sexta-feira, 29 de novembro de 2019

TERTULIA DO 6º B







A TERTÚLIA DO 6º B
ou
A CASA DA GUI


I

O transporte colectivo e sua função social…

Durante quase vinte anos, sem transporte próprio e a trabalhar cerca de dez quilómetros de distância do local de residência, o mais natural seria, como foi, a procura de transportes colectivos, autocarro ou comboio, outros meios não havia então e hoje menos há, tendo sido votada ao abandono a linha do Oeste que ligava e os carris ainda ligam, os comboios é que não, Lisboa à Figueira da Foz!
Só durante os primeiros tempos foi usado o transporte particular de um colega que trabalhava já na empresa e antes trabalhámos no Tribunal Judicial de Leiria e morava num dos dois bairros, hoje ditos sociais, nos arredores de Leiria e tinha os filhos num colégio no outro estremo da cidade, onde os ia levar de manhã e buscar à tarde.
Fazíamos uma vaquinha e no fim do mês pagávamos uma importância, pouco mais que simbólica, para ajudar na despesa de combustível.
Anos mais tarde, já na década de oitenta, voltámos a usar o transporte particular, desta vez de um engenheiro, recentemente integrado nos quadros da empresa, que morava num dos bairros recentemente construídos na periferia da cidade, tendo também um dos dois filhos, o mais velho, num colégio infantil junto da Sé Catedral de Leiria; o mais novo e a esposa, educadora infantil e trabalhava num dos infantários da Vila da Marinha Grande, levando com ela o mais pequenino.
Esta prévia explicação serve apenas para que se perceba a pouca mobilidade de quem trabalha fora da localidade da residência e então me situar naquele que foi o veículo de tudo o que depois foi ocorrendo, em termos de convivência, de amizade e de muito carinho entre três pessoas, com idades e vivências muito diversas.
Este transporte colectivo foi, sem dúvida alguma, a camioneta de carreira das oito da manhã, de Leiria para a Marinha Grande.


II


Salvo raras excepções de atraso, por qualquer das várias razões, a camioneta saia da gare de Leiria, na Avenida Heróis de Angola, às oito horas em ponto.
O percurso, por vezes alterado por motivo de obras ou acidente que impedisse a passagem, não sendo difícil havê-los numa cidade por dentro da qual passava a Estrada Nacional número Um, de Lisboa-Porto, chegando antes a ser Auto-Estrada número Um, designação que tomou só depois de ser concluída a auto-estrada que, com mais ou menos remendos e alterações, ainda é a mesma, dizia que o percurso era virar à direita ao sair, descer parte da Avenida citada, depois à esquerda pela Rua São Francisco, novamente à esquerda pela Rua Mouzinho de Albuquerque, entrar no Largo Cinco de Outubro e contornar o Jardim Luís de Camões, rodar um pouco à direita para entrar na Rua Machado dos Santos, para no Largo do Município voltar à direita e então sim, encontrar a que foi e ainda hoje assim é conhecida, Estrada da Marinha Grande e que alguém resolveu mudar o nome, para rua dos Mártires.
Quando a esmola é grande…! Alto, lá, não é de pobres nem de esmolas que quero escrever, isso tem pano para mangas e não é para aqui chamado! O queria dizer era que, quando o burgo é pequeno e os candidatos à toponímia são muitos, acaba por dar esta salgalhada! Heróis, Santos, outro nome ligado à ocupação, depois a República e o nosso mais celebrado Poeta, vem um dos fundadores da República e como as grandes cidades têm um espaço, de paragem ou passagem, dedicado aos Mártires da Pátria, Leiria tinha que ter e como não havia rua disponível e os nomes das outras não cederam o seu lugar, e acho muito bem, porque mártires foram, são e serão todos, uns mais que outros, mas mártires, assim alguém teve a ideia de que estradas há por todo o lado e são poucas as que têm nome, por que carga de água a Marinha Grande teria direito a nome?! E, zás, ficas a ser Rua dos Mártires! E assim está, não sei onde acaba e nem vou saber, para mim e sobretudo para este remover das recordações passadas da memória para o rascunho, depois para o papel A quatro pela máquina de escrever e agora…as voltas que a vida e as memórias dão…!...voltam para a memória, mas desta coisa milagrosa que é a memória do computador! Fantástico! Para quem andou de lousa em punho e ali começou a vida a aprender escrever…e agora estar na chamada terceira revolução industrial…!...é obra! Espero que não haja um apagão universal e que por ele seja tragada, porque posso, ou não estar em condições de repetir, por a minha também se ter apagado, como espero que suceda um dia, mas não tenho pressa!


