tratado à base de cortisona, dois ou
três dias passados a voz tinha regressado à quase normalidade, apenas um pouco
menos nítida.
Da cicatrização resultou um calo, ou pólipo, numa
das cordas vocais que, de vez em quando, bastando um esforço um pouco maior,
vinha a rouquidão, irritante e cansativa, por ter de falar mais alto e nem
sempre com resultados satisfatórios, notando-se a ineficácia do esforço quando
tinha de falar com pessoas no seu posto de trabalho, num ambiente fabril de
várias máquinas a trabalhar.
Perante esta dificuldade e os quase nulos
resultados da medicação, o médico de família requisitou uma consulta de
otorrino com vista a ser operado, o que a equipa da especialidade no Hospital
dos Covões confirmou e apontou para a cirurgia, ficando em lista de espera.
Fui operado em mil novecentos e oitenta e sete,
nesse mesmo hospital e menos de quarenta e oito horas depois da cirurgia, tive
alta hospitalar e em normalidade em termos de saúde.
Contrariando o meu antecipado pedido, a Lena e
Graciete acabaram por me ir visitar, chegando ainda eu não tinha saído do sono
anestésico.
A Graciete terá aproveitado para me pôr ao corrente
de alguns conflitos entre a Lena e o Nuno, acabando por me comprometer a voltar
a casa, de onde tinha saído dois anos antes, e tentar encontrar algum
equilíbrio.
Logo me apercebi de que se tratava do exagero
habitual, tanto mais que a Lena estava já a viver com o Rui e o que me pareceu
mais evidente, era a atitude fantasiosa, individualista e egoísta das pessoas.
Tentei que algo mudasse, mas como fui reconhecendo
que o esforço era em vão, só me restou a saída de repetir a atitude de oitenta
e cinco; em Setembro de oitenta e nove ir morar para a Marinha Grande,
definitivamente, pensava eu, mas a vida tem surpresas com que não contamos,
senão deixariam de surpresas ser.
IX
O meu encontro com a Susana, apenas visual até que
a Iris Margarida – a Gui – apareceu e veio alterar qualitativamente,
catalisando uma amizade que seria e continua a ser a mais bela e sã que alguma
vez sucedeu; iniciada por volta da Primavera de oitenta e oito, teria ela pouco
mais de dois irrequietos e cativantes anos de idade!
Foram poucas as vezes que nos encontrámos, sempre
na camioneta das oito para a Marinha Grande e menos ainda aquelas em que a Gui
tomou parte, mas marcaram o ritmo do futuro dos três, duma forma difícil de
explicar, deixando em mim um sentimento de profundo afecto que em que a
alteração havida tem sido para melhor, mesmo com a ausência de ambas pouco
tempo depois e duma forma tão subtil como foi a do nosso encontro.
Notei a falta de ambas, mas se à Susana sempre a ia
vendo, quando propositadamente passava frente à óptica e a via a trabalhar ou
no seu local de trabalho, à Gui não mais a voltei a ver, até quase ao final do
ano de oitenta e nove, como noutro espaço narrarei.
Vi ainda a Susana, uma ou duas vezes, em casa ou na
companhia da Lena e do Rui e pela Lena soube que andavam a estudar à noite, ambas
tendo o alemão como disciplina.
Numa dessas vezes acompanhámo-la ao alto da Calçada
do Bravo para ir buscar uma viola, que só por dedução, mais tarde, soube que
era a casa onde tinha morado anteriormente.
X
No final do Verão de oitenta e nove, comprovada a
incapacidade de viver com a família, por motivos que eram sempre os mesmos, fui
morar para a Marinha Grande, como mais adiante será tratado com outro pormenor
que aqui não faço.
Trabalho e reuniões que iam pela noite dentro,
inviabilizavam muitas vezes a utilização dos transportes públicos, em que o
último a sair da Marinha para Leiria era às vinte horas e quinze minutos;
algumas vezes regressava a Leiria de táxi ou algum colega me levava no seu
carro.
A opção de me instalar na localidade onde
trabalhava teve muito a ver com a dificuldade antes referida.
Como a casa não tinha mobília e da separação não
trouxe mais do que meus objectos pessoais e roupa de uso corrente, tive que
apetrechar o domicílio com o indispensável para viver nas condições mínimas.
O espaço era muito e os móveis nenhuns.