III


Era um dos horários mais utilizados, o das oito, por ser aquele que mais se ajustava ao horário de trabalho de quem o iniciava às nove, como eram os funcionários públicos e dos outros serviços. Os da indústria, ligados directamente à produção, ou trabalhavam toda por turnos as vinte e quatro horas, ou então iniciavam às oito da manhã.
Era neste horário que os estudantes que frequentavam as aulas na Marinha, seguiam também, os de Leiria, da Barosa e de Albergaria, aqui em maior quantidade por ser um lugar com alguma densidade populacional e ficar quase à entrada da Vila da Marinha Grande.
Era um grupo animado o dos estudantes, como se iam conhecendo bem, os da Barosa faziam uma ruidosa recepção aos iam de Leiria e os de Albergaria eram recebidos festivamente pelos que já lá estavam! O problema dos lugares sentados, ou melhor, a falta deles por estarem ocupados, era o tema mais usado para a galhofa: querias um lugarzinho para sentar essa padaria?! Não querias mais nada?! Vai apanhar a camioneta a Leiria?!
Às terças-feiras era um pouco mais diversificado e devia ser também ao sábado, mas esse não sei como era, a partir do ano em que foi instituída a “semana-inglesa”, não trabalhar ao sábado até às treze, como antes e nessa altura ainda não usava os transportes públicos.
Eram os dias de mercado em Leiria, hoje é mais conhecido por feira, porque há o mercado todos os dias e que antes se chamava praça! Se alguém vier a ler este “riquíssimo texto de alta cultura” deve dizer: mas que grande confusão! Uma feira que foi mercado, um mercado que foi praça…! Espero que não arrume para o lugar dos esquecidos, como eu fiz a tantos escritos desde que aprendi a ler o que não era obrigatório! Se o fizerem, estão no uso de um direito e fazem o que a maioria não faz: ou não lêem nada, ou lêem enão sabem interpretar ou então, que é muito mais cómodo, tudo está bem desde que alguém lhes diga: isto é assim!
Voltando à camioneta das oito de Leiria para a Marinha e às terças-feiras de mercado (ou será de feira?) que naquela época ainda era animado! Agora são dias de feira, como antigamente era a de Março, mas sem carrosséis e outras diversões, onde se vende de tudo, um pouco mais barato e nalguns casos em muito, como dizem os pregoeiros, boa parte deles de raça cigana, que transformam em arraial os acessos ao recinto, nem sempre o mesmo, variando de acordo com a boa ou má disposição do edil do pelouro das feiras e mercados, pensam os feirantes, mas não é! O que obriga a mudanças frequentes tem a ver com a mesma estratégia de médio e longo prazo: aliviar da concorrência as grandes superfícies para que seus lucros subam, nem que tenha de ser com o desaparecimento total do comércio tradicional, o que quase já sucedeu. Há casos em que não se nota a falta, porque não eram muito estimadas, mas o desaparecimento do que seja vai provocando a desertificação do centro da cidade, das cidades, porque a moléstia é a nível do país.
É a modernidade, é a sociedade de consumo, é o mercado livre, é a globalização! Reais pulhas estes da globalização! Porque será que no mundo se está a agravar o que já era mau? Porque será que os grandes merceeiros não procuram o interior dos países, uma vez que a globalização devia servir todos e não apenas os que já nada lhes faltava?!
“Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” assim diz o catecismo na sua oração! Mas funciona tudo ao contrário! Empurrai-nos para a tentação até cairmos e não nos livreis do mal.
Eu não irei cair na tentação de zurzir nas aldrabices dos aldrabões aqui neste espaço, só porque estou a escrever, uma vintena de anos depois de os factos terem ocorrido. Por isso mesmo volto às terças-feiras e à camioneta das oito:
Eram dias de brilho novo: os habitantes da Barosa que não criavam animais de capoeira, ou por não terem condições físicas, ou por não terem a vida organizada para os criarem, era à feira de Leiria que os iam comprar e aproveitavam para adquirirem outros bens, que depois teriam que levar para casa.
Assim, a camioneta das oito, para além dos passageiros habituais, passava a ter as alcofas com couves, nabos, cenouras, galos a espreitar por entre a rama dos nabos e do alho francês, para poder respirar! Os balanços da má estrada e os encontrões nas curvas o bicho era apertado e em vez de cantar de galo, desatava a barafustar numa escandaleira infernal só porque alguém, para se manter em pé, lhe tocava na crista que ela não via, mas a defendia como o rei da capoeira, agora sem capoeira e o mais certo é que nunca mais tivesse, pois iria direitinho ao forno, mal o despissem, ficando uma partes para a canjinha ou talvez arroz de cabidela, para canja são mais indicadas as galinhas, porque os médicos o que receitavam era cama e caldo de galinha, porque era não sei, era coisa de médico, mas ficava sempre mais bonita uma canjinha com um ovo ainda sem casca a boiar à superfície e os galos não têm ovários para essa iguaria!
Também apareciam patos, menos vezes, mas quando viajavam connosco e alguém os incomodava era uma gritaria sem nexo, penso que até os mudos refilavam.
Estes barulhentos passageiros, que não pagavam bilhete, começavam a ficar pelo caminho aos poucos, por vezes logo na Ponte das Mestras, depois na primeira da Barosa e só mais raramente alguns iam até meio da subida e no lugar do Sobreiro, onde é o cemitério, muito raramente chegava algum.
Era então que a veia humorística dos passageiros de todos os dias se manifestava!
- Hoje, os galináceos vinham bravos! Aquele ganso que ficou na Barosa para o parecia o tipo da banda da minha terra quando saca uma fífia bem aviada do seu clarinete desafinado! E o raio do coelho, mesmo com as patas atadas, conseguiu lançar a confusão geral, tais eram os saltos que davam! Esta gente devia pagar o bilhete a dobrar! E outros que não recordo, mas tinham a ver com a disposição dos passageiros tradicionais.
A Isabel, da empresa Belchior, aproveitava tudo:
- Até me está a crescer água na boca a pensar naquela galinha que ficou na Ponte das Mestras!
Na Barosa, sobretudo, saiam a maior parte das alcofas dos legumes e dos galos e patos que se cruzavam com os miúdos que iam para a escola; era um chinfrim dos diabos! Tanto em alguns dias que o motorista dizia que não arrancava dali enquanto não estivesse tudo acomodado, pois não queria ter responsabilidades; vinha a saraivada de apupos e dichotes: oh, mestre, eu preciso estar na escola às oito e meia e não vou desculpar-me com o desembarque dos patos! Não foram os patos que originaram a confusão, foram os galos, se calhar fartos de andar de camioneta e é só uma vez na vida, enquanto nós é todos os dias, com patos ou sem eles!
- Vamos lá a sentar, ordenava o motorista e o cobrador, na época ainda havia cobradores, ia pondo ordem na turba.
A de Albergaria, já sem criação a desembarcar, era a mais movimentada, os miúdos da escola eram aos magotes e como conheciam os que já vinham de Leiria e da Barosa, disputavam o lugar, alegando que os sentados já vinham no bem-bom há muito tempo e era a vez de eles beneficiarem.
Era boa rapaziada, faziam muito barulho, mas pouca guerra, o que era bom.
Quase todas as semanas apareciam rostos novos, homens ou mulheres; uns continuavam e engrossavam o grupo, que seria hoje seria chamado de núcleo duro da viagem. Outros não apareciam mais que uma vez ou duas e não faziam história, nem da viagem, nem dos registos da Rodoviária.
Uma das caras que ficou para a história do grupo, foi uma funcionária da Feis-Fábrica Escola Irmãos Stephans, penso que economista e que com a pressa dos afazeres da madrugada, fazia a maquilhagem na camioneta, com a naturalidade com que eu lia o jornal ou ela em casa, frente ao espelho, mas que naquele lugar, com os solavancos do percurso era uma carga de trabalhos, sobretudo quando chegava aos lábios, última das operações: passava o baton, mas, uma valeta mais funda, ultrapassava o perímetro que queria pintar e lá limpava e voltava a fazer o contorno, por vezes duas e três vezes! Ah! Com o risco dos olhos também era frequente, corrigia duas e três vezes, mas nunca vi um gesto de revolta, nem sequer um ar de aborrecimento! Era uma coisa que tinha de ser feita e repetia as vezes necessárias.
Havia duas educadoras de infância, sempre aprumadas, um vendedor de tintas para a construção civil, sempre calado e com ar de abatido, que antes tinha sido comerciante de pronto a vestir para senhora, em Leiria, negócio que não terá corrido bem e deve ter abandonado.
Alguns dos passageiros da manhã cruzavam-se ao almoço, num dos restaurantes do centro da Vila e ao fim do dia, na camioneta das dezoito e um quarto, para regressarem a Leiria.
Quase certo é que outras camionetas e outros pontos do pequeno País terão percursos parecidos, com seus protagonistas, seus tipos de linguagem e temas de conversa.
Os que mais recordo, com saudade e muita tristeza, eram os metalúrgicos da Lisnave e Setenave, em grupos compactos de macacos azuis vestidos, avançando como tropas de choque pelo Terreiro do Paço em direcção aos barcos que faziam o percurso para o Barreiro e Cacilhas; a maior parte levava numa das mãos o capacete e na outra a lancheira com o almoço, que não seria muito avantajado, mas de certeza sabia bem, comido junto à muralha do molhe onde os grandes barcos eram reparados, sobretudo os de carga e petroleiros.
Não se percebia o que diziam, tal era o número de vozes que parecia virem do chão, acima do ruido das botas que se arrastavam pelo alcatrão em direcção a mais um dia de esforçado e mal pago trabalho.


IV


Uma manhã, de tempo mal encarado e a ameaçar chuva, mas que no resto parecia ser igual, eis que, na segunda paragem da camioneta das oito, aquelas que ainda hoje existem, a camioneta e a paragem, esta situada a meio da descida que existe entre a rua de Dom Nuno Alvares Pereira e o Bairro de Jericó, nas traseiras da ex-Escola Comercial e Industrial, hoje Escola de Domingos Sequeira, entrou, com ar cansado de quem teve de correr para apanhar a camioneta, uma nova passageira ou a não tendo visto antes, o que duvido, por ser difícil passar despercebida.
Alta, esguia, de cabelo quase ruivo e que se via bem não ser a cor natural e uns olhos que, mesmo não revelando alegria e que só ela devia ser natural, eram rasgados, duma profundidade irreal e de um desenho perfeito.
Não houve, de certeza, passageiro ou passageira que não olhasse a aparição e logo por todo o autocarro se começou a ouvir, sem se perceber, os comentários em surdina, que soavam como zoada de fundo; sempre que uma cara nova aparecia era motivo de comentário do grupo residente e sem grandes novidades para contar.
Mas desta vez a manifestação foi mais acesa e demorada, parecendo que algo de anormal se estava a passar ou iria passar! E passou.
Sentou-se num dos lugares disponíveis mais à frente, porque os primeiros eram quase cativos e era na gare que a distribuição se fazia, mal a porta do veículo era aberta.
Eu, como sempre fazia, sentava-me num dos bancos o mais atrás possível, assim me safando do pessoal da frente, quase sempre de língua afiada e a sentirem-se com direitos especiais por os terem adquirido durante os vários de uso permanente da carreira, antes dos Claras e da Rodoviária Nacional, após o Abril de setenta e quatro.
Aproveitava para ler o jornal que todos os dias comprava, mas mal a novidade entrou na camioneta, dobrei-o, meti-o debaixo do braço e logo começou uma luta, que foi assumindo contornos de derrota quando pensei que não iria lembrar-me de onde conhecia a nova passageira! O rosto fazia-me lembrar alguém conhecido, mas noutra época e não a localizava em determinado espaço geográfico, maneira mais segura para me recordar de alguma pessoa conhecida; eram o rosto e cabelo que não eram conhecidos, mas os olhos!…aqueles olhos garantiam-me que faziam parte de um registo bem nítido.
Como habitualmente faço, sobretudo durante e depois de deixar o Tribunal, quando procuro lembrar-me de alguém que sei conhecer, faço o percurso mental dos lugares onde poderei ter visto determinada pessoa e ao fim de algum tempo tenho a solução! Procedo como os policias, pegam na descrição para fazerem o retracto robot, mas desta vez não estava a resultar.
E dei por mim a recriminar-me mentalmente desta incapacidade de identificar rostos, mas o mal vinha já de longe e a recriminação não adianta nada; só quando um rosto era mesmo invulgar ou tinha particularidades muito especiais é que o fixava de imediato, não precisando do artificioso esquema mental para lá chegar; e este devia ser o caso, segundo a linha de raciocínio standardisada, mas a explicação do insucesso viria a seu tempo. Ou não viria mesmo.
A forma adoptada, sendo útil para algumas situações, era, não raras vezes, causa de embaraços, por me deparar com pessoas que me tratavam tu cá tu lá e eu, “moita carrasca”, apenas acompanhava de ouvido, pelo quase crónico hábito de ser simpático com todos, mesmo que não percebesse, nem do que, nem de quem se tratava!
A situação mais bizarra deu-se, uma noite, na sala de espera do doutor Felizardo, com a minha então esposa a aguardar a sua vez para ser atendida.
Do espaço designado por consultório saiu um homem, dirigiu-se a mim, deu-me um abraço, fez o interrogatório do costume, apresentei-lhe a Graciete e desatou a falar da sua “enxaqueca”, da forma como tinha evoluído e das melhoras que registadas. Mais de dez minutos terão decorrido na explanação da doença, eu continuava a ouvir e no momento em que eu estava quase a perceber qual era o tipo de maleita foi quando ele achou que estava na hora de partir, porque tina táxi em espera.
O abraço de despedido, o aperto de mão à Graciete, o beijinho ainda não estava tão democratizado como agora, e quando ele estava achegar à porta que dava acesso à escada e esta à rua, a Graciete dispara a esperada pergunta:
- Quem é este senhor, tão simpático?
Não faço a mínima ideia, mas ele me conhece de algum lado ou me confundiu com outra pessoa, não sei, mas deve ser do Tribunal!
- Mas tu saíste do Tribunal há dez anos! Exclamou a Graciete!
- E o pouco que falaste foi como se o conhecesses perfeitamente e alimentaste a conversa alguns dez minutos! Insistia.
- Parece impossível! Voz de enfadada ou até mesmo irritada e revoltada.
Pode parecer impossível, mas não é! Deves ter reparado que eu mal falei, apena me limitava a confirmar com o velho sim ou a negar quando era para negar e a apoiar aquilo que ele dizia ter feito e ter resultado! Não calculas o que isto me custa, mas as pessoas dirigem-se a mim como se eu fosse o seu confessor e não é fácil dizer, a quem se me dirige, que deve ser engano, coloca-te no lugar delas! Vês como o senhor ia com ar de alivio por ter achado alguém para desabafar!
- Isto é demais! Ainda criticava a Graciete.
Reconheço que é, mas que posso eu fazer?!
Esta parte gaga de manter um diálogo em tudo oco era a forma que achei para não ser dado como louco ou não ter dado nisso! Em Luanda, com uma frequência anormal, ou talvez não, levava pontapés ou caldaços por detrás e quando me virava lá vinha o pedido de desculpa!
- Oh, amigo, desculpe lá, mas pareceu-me fulano, de quem sou amigo!
Não há problema, sucede, amigo! E já estou habituado!
- Não está a querer dizer…?
Não estou a querer dizer nada do que certamente pensa; apenas que de vez em quando sou confundido com outro e não sei porquê! Devo ter um modo de andar tão vulgar, ou então uma fisionomia posterior, que confunde as pessoas!
Mas não vale a pena perder tempo com este aparte que pouco tem a ver com o tema ou assunto que me propus tratar.


V


Passei o dia todo a “pegar” naquele rosto, sem cabelo arruivado, procurar situá-lo em todos os locais, a arranjar-lhe ocupações, família, tudo, que foi nada. Não consegui. Faltava a localização espacial e temporal para aquele rosto.
Nos dias seguintes voltou a aparecer, penso que terá faltado num deles e esta falta, que devia dar-me descanso mental, trouxe outro tipo de preocupação: a possibilidade de desaparecer, como tantos outros foram desaparecendo e eu sem achar a solução.
Podia, à saída da camioneta, ir no encalce dela e ver onde se dirigia para trabalhar ou com quem se ia encontrar, mas o tempo que tinha para chegar à Fábrica a horas, novamente na Guarda Nova, e eu sempre quis ser pontual; sobretudo agora com a nova responsabilidade da Organização do Trabalho.
Quando saía da camioneta ela nem sempre tomava o mesmo rumo, ora seguia em frente até à Residência Paris e depois virava à direita pela rua que ia dar aos bombeiros, enquanto eu virava à esquerda para atravessar o topo Norte do Parque, ou seja, no sentido contrário ao dela.
Outros dias ela saía da camioneta e voltava para trás e tomava a rua que ia dar na mesma aos bombeiros mas passava pela traseira do edifício da camionagem.
A Isabel da Balchior, com o seu temperamento brincalhão e atrevido, era capaz de já ter averiguado e saber o que eu me esforçava em vão para descobrir, mas não tinha “lata” para, “como quem não quer a coisa” lhe perguntar. O que ela iria pensar? Ou mesmo dizer, desbocada como é!
- Ficaste com o nariz no ar! Estes raios dos homens são sempre os mesmos! Basta verem uma cara nova e sobretudo bonita e ficam logo com o “espirito santo de orelha”!
Era o que ela diria se eu perguntasse! E por isso eu não perguntava, não perguntaria!
Este dilema passou a ser, desde não sei que período da vida, o meu “calcanhar de Aquilles”!Merda de timidez!
Mas um dia, estávamos a almoçar do self-service da Residência Paris, quando o penteado ruivo-alaranjado passa em direcção à Rodoviária.
Desejou boa tarde e bom apetite, não sei se para os dois se só para a Isabel, mas pelo sim, pelo não, educadamente, correspondi também à saudação, agradecendo e aproveitei a boleia do cumprimento para perguntar à minha companheira de refeição: oh, Isabel, quem é a nova colega de viagem, esta que agora cumprimentou?
- Acho que é uma filha do Almeida Fernandes, da Óptica Penedo, parece que tem estado lá para Lisboa e agora veio trabalhar com o Pai!
Esta parte final já mal a ouvi; fixei até ao chegar ao Almeida Fernandes!
Eureka! Porra! Tanto trabalho mental para não chegar ao que era óbvio!
Só faltou levantar-me e desatar aos saltos!
A Isabel, arguta como era, apercebendo-se da minha alteração, quis logo tirar “nabos da púcara”:
- Conhecia-la? Sabes quem é o pai?
Ao pai dela conheço-o há vários anos, ainda antes do vinte e cinco de Abril, quando fez parte da lista do nosso Sindicato – o da Isabel era o mesmo, por isso ele era dos Trabalhadores de Escritório e Comércio – em mil novecentos e setenta e um.
- Ah, pois, também me lembro dele lá do Sindicato, mesmo que poucas vezes lá tivesse ido. Mas conheço-o mais daqui da Marinha, é muito conhecido e trabalha aqui há muitos anos!