A crédito comprei o frigorífico e colchão, que foi
assente no chão do quarto, sobre placas de cartão canelado que levei da
empresa; o televisor, a preto e branco, foi-me emprestado por uma amiga que o
tinha substituído por um a cores; o esquentador e o fogão foram comprados a
pronto pagamento, em segunda mão; a mesa da sala, chegada mais tarde, era da
Lena, também esta substituída por uma nova, assim como a pequena estante onde
depositara alguns dos livros, os adquiridos no período da estadia em casa do
Vladimiro, ou seja, de oitenta e cinco a oitenta e sete, mais uns quantos
títulos que tinha trazido comigo quando da separação – a primeira.
O restante, pouco mais, foi sendo adquirido aos
poucos, conforme me ia libertando das dívidas anteriores.
A cama, quando apareceu, foi já um ano e tal mais
tarde e teria sido deixada em casa da Lena por um dos “sem-abrigo” que, de vez
em quando, lhes caíam em casa.
Também esta ficou em casa do Anselmo quando voltei
para Leiria, tendo sido mais tarde recuperada por uma da Lena, acabando por
ficar abandonada quando esta casou e foi morar para outro espaço e, certamente,
melhor mobilado.
A cama e vários móveis, tiveram um acidentado
percurso, alguns deles parecendo até que andavam a imitar-me, desde que cheguei
a Lisboa e mil novecentos e cinquenta e dois.
XI
Estava há pouco tempo instalado na Esperança de
Brito, penso que ainda na fase de arrumações; era sábado e ainda não habituado
ao novo habitat, acompanhado de alguma nostalgia, resolvi ir almoçar a Leiria.
A distância entre casa e Rodoviária era pequena,
não mais de quinhentos metros e por isso a fiz, a pé e devagar; devagar seria o
elemento novo por que a pé tinha de ser.
Atravesso o parque, bem diferente do que hoje está,
pela passadeira para peões em frente à Residencial Paris passo para o outro
passeio e quando estava a passar frente a um pequeno stand de automóveis, que
antes fora uma loja de móveis, ouvi vinda de trás, uma voz familiar, deliciosa,
de criança que chamava:
- Oh, Zé! Oh, Zé!
Quem havia de ser para me deixar com ar espantado!
A Gui, mais alta e mais desenvolta, que corria na minha direcção! Peguei nela
ao colo, beijei-a e com o seu braço esquerdo em volta do meu pescoço, apontando
para a Mãe, parada no passeio, mesmo em frente à porta da farmácia, a sorrir.
Mesmo antes de nos cumprimentarmos, apressou-se a
informar:
- Estávamos no self a ver o que havia para o almoço
e a Gui a passar, começou a chamar e a correr para si!
Que espantado eu estou! Com o tamanho dela e com o
vosso aparecimento! A Gui está tão alta! E desenrascada, agora mais! Por onde
têm andado?!
- Para onde você vai? Perguntou a Susana.
Pensei ir almoçar a Leiria, ainda não estou
habituado à Marinha, ao fim de semana, pelo menos. E que fazeis vós por estes
lados? A tratar do almoço já sei.
- Nós moramos ali – apontando para a primeira torre
do outro lado da avenida – no sexto andar!
Não sabia, mas fico bem feliz por saber isso e
sobretudo por vos ver e com esse belo aspecto!
- Você não quer almoçar connosco? Perguntou a
Susana.
- Oh, Zé, almoça! Reforçou a Gui, segurando uma das
minhas mãos.
Para falar com franqueza não tenho nenhum
compromisso em Leiria e terei muito prazer em almoçar convosco. Há tanto tempo
que não via este diabrete!
- Que bom, saltava a Gui, agora agarrada à minha
mão cos as suas pequeninas mãos.
- Vamos lá então escolher, avançou a Susana.
A opção recaiu sobre arroz de pato, escolhemos um
vinho de fraca qualidade e barato, havia pouco para escolher e sobremesa nada,
a Susana disse que tinha fruta em casa.
E lá fomos para o sexto andar, apartamento B, com
cozinha, sala, dois quartos diminutos, um deles não foi feito para ser quarto,
mas acabou por ser o da Gui e uma casa de banho.
Os móveis eram também poucos, tal como na Esperança
de Brito, mas não era comparável este espaço com o meu! Era como do dia para a
noite, pois tinha um aspecto novo e asseado! A Esperança de Brito tinha uma
vantagem sobre este: o Sol que desde o fim da manhã, até desaparecer na orla do
pinhal em frente, ficava sempre de frente.
Assim fiz o primeiro e inesperado contacto com o
espaço a que mais tarde, pela forma como passou a ser usado, eu decidi
chamar-lhe a Tertúlia do Sexto B, titulando este texto que ainda vai ser
ampliado.
XII
A mudança de residência para a capital do vidro,
para além de ter por objectivo principal o distanciamento do núcleo familiar
formado como consequência do casamento, com o qual a rotura foi inevitável e
para bem comum face aos antagonismos crescentes e insanáveis, tinha também como
motivação secundária, as responsabilidades assumidas na área da coordenação de
alguns dos serviços da empresa e ainda as de membro da Comissão de
Trabalhadores e Encarregado da Segurança, na componente de Higiene e Segurança
no Trabalho.
Todas as funções exigiam não só mais horas de
ocupação na prática, mas ainda o estudo e formação na parte teórica.
Morar na localidade onde exercia, disponibilizava
ainda o tempo que muitas vezes faltava, condicionado como estava aos horários
dos transportes para Leiria e desta para a Marinha.
Se tinha que me preocupar com a adaptação ao meio,
que iria trazer algum cansaço, a disponibilidade de mais algum tempo compensava
no menor esforço mental.
XIII
A entrada no circuito das duas colegas de viagem,
quase desaparecidas durante algum tempo, vinham introduzir nele, naturalmente,
um outro ritmo e novos saberes, como foi comprovado nos tempos que se seguiram,
quase só à noite e durante a semana, só mais tarde incluiu o fim- de- semana
também.
A Gui crescera muito, não só na altura, mas também
nas atitudes, o que desconhecia e que já teriam a ver com a sua nova vida no
colégio infantil.
Aquilo que nas viagens de meia hora revelava, por
valioso que fosse, só ganhava relevo pela novidade e sempre alegre trajecto.
Quando dois anos passados e num espaço para ela
familiar, foi um salto qualitativo que não conhecia nem imaginava.
A frequência do jardim infantil e os saberes
ensaiados durante o dia, eram depois praticados em casa, sem preocupações de
ordem técnico-pedagógicas, a que a sua juvenil idade e inquieto temperamento se
não adaptaram nunca.
E ali começou mais uma das minhas formações,
porventura a mais profícua e eficaz.
Não sei como procedia com a mãe, mas eu era para a incansável
criaturinha, que só se rendia quando um sono profundo a prostrava, a cobaia
para ensaiar, aplicadamente, tudo o que fluía ao pensamento: tanto era o filho
que tinha de comer a sopa toda, do aluno que tinha que aprender tudo, ser o
bebé dela e ter que dormir muito sossegadinho.
Deu-me sempre um prazer enorme participar daquela
peça de teatro que ia evoluindo naturalmente, em que aplicava saber e criação,
ao ponto de prometer castigar se eu não portasse bem!
Aquele quarto diminuto, a abarrotar de bonecada,
sobretudo barbies e apetrechos de cozinha e outros, tais como camas e móveis de
quarto para as plásticas utilizadoras, transportava-me como num filme de
animação juvenil e ficcionado, a um tempo e uma idade que não tivera e que
devia ter gostado se o tivesse vivido! Tive outro, um tanto diferente, que não
tinha este requintado tratamento:
- Vais comer a sopinha toda, é muito boa, senão a
mamã fica zangada! Está bem?
E aí estava eu, de colherinha de plástico na mão
direita e prato de sopa na outra mão, aguardando que a mamã decidisse que já
chegava!
- Agora vais dormir, para acordares bem-disposto! E
não faças xixi na cama, senão és feio!
O sono autorizado foi pequeno, eu a fazer de conta
que dormia e já aparecia uma nova cena na peça a ensaiar!
- Agora ficas a brincar com os brinquedos, enquanto
a mãe vai às compras e te traz um chupa! Gostas mais de qual?
Assim, noites e noites, enquanto a Mãe, na sala,
aturava os destemperos da Dulce, os silêncios cúmplices do Paulo ou as
conversas pastosas e por vezes irritantes do Anselmo e o olhar cansado da
Irina.