E da filha também recordo, era ela novita, andava nos pioneiros, juntamente com a irmã mais velha.
- Isso não sei, não sou muito ligada aos partidos! Referiu a Isabel.
É natural, o casal separou-se e as filhas acompanharam a mãe, indo viver para Lisboa; sei, não por ele e nem recordo quem disse. Mas da Mãe não me recordo; desta filha sim, aqueles olhos …diziam-me qualquer coisa.
- A vida é assim! Comenta a Isabel.
- Mas que é uma linda mulher, lá isso é! E acho que tem uma filha, disse-me a minha colega!
Não porque o Fernandes falasse da família e também raramente me cruzava com ele fora das coisas do Sindicato, mas alguns outros membros da direcção de vez em quando referiam alguns pormenores: que a filha mais velha foi para a Faculdade e a Mãe de ambas também; a mais nova terá ido para uma escola de arte, mas mais pormenores não sei.
Um dia, numa deslocação a Lisboa em serviço da empresa, não recordo para tratar que assunto, acabei por ir à boleia do Fernandes, talvez por um dos directores da empresa ter sido antes dirigente do Sindicato, no mandato anterior e deve ter sido da conversa entre eles que a boleia foi negociada.
Acabámos por almoçar ambos, no restaurante do Monumental, onde comi, pela primeira vez, gelado como sobremesa! Nunca mais esqueci!
- Afinal estás bem mais perto do que pensavas, confessa lá! E pelo teu ar…pareces encantado! Ria a Isabel, mas ela ria por tudo e por nada!
Não fiz qualquer comentário, mas fiquei satisfeito por, em tão pouco tempo ter aprendido e relembrado tanto pormenor.


VI


A certa altura fui encarregado pela Comissão Concelhia do PCP, de Leiria, de coordenar as questões relacionadas com as Associações de Amizade dos diversos países ditos de Leste, depois de o ter feito, com algum êxito, aquando do sexagésimo aniversário da Revolução de Outubro.
No período que antecedeu o das comemorações fui nomeado para acompanhar o trabalho dos pioneiros, nunca cheguei bem a perceber porquê, mas que me entusiasmou, pois sempre tive curiosidade em saber como era a relação entre os organismos do Partido e as organizações juvenis.
Nesse tempo e como trabalhava na Marinha Grande, fiz o acompanhamento, de perto, do que se ia fazendo para que os mais pequenos vivessem uma vida sã e de pensamento livre. A Marinha Grande foi escolhida devido ao número de militantes e, também, de pioneiros, com uma actividade bem diversificada. Também às Caldas da Rainha ia uma vez por mês, assim como a Alcobaça! Nunca interferi no programa de actividades ou outro, nem aceitaria a tarefa se ela contivesse essa componente!
Foi na Marinha Grande, aí por volta de mil novecentos e setenta e cinco ou setenta e seis, que conheci as duas as duas filhas do Fernandes, dirigente do Sindicato. Se conheci a Mãe foi de modo que não ficou registo.
Como já disse antes o Fernandes fazia parte da Direcção do Sindicato, onde na época se travavam lutas duras pela direcção do mesmo.
Era, na época, um Sindicato rico e a recém-criada UGT – União Geral de Trabalhadores, de que não irei falar por ser um dogma, um pouco como os de algumas religiões, nascida numa gruta bem conhecida, de cesariana, e fez seus primeiros tempos na incubadora onde outros nascituros foram iniciando os seus primeiros dias, estava a precisar que o ambiente fosse favorável para que pudesse ser apresentada à “sociedade”. Ou seja, precisava de fundos e de homens de mão para as tarefas de guerrilha, fazendo as alianças mais espúrias, mas que resultavam para o efeito pretendido: dividir os trabalhadores!
Eram tumultuosas as Assembleias convocadas, chegando algumas a entrar pela madrugada e sem que se conseguisse aprovar ou sequer fazer cumprir a Ordem dos Trabalhos. Tempos com vida e sem que da luta saísse uma clarificação, que hoje se mantem! A UGT continua a ser o aliado natural, através dos seus dirigentes, de todos os governos desde o primeiro constitucional e, logo, do patronato. E terá o tempo de vida que seja necessário para que os governos vão dizendo para dentro e para fora, que as Leis criadas contra quem trabalha tiveram o acordo dos trabalhadores. Uma farsa que só em países dependentes e ao serviço dos atentados mais sórdidos contra a humanidade, podem suceder.
A saída para a capital após a separação dos pais, de que não soube nem tinha que saber, assim como o tempo que decorreu, não tenho dados e os que agora sei, as duas formaturas, da Ana e da Mãe e o regresso à Marinha, da Susana, sei-o por me ter ido sendo contado durante o tempo de convivência de que iremos falar de seguida, nomeadamente a ida à URSS integrada numa das visitas de pioneiros que se efectuavam, não sei se anualmente e que estavam integradas no programa acordado pelos dois Partidos de estreitamento de laços de amizade internacionalista!


VII


Ainda na fase de já saber quem era a nova passageira da camioneta das oito e eu fazendo o percurso mental que me levou até aos Pioneiros da Marinha Grande e aos mais ou menos dez anos de idade da nova companheira de viagem, dela não sairia tão cedo porque, mesmo que o não pareça, a minha real e natural timidez não me deixaria avançar mais! Este meu comportamento deve ter-me evitado alguns contratempos, não sei se terá, mas que terei perdido a oportunidade de conhecer pessoas interessantes e com quem podia ter aprendido mais, disso não tenho dúvidas.
O mais estranho é que este comportamento só surgiu já na idade adulta, sem razão aparente, mas que eu vou justificando, na falta de melhor, com o respeito que a todos é devido; antes, do que recordo também, era característica que não tinha, bem pelo contrário: quase sempre era eu quem tomava a iniciativa, e se corria mal, tinha como antidoto o lema de que não me arrependo do que faço, de pouca eficácia psíquica, mas assumo a responsabilidade do que faço e lamento o que devia ter feito e não fiz.
Estava a referir-me à fase em que sabia quem ela era, a origem da recordação, mas não tínhamos dito um ao outro uma só palavra; ela era o contrário das conhecidas de muitas viagens, entrava muda e saía calada. Era, digo bem.
Não tinham passado muitos dias e eis que, na paragem da Rua dos Mártires, a primeira desde que saía da gare, que está junto ao convento dos Franciscanos e frente à rua que dá acesso ao bairro que passou a ser o de Tukoshima com a geminação das cidades e que antes era dos Capuchos, penso que por ali estar apenas a Igreja da Ordem dos Franciscanos, também conhecidos por frades do capucho, por fazer parte do seu manto e cobrir a cabeça quando o frio chegasse, entra a novel passageira e desta vez acompanhada por uma pequenita e que de imediato relacionei como sendo a filha de que a Isabel falara.
Nos seus mais ou menos dois anos de idade, era uma criança franzina fisicamente, de “nariz arrebitado”, que mal chegou ao lugar que foi escolhido para ambas, subiu para o banco e passou em revista todo o interior da camioneta, num olhar muito rápido como que para se situar.
Era como um farol que, neste caso não alertava os mareantes, mas sim o seu próprio caminho, observando com minúcia alguns dos viajantes, do alto do pedestal almofadado.
A companheira mais velha, a Mãe, arriscando com alguma segurança, tentava certificar-se de que a filha não tivesse algum percalço com os solavancos e nas curvas.
Após um olhar que parecia distraído a todo o espaço interior, recomeçou a inspecção, mas agora com a minúcia de quem procura alguma coisa.
Não sei se terá visto em mim algum pormenor que lhe prendeu a atenção, nem alguma vez chegarei a saber, mas que não me espanta por aí além, pelo facto de os “pirralhos” juvenis sempre acharem em mim algum sinal, qual não sei, mas deve estar relacionado com alguma figura das suas fantasiosas incursões pelo mundo que o adulto não conhece; o certo é que me fixou com atenção e não desagrado.
A fórmula que sempre deu resultado com estes seres espantosos, foi a que ensaiei: uma cara de macaco, enrugando o nariz e arrepanhando os lábios e logo o seu rosto pequenino se modificou, esboçando um sorriso de beleza rara e tentou ensaiar a minha carantonha, por mais que uma vez, talvez por ter pensado que não estava ainda bem como queria.
Repeti a carantonha e ela sorriu mais abertamente quando repetiu a tentativa uma vez mais.
A Mãe, disfarçadamente e pelo canto do olho, ia acompanhando a cena de teatro mimico, não ensaiada, só com dois actores, sem encenador, mas a ficar já com uma plateia que era toda a do lugar dela para trás! O palco era o espaço aéreo entre o seu púlpito e o meu, três bancos atrás. E sorrisos não faltavam!
Ainda não tínhamos chegado à Ponte das Mestras, a caminho da Barosa e depois de mais umas momices ensaiadas, a pequena actriz, a segurar-se com força quando as curvas eram mais apertadas, empurrando a mão da mãe que a segurava, quando uma voz bem timbrada e clara de modo a dar bem para perceber, perguntou:
- Quem tu és? Como chamas?
Fingindo que lhe dizia um segredo, colocando a mão direita em concha ao lado da boca, respondi: sou Zé! E como é teu nome?
- Eu sou Gui!
Gui? Lindo nome e linda menina!
- Posso ir p’raí? Pergunta.
- Mas que atrevimento vem a ser este?! Fingindo a mãe zangada.
Vem, respondi.
A Gui não deve ter sequer ouvido o discurso da mãe; desceu do banco, tentou passar entre os joelhos da mãe e as costas do banco da frente, mas aqui o obstáculo deparou-se e só foi ultrapassado quando a mãe desviou os joelhos para o corredor e, assim, a Gui se safou daquele aperto.
Ajudada pela mãe na parte inicial do trajecto, segurando-a pela mão, logo outra mão a segurou e eu era o terceiro que fui ao seu encontro e a segurei até ela, com alguma facilidade trepou para o assento e se instalou, com ar de quem era uma profissional nestas andanças de camioneta!
A plateia manteve um respeitoso silêncio, mas duas senhoras tiveram que tapar a boca e abafar um sonoro risinho!
- Não vais incomodar o senhor! Recomendou a mãe, olhando por cima do encosto do banco.
Agora havia já rostos dos bancos da frente que se viravam para ver o que se passava nas suas costas; do nosso lugar para trás deviam ter começado a comentar o desempenho dos três actores, ouvia-se um cochichar que se alterou com a paragem na Barosa e os alunos a entrar e darem o sinal de que ainda estavam em liberdade.
A minha companheira não se interessou com a alteração e acabava a inspecção minuciosa do companheiro junto a si sentado, mirando-o bem da cabeça aos pés, sim, debruçou-se para ver que os meus pés chegavam ao chão e os dela não.
Foi então que me olhou e eu aproveitei para iniciar o diálogo: quem é aquela senhora? Perguntei-lhe, apontando para o lugar de onde ela tinha vindo.
- É a Mãe! Respondeu.
E como chama a mãe?
- Susana! E tu tens mãe? Perguntou.
Tenho, mas está muito longe!
- Porquê? Inquiriu.
A casa dela é lá longe e está na casa dela.
- Onde é tua casa? Interroga a Gui, curiosa
É em Leiria, mas vou sempre para a Marinha Grande.
- Porquê? Insiste.
Porque é lá que trabalho.
- A Mãe também! Informa!
Também o quê? Mora em Leiria?
- Sim, mora em Leiria e eu também! E trabalha com o Avô João!
Onde trabalha? Perguntei, perguntei?
- Não sei! Sobrancelhas franzidas , como quem é apanhado em falta.
Agora já em pé!
- Oh Mãe, onde tu trabalhas? Perguntou em voz alta para a Mãe ouvir.
- Não estás a chatear o senhor, pois não? Pergunta a Mãe Susana.
- Não tou nada! Onde tu trabalhas? Repete a minha companheira.
Como não houve resposta, eu disse-lhe ao ouvido: deixa, deve ser segredo!
- O que é o segredo? Perguntou de imediato.
É… uma coisa que…que não queremos que as pessoas saibam!
- Oh!...e encolheu os ombros.
O diálogo durou todo o trajecto, sempre a querer saber mais e mais. E foi quando saímos da camioneta, a Gui pela minha mão, quando a Mãe se apresentou: Que trabalhava na óptica Penedo e pediu desculpa pelo “atrevimento” da filha.
Antes de nos separarmos perguntei à Gui: amanhã também vens?
- Um encolher de ombros e o olhar interrogativo para a Mãe, foi a resposta.
Dás-me um beijinho, Gui?
Deu dois e apertei a mão à Mãe, desejando-lhes um bom dia e, como quem não quer a coisa, disse: até amanhã, à mesma hora.
A Gui desapareceu mesmo! Algumas viagens depois, deixei de a ver, mas fui-me certificando que andavam por perto, passando frente à óptica e ver se a Mãe lá estava.
Esta cena de autocarro foi comparada com outra, passada em Luanda, no machimbombo de São Paulo para a Mutamba, há vinte e seis anos, mas essa é outra estória que outro espaço lhe foi reservado.


VIII


Uma nota intermédia: o eclipse das estrelas.


No seguimento de um espirro, num Domingo de Páscoa de há não sei quantos anos, perdi a voz; tratado à base de cortisona, dois ou três dias passados a voz tinha regressado à quase normalidade, apenas um pouco menos nítida.
Da cicatrização resultou um calo, ou pólipo, numa das cordas vocais que, de vez em quando, bastando um esforço um pouco maior, vinha a rouquidão, irritante e cansativa, por ter de falar mais alto e nem sempre com resultados satisfatórios, notando-se a ineficácia do esforço quando tinha de falar com pessoas no seu posto de trabalho, num ambiente fabril de várias máquinas a trabalhar.
Perante esta dificuldade e os quase nulos resultados da medicação, o médico de família requisitou uma consulta de otorrino com vista a ser operado, o que a equipa da especialidade no Hospital dos Covões confirmou e apontou para a cirurgia, ficando em lista de espera.
Fui operado em mil novecentos e oitenta e sete, nesse mesmo hospital e menos de quarenta e oito horas depois da cirurgia, tive alta hospitalar e em normalidade em termos de saúde.
Contrariando o meu antecipado pedido, a Lena e Graciete acabaram por me ir visitar, chegando ainda eu não tinha saído do sono anestésico.
A Graciete terá aproveitado para me pôr ao corrente de alguns conflitos entre a Lena e o Nuno, acabando por me comprometer a voltar a casa, de onde tinha saído dois anos antes, e tentar encontrar algum equilíbrio.
Logo me apercebi de que se tratava do exagero habitual, tanto mais que a Lena estava já a viver com o Rui e o que me pareceu mais evidente, era a atitude fantasiosa, individualista e egoísta das pessoas.
Tentei que algo mudasse, mas como fui reconhecendo que o esforço era em vão, só me restou a saída de repetir a atitude de oitenta e cinco; em Setembro de oitenta e nove ir morar para a Marinha Grande, definitivamente, pensava eu, mas a vida tem surpresas com que não contamos, senão deixariam de surpresas ser.