- O que é feito do Zé? Perguntava-se o Anselmo
quando o assunto em discussão, por vezes gritado, perdia vigor até outro
aparecer a despoletar nova discussão!
- Está ao serviço da Gui, respondia a Susana!
- Ele farta-se de ouvir as nossas conversas,
preferindo ouvir as da Gui e ele é que tem razão! Acrescentava o Anselmo.
Algumas noites, de tão cansada, caía num sono
profundo, estivesse sentada ou deitada; só mesmo o sono a dobrava.
Acomodava-a o melhor possível no espaço que restava
na cama invadida por barbies e camas ou salas de jantar em plástico, tapava-a,
apagava a luz e ia eu ter com os já calmos tertulianos.
- Já aterrou? Perguntava-afirmava a Susana.
Dorme como um anjo! Respondia eu.
E então, mais baixo agora o volume das vozes, as
conversas continuavam, mas estava muito fora do contexto do tema.
Muitas noites, quando a dona do espaço se cansava,
virava-se para a assembleia e, xau-xau, até amanhã que é dia de trabalho e não
batam com a porta ao saírem!
Sempre gostei desta forma tão prática de dispor bem
e pôr à vontade os amigos.
Era quase sempre eu o último a sair ou então saia
quando as duas já dormiam, algumas vezes a mãe levava a Gui para a sua cama,
mas a mais nova não se manifestava; continuava por conta de Morfeu!
Por vezes, poucas, quando a Gui estava com alguém
(só mais tarde soube que era com o Pai) e jantávamos em minha casa, a Susana
dormia lá, no colchão novo que sem a armação estava no chão, sobre placas de
cartão e eu dormia num de espuma, colocado ao lado do outro, sobretudo no
Inverno porque havia um só aquecedor a óleo.
Havia mais dois quartos, mas só um tinha armação de
cama, sem colchão, não sendo por isso utilizado.
Não foram muitas as vezes em que isto sucedeu e a
primeira vez dormiu também a Gui, sendo a primeira a dormir e depois, para a
não acordar, sugeri à Susana que lá dormisse, a cama era de casal e dava bem
para ambas.
XIV
Tempo de férias. Em Agosto a empresa não laborava
durante três semanas, que eram aproveitadas, mal quase sempre, para fazer
alguma manutenção, mas de facto porque os principais clientes de embalagens,
principalmente dos detergentes e cosmética, também fechavam nesse mês e era de
todo impraticável estar a produzir para stock por não haver armazéns que
chegassem e além do mais era um erro financeiro.
Também em Agosto, pelo menos no ano seguinte ao da
minha mudança para a capital do vidro, a Gui não tinha Infantário, e assim foi
só juntar o útil ao agradável: iriamos ambos fazer férias para São Pedro de
Moel, praia ali pertinho e bem servida de transportes naquela época, dita
balnear.
A praia para a Gui era ir para a piscina, nunca
cheguei a perceber porquê, mas como também não sou fervoroso adepto da areia,
aproveitava a ideia por ela avançada: duas toalhas, ama fatiota de banho de
reserva, para ela mudar quando fosse necessário, chinelos para ambos,
braçadeiras para ela e uns trocados para o lanche, pois o que levamos é sempre
insuficiente, sobretudo quando há atletas de alta competição como a Gui, horas
seguidas dentro de água, o apetite não perdoava.
Mal chegávamos logo ela, desembaraçada, se livrava
da indumentária da cidade ou da viagem e já de tanga vestida logo avançava para
a piscina, a das crianças onde andava à vontade e sem perigo, a não ser uma ou
outra queda quando o entusiasmo era maior!
Era tal o prazer que devia sentir que cheguei a
fazer má cara para a convencer a sair da água por algum, quando já “batia o
queixo” com frio.
Uma massagem aplicada com ela deitada sobre a
toalha, aquecida e enxuta pelo Sol, ficava pronta para mais uma maratona de
saltos e trambolhões dentro de água.
A piscina grande exercia sobre ela uma atracção
incrível! Os olhos dela dirigiam-se para lá como se um íman os chamasse sem
cessar! Desde o primeiro dia, o suborno foi ensaiado, ameaçando que não
brincava mais comigo, quando eu lhe dizia que só amanhã, mas deve ter-se
apercebido de que o adiamento para amanhã era uma desculpa de “mau pagador” e
não desarmava:
- Oh, Zé, quando tu fores ao banho, eu também!