IX


O meu encontro com a Susana, apenas visual até que a Iris Margarida – a Gui – apareceu e veio alterar qualitativamente, catalisando uma amizade que seria e continua a ser a mais bela e sã que alguma vez sucedeu; iniciada por volta da Primavera de oitenta e oito, teria ela pouco mais de dois irrequietos e cativantes anos de idade!
Foram poucas as vezes que nos encontrámos, sempre na camioneta das oito para a Marinha Grande e menos ainda aquelas em que a Gui tomou parte, mas marcaram o ritmo do futuro dos três, duma forma difícil de explicar, deixando em mim um sentimento de profundo afecto que em que a alteração havida tem sido para melhor, mesmo com a ausência de ambas pouco tempo depois e duma forma tão subtil como foi a do nosso encontro.
Notei a falta de ambas, mas se à Susana sempre a ia vendo, quando propositadamente passava frente à óptica e a via a trabalhar ou no seu local de trabalho, à Gui não mais a voltei a ver, até quase ao final do ano de oitenta e nove, como noutro espaço narrarei.
Vi ainda a Susana, uma ou duas vezes, em casa ou na companhia da Lena e do Rui e pela Lena soube que andavam a estudar à noite, ambas tendo o alemão como disciplina.
Numa dessas vezes acompanhámo-la ao alto da Calçada do Bravo para ir buscar uma viola, que só por dedução, mais tarde, soube que era a casa onde tinha morado anteriormente.


X


No final do Verão de oitenta e nove, comprovada a incapacidade de viver com a família, por motivos que eram sempre os mesmos, fui morar para a Marinha Grande, como mais adiante será tratado com outro pormenor que aqui não faço.
Trabalho e reuniões que iam pela noite dentro, inviabilizavam muitas vezes a utilização dos transportes públicos, em que o último a sair da Marinha para Leiria era às vinte horas e quinze minutos; algumas vezes regressava a Leiria de táxi ou algum colega me levava no seu carro.
A opção de me instalar na localidade onde trabalhava teve muito a ver com a dificuldade antes referida.
Como a casa não tinha mobília e da separação não trouxe mais do que meus objectos pessoais e roupa de uso corrente, tive que apetrechar o domicílio com o indispensável para viver nas condições mínimas.
O espaço era muito e os móveis nenhuns.
A crédito comprei o frigorífico e colchão, que foi assente no chão do quarto, sobre placas de cartão canelado que levei da empresa; o televisor, a preto e branco, foi-me emprestado por uma amiga que o tinha substituído por um a cores; o esquentador e o fogão foram comprados a pronto pagamento, em segunda mão; a mesa da sala, chegada mais tarde, era da Lena, também esta substituída por uma nova, assim como a pequena estante onde depositara alguns dos livros, os adquiridos no período da estadia em casa do Vladimiro, ou seja, de oitenta e cinco a oitenta e sete, mais uns quantos títulos que tinha trazido comigo quando da separação – a primeira.
O restante, pouco mais, foi sendo adquirido aos poucos, conforme me ia libertando das dívidas anteriores.
A cama, quando apareceu, foi já um ano e tal mais tarde e teria sido deixada em casa da Lena por um dos “sem-abrigo” que, de vez em quando, lhes caíam em casa.
Também esta ficou em casa do Anselmo quando voltei para Leiria, tendo sido mais tarde recuperada por uma da Lena, acabando por ficar abandonada quando esta casou e foi morar para outro espaço e, certamente, melhor mobilado.
A cama e vários móveis, tiveram um acidentado percurso, alguns deles parecendo até que andavam a imitar-me, desde que cheguei a Lisboa e mil novecentos e cinquenta e dois.


XI


Estava há pouco tempo instalado na Esperança de Brito, penso que ainda na fase de arrumações; era sábado e ainda não habituado ao novo habitat, acompanhado de alguma nostalgia, resolvi ir almoçar a Leiria.
A distância entre casa e Rodoviária era pequena, não mais de quinhentos metros e por isso a fiz, a pé e devagar; devagar seria o elemento novo por que a pé tinha de ser.
Atravesso o parque, bem diferente do que hoje está, pela passadeira para peões em frente à Residencial Paris passo para o outro passeio e quando estava a passar frente a um pequeno stand de automóveis, que antes fora uma loja de móveis, ouvi vinda de trás, uma voz familiar, deliciosa, de criança que chamava:
- Oh, Zé! Oh, Zé!
Quem havia de ser para me deixar com ar espantado! A Gui, mais alta e mais desenvolta, que corria na minha direcção! Peguei nela ao colo, beijei-a e com o seu braço esquerdo em volta do meu pescoço, apontando para a Mãe, parada no passeio, mesmo em frente à porta da farmácia, a sorrir.
Mesmo antes de nos cumprimentarmos, apressou-se a informar:
- Estávamos no self a ver o que havia para o almoço e a Gui a passar, começou a chamar e a correr para si!
Que espantado eu estou! Com o tamanho dela e com o vosso aparecimento! A Gui está tão alta! E desenrascada, agora mais! Por onde têm andado?!
- Para onde você vai? Perguntou a Susana.
Pensei ir almoçar a Leiria, ainda não estou habituado à Marinha, ao fim de semana, pelo menos. E que fazeis vós por estes lados? A tratar do almoço já sei.
- Nós moramos ali – apontando para a primeira torre do outro lado da avenida – no sexto andar!
Não sabia, mas fico bem feliz por saber isso e sobretudo por vos ver e com esse belo aspecto!
- Você não quer almoçar connosco? Perguntou a Susana.
- Oh, Zé, almoça! Reforçou a Gui, segurando uma das minhas mãos.
Para falar com franqueza não tenho nenhum compromisso em Leiria e terei muito prazer em almoçar convosco. Há tanto tempo que não via este diabrete!
- Que bom, saltava a Gui, agora agarrada à minha mão cos as suas pequeninas mãos.
- Vamos lá então escolher, avançou a Susana.
A opção recaiu sobre arroz de pato, escolhemos um vinho de fraca qualidade e barato, havia pouco para escolher e sobremesa nada, a Susana disse que tinha fruta em casa.
E lá fomos para o sexto andar, apartamento B, com cozinha, sala, dois quartos diminutos, um deles não foi feito para ser quarto, mas acabou por ser o da Gui e uma casa de banho.
Os móveis eram também poucos, tal como na Esperança de Brito, mas não era comparável este espaço com o meu! Era como do dia para a noite, pois tinha um aspecto novo e asseado! A Esperança de Brito tinha uma vantagem sobre este: o Sol que desde o fim da manhã, até desaparecer na orla do pinhal em frente, ficava sempre de frente.
Assim fiz o primeiro e inesperado contacto com o espaço a que mais tarde, pela forma como passou a ser usado, eu decidi chamar-lhe a Tertúlia do Sexto B, titulando este texto que ainda vai ser ampliado.


XII


A mudança de residência para a capital do vidro, para além de ter por objectivo principal o distanciamento do núcleo familiar formado como consequência do casamento, com o qual a rotura foi inevitável e para bem comum face aos antagonismos crescentes e insanáveis, tinha também como motivação secundária, as responsabilidades assumidas na área da coordenação de alguns dos serviços da empresa e ainda as de membro da Comissão de Trabalhadores e Encarregado da Segurança, na componente de Higiene e Segurança no Trabalho.
Todas as funções exigiam não só mais horas de ocupação na prática, mas ainda o estudo e formação na parte teórica.
Morar na localidade onde exercia, disponibilizava ainda o tempo que muitas vezes faltava, condicionado como estava aos horários dos transportes para Leiria e desta para a Marinha.
Se tinha que me preocupar com a adaptação ao meio, que iria trazer algum cansaço, a disponibilidade de mais algum tempo compensava no menor esforço mental.


XIII


A entrada no circuito das duas colegas de viagem, quase desaparecidas durante algum tempo, vinham introduzir nele, naturalmente, um outro ritmo e novos saberes, como foi comprovado nos tempos que se seguiram, quase só à noite e durante a semana, só mais tarde incluiu o fim- de- semana também.
A Gui crescera muito, não só na altura, mas também nas atitudes, o que desconhecia e que já teriam a ver com a sua nova vida no colégio infantil.
Aquilo que nas viagens de meia hora revelava, por valioso que fosse, só ganhava relevo pela novidade e sempre alegre trajecto.
Quando dois anos passados e num espaço para ela familiar, foi um salto qualitativo que não conhecia nem imaginava.
A frequência do jardim infantil e os saberes ensaiados durante o dia, eram depois praticados em casa, sem preocupações de ordem técnico-pedagógicas, a que a sua juvenil idade e inquieto temperamento se não adaptaram nunca.
E ali começou mais uma das minhas formações, porventura a mais profícua e eficaz.
Não sei como procedia com a mãe, mas eu era para a incansável criaturinha, que só se rendia quando um sono profundo a prostrava, a cobaia para ensaiar, aplicadamente, tudo o que fluía ao pensamento: tanto era o filho que tinha de comer a sopa toda, do aluno que tinha que aprender tudo, ser o bebé dela e ter que dormir muito sossegadinho.
Deu-me sempre um prazer enorme participar daquela peça de teatro que ia evoluindo naturalmente, em que aplicava saber e criação, ao ponto de prometer castigar se eu não portasse bem!
Aquele quarto diminuto, a abarrotar de bonecada, sobretudo barbies e apetrechos de cozinha e outros, tais como camas e móveis de quarto para as plásticas utilizadoras, transportava-me como num filme de animação juvenil e ficcionado, a um tempo e uma idade que não tivera e que devia ter gostado se o tivesse vivido! Tive outro, um tanto diferente, que não tinha este requintado tratamento:
- Vais comer a sopinha toda, é muito boa, senão a mamã fica zangada! Está bem?
E aí estava eu, de colherinha de plástico na mão direita e prato de sopa na outra mão, aguardando que a mamã decidisse que já chegava!
- Agora vais dormir, para acordares bem-disposto! E não faças xixi na cama, senão és feio!
O sono autorizado foi pequeno, eu a fazer de conta que dormia e já aparecia uma nova cena na peça a ensaiar!
- Agora ficas a brincar com os brinquedos, enquanto a mãe vai às compras e te traz um chupa! Gostas mais de qual?
Assim, noites e noites, enquanto a Mãe, na sala, aturava os destemperos da Dulce, os silêncios cúmplices do Paulo ou as conversas pastosas e por vezes irritantes do Anselmo e o olhar cansado da Irina.
- O que é feito do Zé? Perguntava-se o Anselmo quando o assunto em discussão, por vezes gritado, perdia vigor até outro aparecer a despoletar nova discussão!
- Está ao serviço da Gui, respondia a Susana!
- Ele farta-se de ouvir as nossas conversas, preferindo ouvir as da Gui e ele é que tem razão! Acrescentava o Anselmo.
Algumas noites, de tão cansada, caía num sono profundo, estivesse sentada ou deitada; só mesmo o sono a dobrava.
Acomodava-a o melhor possível no espaço que restava na cama invadida por barbies e camas ou salas de jantar em plástico, tapava-a, apagava a luz e ia eu ter com os já calmos tertulianos.
- Já aterrou? Perguntava-afirmava a Susana.
Dorme como um anjo! Respondia eu.
E então, mais baixo agora o volume das vozes, as conversas continuavam, mas estava muito fora do contexto do tema.
Muitas noites, quando a dona do espaço se cansava, virava-se para a assembleia e, xau-xau, até amanhã que é dia de trabalho e não batam com a porta ao saírem!
Sempre gostei desta forma tão prática de dispor bem e pôr à vontade os amigos.
Era quase sempre eu o último a sair ou então saia quando as duas já dormiam, algumas vezes a mãe levava a Gui para a sua cama, mas a mais nova não se manifestava; continuava por conta de Morfeu!
Por vezes, poucas, quando a Gui estava com alguém (só mais tarde soube que era com o Pai) e jantávamos em minha casa, a Susana dormia lá, no colchão novo que sem a armação estava no chão, sobre placas de cartão e eu dormia num de espuma, colocado ao lado do outro, sobretudo no Inverno porque havia um só aquecedor a óleo.
Havia mais dois quartos, mas só um tinha armação de cama, sem colchão, não sendo por isso utilizado.
Não foram muitas as vezes em que isto sucedeu e a primeira vez dormiu também a Gui, sendo a primeira a dormir e depois, para a não acordar, sugeri à Susana que lá dormisse, a cama era de casal e dava bem para ambas.