Tenho braçadeiras e já sei nadar! Garantia ela.
Não era uma nadadora” exímia”, como o não seria
outra pessoa com quatro anos de idade, mas coragem e determinação não faltavam.
E ao segundo dia já ela estava aos saltos, quando a
caminho da piscina eu lhe prometi, perante o desassossego dela, que depois de
aquecer ao Sol e ficar seca, iriamos ambos. Foi uma festa: abraços, beijos e
puxões de orelhas!
E assim começaram as aulas de natação, sem
professor.
Entrava na piscina pela parte menos funda e ela na
beira do tanque, sentada; pegava-lhe pelas axilas e deixava-a entrar em pé
dentro de água e com ela pela mão mostrava até onde tinha pé! Podes nadar daqui
para lá e de lá até aqui, demonstrava-lhe e também daquele lado para este, era
o da largura. Da escada para lá não tens pé!
- Está bem, dizia ela, mas tu não vais embora!
Claro que não vou embora e quando for tu vais
também!
Penso que fingiu sempre que tinha ouvido, pois mal
eu me fingia distraído já ela ia para lá da escada, onde já não tinha pé!
Lá ia eu no encalço do fedelho atrevido e ela
sempre a provocar e a rir!
Quando me apercebi que as braçadeiras e a
regularidade dos movimentos dela e sobretudo a grande resistência, ao frio e ao
cansaço, entrei também no fingimento e lá ia ela, navegando à vista, para a
parte mais funda da piscina!
- Oh, Zé, aqui ainda há pé? Perguntava ela.
Sempre me pareceu que ela estava apenas a provocar,
mas como não tinha a certeza e para ela se não assustar caso não estivesse a
brincar, respondia-lhe: tens, mas agora nada para aqui até onde eu estou. E
assim fazia. Divertia-se ela e eu não me divertia menos! Apenas um senão
perturbava a minha satisfação, o estar a mentir e a Gui se aperceber um dia!
Desde muito pequeno acompanhava meu pai para os
Prados, a horta que cultivava. Por vezes logo a seguir a uma tempestade com
muita chuva ou nos apanhava na horta e tínhamos que esperar que parasse. A
água, em quantidade grande e caída em pouco tempo, não era absorvida pela pouca
terra dita arável e abria sulcos levando ladeira a baixo pedaços de terra,
deixando a rocha à vista! Mal chegávamos à aldeia e via algum dos donos das
terras onde tinha sucedido tal erosão, logo dizia: olha, fulano, a tua terra
foi toda levada! E logo eu corrigia: não foi nada, são só uns regos, a terra
está lá no mesmo sítio! E quando outros se dirigiam a nossa casa, por terem
terras para aqueles lados, e perguntavam que má noticia lhe dava, ele, meu Pai,
voltava a exagerar e eu corrigia!
Era isto que eu evitava sempre: mentir, sobretudo
às crianças! É que ainda na véspera tinha dito que a partir da escada não tinha
pé e agora dizia-lhe o contrário…estava a colocar-me numa situação embaraçosa,
mesmo que não houvesse motivo para tal. Ela sabia lá o que era mentir?! Queria
era andar dentro de água! E assim ia mentindo a mim mesmo!
Combinávamos que a seguir ao lanche não íamos mais
para a água e era então que as aulas de teatro tinham lugar. Pegava nos sacos
com os brinquedos e íamos para um espaço com areia e relva ao fundo da piscina
grande. Dispunha o material de cozinha como achava mais adequado, instalava as
duas barbies que nunca largava e passado pouco tempo já havia chá e sopa para
todos.
Quem mais sofria eram as barbies, quando se
“recusavam” a comer a sopa e ficavam bem avisadas de que se a não comessem não
havia gelado para elas!
Eu tinha que comer duas doses, alegando que eu era
grande e tinha que comer muito!
Quase vinte anos depois, quando passei a ser visita
frequenta da família, na Alemanha, já separadas por motivos profissionais da
família, tendo a Gui ficado em Berlin e o casal foi para o Sul, onde o Boris
passou a exercer, passou a ser a Mãe da Gui a dizer que eu era “um lingrinhas a
comer” e que “como eu mais que você”! Dizia ela e não era verdade! Ela, sim,
comia pouco e bebia muito…! Chá!