XIV


Tempo de férias. Em Agosto a empresa não laborava durante três semanas, que eram aproveitadas, mal quase sempre, para fazer alguma manutenção, mas de facto porque os principais clientes de embalagens, principalmente dos detergentes e cosmética, também fechavam nesse mês e era de todo impraticável estar a produzir para stock por não haver armazéns que chegassem e além do mais era um erro financeiro.
Também em Agosto, pelo menos no ano seguinte ao da minha mudança para a capital do vidro, a Gui não tinha Infantário, e assim foi só juntar o útil ao agradável: iriamos ambos fazer férias para São Pedro de Moel, praia ali pertinho e bem servida de transportes naquela época, dita balnear.
A praia para a Gui era ir para a piscina, nunca cheguei a perceber porquê, mas como também não sou fervoroso adepto da areia, aproveitava a ideia por ela avançada: duas toalhas, ama fatiota de banho de reserva, para ela mudar quando fosse necessário, chinelos para ambos, braçadeiras para ela e uns trocados para o lanche, pois o que levamos é sempre insuficiente, sobretudo quando há atletas de alta competição como a Gui, horas seguidas dentro de água, o apetite não perdoava.
Mal chegávamos logo ela, desembaraçada, se livrava da indumentária da cidade ou da viagem e já de tanga vestida logo avançava para a piscina, a das crianças onde andava à vontade e sem perigo, a não ser uma ou outra queda quando o entusiasmo era maior!
Era tal o prazer que devia sentir que cheguei a fazer má cara para a convencer a sair da água por algum, quando já “batia o queixo” com frio.
Uma massagem aplicada com ela deitada sobre a toalha, aquecida e enxuta pelo Sol, ficava pronta para mais uma maratona de saltos e trambolhões dentro de água.
A piscina grande exercia sobre ela uma atracção incrível! Os olhos dela dirigiam-se para lá como se um íman os chamasse sem cessar! Desde o primeiro dia, o suborno foi ensaiado, ameaçando que não brincava mais comigo, quando eu lhe dizia que só amanhã, mas deve ter-se apercebido de que o adiamento para amanhã era uma desculpa de “mau pagador” e não desarmava:
- Oh, Zé, quando tu fores ao banho, eu também! Tenho braçadeiras e já sei nadar! Garantia ela.
Não era uma nadadora” exímia”, como o não seria outra pessoa com quatro anos de idade, mas coragem e determinação não faltavam.
E ao segundo dia já ela estava aos saltos, quando a caminho da piscina eu lhe prometi, perante o desassossego dela, que depois de aquecer ao Sol e ficar seca, iriamos ambos. Foi uma festa: abraços, beijos e puxões de orelhas!
E assim começaram as aulas de natação, sem professor.
Entrava na piscina pela parte menos funda e ela na beira do tanque, sentada; pegava-lhe pelas axilas e deixava-a entrar em pé dentro de água e com ela pela mão mostrava até onde tinha pé! Podes nadar daqui para lá e de lá até aqui, demonstrava-lhe e também daquele lado para este, era o da largura. Da escada para lá não tens pé!
- Está bem, dizia ela, mas tu não vais embora!
Claro que não vou embora e quando for tu vais também!
Penso que fingiu sempre que tinha ouvido, pois mal eu me fingia distraído já ela ia para lá da escada, onde já não tinha pé!
Lá ia eu no encalço do fedelho atrevido e ela sempre a provocar e a rir!
Quando me apercebi que as braçadeiras e a regularidade dos movimentos dela e sobretudo a grande resistência, ao frio e ao cansaço, entrei também no fingimento e lá ia ela, navegando à vista, para a parte mais funda da piscina!
- Oh, Zé, aqui ainda há pé? Perguntava ela.
Sempre me pareceu que ela estava apenas a provocar, mas como não tinha a certeza e para ela se não assustar caso não estivesse a brincar, respondia-lhe: tens, mas agora nada para aqui até onde eu estou. E assim fazia. Divertia-se ela e eu não me divertia menos! Apenas um senão perturbava a minha satisfação, o estar a mentir e a Gui se aperceber um dia!
Desde muito pequeno acompanhava meu pai para os Prados, a horta que cultivava. Por vezes logo a seguir a uma tempestade com muita chuva ou nos apanhava na horta e tínhamos que esperar que parasse. A água, em quantidade grande e caída em pouco tempo, não era absorvida pela pouca terra dita arável e abria sulcos levando ladeira a baixo pedaços de terra, deixando a rocha à vista! Mal chegávamos à aldeia e via algum dos donos das terras onde tinha sucedido tal erosão, logo dizia: olha, fulano, a tua terra foi toda levada! E logo eu corrigia: não foi nada, são só uns regos, a terra está lá no mesmo sítio! E quando outros se dirigiam a nossa casa, por terem terras para aqueles lados, e perguntavam que má noticia lhe dava, ele, meu Pai, voltava a exagerar e eu corrigia!
Era isto que eu evitava sempre: mentir, sobretudo às crianças! É que ainda na véspera tinha dito que a partir da escada não tinha pé e agora dizia-lhe o contrário…estava a colocar-me numa situação embaraçosa, mesmo que não houvesse motivo para tal. Ela sabia lá o que era mentir?! Queria era andar dentro de água! E assim ia mentindo a mim mesmo!
Combinávamos que a seguir ao lanche não íamos mais para a água e era então que as aulas de teatro tinham lugar. Pegava nos sacos com os brinquedos e íamos para um espaço com areia e relva ao fundo da piscina grande. Dispunha o material de cozinha como achava mais adequado, instalava as duas barbies que nunca largava e passado pouco tempo já havia chá e sopa para todos.
Quem mais sofria eram as barbies, quando se “recusavam” a comer a sopa e ficavam bem avisadas de que se a não comessem não havia gelado para elas!
Eu tinha que comer duas doses, alegando que eu era grande e tinha que comer muito!
Quase vinte anos depois, quando passei a ser visita frequenta da família, na Alemanha, já separadas por motivos profissionais da família, tendo a Gui ficado em Berlin e o casal foi para o Sul, onde o Boris passou a exercer, passou a ser a Mãe da Gui a dizer que eu era “um lingrinhas a comer” e que “como eu mais que você”! Dizia ela e não era verdade! Ela, sim, comia pouco e bebia muito…! Chá!
Voltando à “praia”. Ao fim de um dia extenuante para ela, ainda tina energia suficiente para ir a pé das piscinas à paragem das camionetas, no estremo oposto da localidade.
Sempre a falar, a perguntar coisas que ainda não devia ter percebido, mas a recomendar-me atitudes e formas de fazer bem, quando se apercebia que eu tinha falhado aqui ou ali, quer no descascar dos legumes para a sopa, quer a vestir as barbies.
Mas mal se sentava no banco do autocarro, mesmo antes de este arrancar, já a guerreira se entregara, por inteiro, aos braços de Morfeu e nem posição mais comoda procurava, tal como aterrasse, neste caso abancasse; era só tapá-la com a toalha enxuta e só acordava, nos dias em que o cansaço era menor, na paragem frente à rua, cujo nome não recordo e onde se situam a Upla e o café Paris. Então íamos a pé até minha casa, na rua Esperança de Brito. Mas dias havia em que não acordava e então a forma adoptada era levá-la ao colo, e se acordava antes de chegarmos, tinha que ser às cavalitas, como ela gostava!
Quando chegávamos ainda o Sol entrava directo pela porta que dava acesso à pequena varanda; então era o banho que nunca mais terminava, tendo que ir acrescentando água quente quando me parecia que já não estava suficientemente quente.
Eu tomava duche primeiro, lavava a banheira com todo o rigor e só depois punha a água quente a correr, para a princesa ir fazer o seu banho e das barbies.
Enquanto ela falava com as companheiras dentro de água eu aproveitava para cortar a barba e responder às perguntas sobre alguma coisa que não estava clara: porque os homens cortavam a barba e tinham pêlos nas pernas. A resposta era de forma que ela entendesse, mas quando não percebia voltava logo à carga.
Não podia ser a brincar que eu respondia, como fazia quando se tratava do teatro de comer a sopa e preparar os legumes ou como fazia quando algum conhecido (e eram tantos), na camioneta, me perguntava: “é tua neta?” E eu respondia: é minha irmã e também minha mãe, dependendo do papel que me é distribuído no teatro que estamos a representar! Riam, alguns, mas outros, mais calhandreiros, não ficavam satisfeitos com a resposta, lá esclarecia: é filha da Susana, neta do Almeida Fernandes! Ah, comentavam alguns dando-se por satisfeitos, mas outros aproveitavam para acrescentar: “não conhecia a menina e já nem me lembrava da mãe”.
Depois de a óptica fechar e por vezes antes, aparecia a Susana e aí combinávamos como ia ser o fim do dia e o jantar, este era a maioria dos dias em casa delas, ou seja, no sexto B.
E assim a Gui foi crescendo, entre a camioneta das oito para a Marinha, o sexto B durante quase dois anos “escondida” ou sem ser vista e depois no convívio, não com os convivas em geral, mas com o Zé em particular, até à hora de ir dormir.
Assim sendo durante o ano de noventa e noventa e um, excepto o tempo da ida da Mãe à Alemanha do futuro, em noventa e dois.
Em noventa e dois, prepara a partida da Mãe, inicialmente, ficaram na Esperança de Brito, vindos da tertúlia, a máquina de lavar roupa e três caixotes de cartão com vários apetrechos e também as barbies da Gui, a aguardar melhor destino.
A tertúlia desfez-se com a mesma naturalidade com que se tinha ido formando e funcionando: sem lágrimas, antes pelo contrário, com festa de despedida da primeira das tertulianas e o esboroar do grupo, pois o norte magnético que a bussola de cada um ia indicando era mesmo aquele e nunca outro.
Parece que nenhum, a não ser eu, deu pela falta da companhia que perderam, ou por que não foi sentida ou por fingirem que não fazia falta.
Ainda hoje, passados tantos anos e tantas coisas boas terem acontecido, ainda contínuo a cimentar a certeza de que nada pode substituir aquele período de tão sadia convivência e profundo carinho.
Talvez por a tertúlia ter existido apenas na minha sensibilidade!

Reis Caçote
Dig./04/14


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