Voltando à “praia”. Ao fim de um dia extenuante
para ela, ainda tina energia suficiente para ir a pé das piscinas à paragem das
camionetas, no estremo oposto da localidade.
Sempre a falar, a perguntar coisas que ainda não
devia ter percebido, mas a recomendar-me atitudes e formas de fazer bem, quando
se apercebia que eu tinha falhado aqui ou ali, quer no descascar dos legumes
para a sopa, quer a vestir as barbies.
Mas mal se sentava no banco do autocarro, mesmo
antes de este arrancar, já a guerreira se entregara, por inteiro, aos braços de
Morfeu e nem posição mais comoda procurava, tal como aterrasse, neste caso
abancasse; era só tapá-la com a toalha enxuta e só acordava, nos dias em que o
cansaço era menor, na paragem frente à rua, cujo nome não recordo e onde se
situam a Upla e o café Paris. Então íamos a pé até minha casa, na rua Esperança
de Brito. Mas dias havia em que não acordava e então a forma adoptada era
levá-la ao colo, e se acordava antes de chegarmos, tinha que ser às cavalitas,
como ela gostava!
Quando chegávamos ainda o Sol entrava directo pela
porta que dava acesso à pequena varanda; então era o banho que nunca mais
terminava, tendo que ir acrescentando água quente quando me parecia que já não
estava suficientemente quente.
Eu tomava duche primeiro, lavava a banheira com
todo o rigor e só depois punha a água quente a correr, para a princesa ir fazer
o seu banho e das barbies.
Enquanto ela falava com as companheiras dentro de
água eu aproveitava para cortar a barba e responder às perguntas sobre alguma
coisa que não estava clara: porque os homens cortavam a barba e tinham pêlos
nas pernas. A resposta era de forma que ela entendesse, mas quando não percebia
voltava logo à carga.
Não podia ser a brincar que eu respondia, como
fazia quando se tratava do teatro de comer a sopa e preparar os legumes ou como
fazia quando algum conhecido (e eram tantos), na camioneta, me perguntava: “é
tua neta?” E eu respondia: é minha irmã e também minha mãe, dependendo do papel
que me é distribuído no teatro que estamos a representar! Riam, alguns, mas
outros, mais calhandreiros, não ficavam satisfeitos com a resposta, lá
esclarecia: é filha da Susana, neta do Almeida Fernandes! Ah, comentavam alguns
dando-se por satisfeitos, mas outros aproveitavam para acrescentar: “não
conhecia a menina e já nem me lembrava da mãe”.
Depois de a óptica fechar e por vezes antes,
aparecia a Susana e aí combinávamos como ia ser o fim do dia e o jantar, este era
a maioria dos dias em casa delas, ou seja, no sexto B.
E assim a Gui foi crescendo, entre a camioneta das
oito para a Marinha, o sexto B durante quase dois anos “escondida” ou sem ser
vista e depois no convívio, não com os convivas em geral, mas com o Zé em
particular, até à hora de ir dormir.
Assim sendo durante o ano de noventa e noventa e
um, excepto o tempo da ida da Mãe à Alemanha do futuro, em noventa e dois.
Em noventa e dois, prepara a partida da Mãe,
inicialmente, ficaram na Esperança de Brito, vindos da tertúlia, a máquina de
lavar roupa e três caixotes de cartão com vários apetrechos e também as barbies
da Gui, a aguardar melhor destino.
A tertúlia desfez-se com a mesma naturalidade com
que se tinha ido formando e funcionando: sem lágrimas, antes pelo contrário,
com festa de despedida da primeira das tertulianas e o esboroar do grupo, pois
o norte magnético que a bussola de cada um ia indicando era mesmo aquele e
nunca outro.
Parece que nenhum, a não ser eu, deu pela falta da
companhia que perderam, ou por que não foi sentida ou por fingirem que não
fazia falta.
Ainda hoje, passados tantos anos e tantas coisas
boas terem acontecido, ainda contínuo a cimentar a certeza de que nada pode
substituir aquele período de tão sadia convivência e profundo carinho.
Talvez por a tertúlia ter existido apenas na minha
sensibilidade!
Reis Caçote
Dig./04/14
Sem comentários:
Enviar um comentário