sábado, 30 de novembro de 2019

G P S - INTERACTIVO







   G P S - INTERACTIVO


                                                            I

Se dissesse que nunca gostei de conduzir, não estaria a ser rigoroso; mas se disser que sempre que o fiz o fiz mal, mesmo que uma só pessoa haja, por sinal muito má condutora, uma vez só tenha dito que eu conduzia muito bem, estou a ser realista. Sempre conduzi mal!

Em Angola, sem carta de condução, conduzi o Consul, do Carvalho, várias centenas de quilómetros, mas não me recorda de uma só vez que tivesse metido a segunda velocidade sem que a caixa das ditas sofresse e se queixasse ruidosamente! O Consul tinha só três velocidades e a alavanca era fixada ao volante. Não sentia prazer, mas não me queixava.

Os traumas desta falta de entusiasmo pela condução deviam ter sua origem, sobretudo, no excessivo testemunhar de todo o tipo de mutilações físicas e assistir às autópsias durante os primeiros três anos, dum total de seis, que exerci funções na Instrução Preparatória no Tribunal de Leiria.

Foi de tal modo marcante aquele período que só mais de vinte anos depois e por recear que a carta de condução me fizesse falta no futuro, já o desemprego se perfilava no horizonte próximo, é que a obtive, não sem dificuldade na parte da condução. O código foi feito sem falhas.

Mas não é acerca da minha “aventura” como condutor que me propus escrever; é doutra, em tudo bem diferente: é sobre o que aprendi com a Sofia, conhecida de há muitos anos e amiga de peito, assim ela designa algumas das suas amizades.
Viajar, com ela a conduzir, é um privilégio que tive e me diverte, desde os tempos do exausto Seat Ibiza, do século passado, mas que ainda há cinco anos, já no séc. XXI, ofegante e pouco firme no “andar”, percorreu o litoral alentejano, alentejando, fazendo questão de não nos deixar a meio caminho! E não seria justo condená-lo se tal sucedesse.

Não teve direito a passaporte para acompanhar a dona para a Alemanha e dessa afronta ele se queixou no desabafo cansado que comigo teve no regresso do Alentejo para Lisboa, num tom triste, mas digno.

Tive pena e isso mesmo confessei ao Ibiza e ali nos despedimos.

II

Na Alemanha a Sofia trocou-o por WW.

E tem sido nestes, sobretudo no último, um carocha “new age” mascarado dos primórdios da marca que, além de privilégio, tem sido um prazer imenso, sobretudo quando as viagens foram mais longas e decide usar o GPS, esta pequena maravilha que a tecnologia colocou, ao dispor de quem viaja, um guia rodoviário sempre acordado, noite e dia, a explicar, no idioma escolhido, o trajecto a seguir até ao destino indicado.

Há todo um ritual cénico, desde o ligar do aparelho, introduzir os dados, como quem escreve uma carta e a manda pelo correio, sem selo; segue-se o iniciar a viagem, não sem antes, num monólogo de recriminação, a Sofia falar para a caixa quadrangular, mas que esta não responde porque ela refila em português e a caixa sempre fala em alemão! A menos que…entenda o português e não responda para não perder o freguês.

A Sofia vai dando, como mestra cuidadosa que tem sido noutras áreas, naturalmente e em monólogo, uma aula ao acompanhante, neste caso era eu e simultaneamente fazendo recomendações ao guia, que continua a não responder, reclamando de falhas antigas e outras mais recentes. O tipo só sabe alemão e é pena, porque um refilanço em português teria mais…encanto, como aquele fadinho de Coimbra dos quartanistas de medicina: “Coimbra Tem mais encanto Na hora Da despedida! Se o guia do GPS ouvisse este poema, na voz de um Luiz Góis acompanhado à guitarra naquele tom dolente que o caracteriza, o guia não mais guiaria em alemão. 

Por agora fica assim, um dia tratarei disso.

Dá gosto assistir a estas cenas em silêncio, mas por dentro rio a bandeiras des…fraldadas, eu que até nem gosto de bandeiras.

A última sessão sucedeu em Abril deste ano santo de dois mil e oito.

Alegando que não estava muito prazenteira(sic) e não tendo preparado nada para celebrar meu aniversário, em Março, propunha-se tratar e pagar lá na Suábia, a minha viagem para a segunda visita ao casal Biere e à sempre calma (demasiado) e bela HDH, o que sucedeu em Abril como antes ficou dito.

Antecipadamente, como sempre sucedeu, deve ter sido preparado um programa mínimo para a minha estadia, este ano mais elaborado, por ter compromissos profissionais que no ano passado não tinha.

Logo após eu ter confirmado a reserva de um single com pensão completa, para o período estabelecido, sugeriu aquilo que seria a primeira parte do programa de visitas:
- Como no ano passado não visitámos Stuttgart e o voo chega mais bem cedo, o que você acha se começássemos por lá?

Óptimo, vamos nessa! Respondi. E aproveitamos para almoçar, um pouco mais tarde, o que para ela, Sofia, não alteraria muito, uma vez que o almoço é uma refeição simples, hábito antigo do povo alemão e agora usado um pouco por todo o mundo dito desenvolvido e civilizado (é bonita esta dupla simpatia!) onde o tempo para almoço é pouco, mal dando para engolir, mastigar nem pensar, uma frugal refeição, muitas vezes comida “descansadamente” em pé, ao balcão de uma pastelaria ou self servisse ou daqueles restaurantes “sempre a andar”, a que alguns dos apreciadores da boa e abundante “mesa”, quase em vias de extinção estes pantagruélicos seres, costumam designar por “comer à manjedoura”. Ditos!

Uns cotas desactualizados é o que eles são! Não vou morrer de pena quando a espécie acabar!

Mas continuo a apreciar uma boa lasanha, cozinhada no número nove da Flamenweg, comida ao fim do dia! Cozinhada pela Sofia, pois claro!

Voltando ao antes. Chegada ao aeroporto.

Após o abraço de boas vindas e o sorriso aberto da Sofia fomos andando para o parque de estacionamento do aeroporto, onde o carocha tinha sido depositado.
Já sentados no bólide…

- Se estamos em Estutt e não temos nenhum ponto de referência seleccionado, o melhor indicar o centro! (Monólogo entre a Sofia e o GPS ainda mudo e surdo também!) E de permeio, quase resmungava, naquele seu tom de voz meio ensonado, uma reclamação de anterior falha daquela pequena moldura falante.
Em movimento já e não percorridos ainda quinhentos metros, com o guia invisível em plena oratória naquela língua que nunca aprenderei e já a Sofia refilava:

- então qu’é isto! Está a mandar-me para a esquerda quando a placa diz que o centro é p’rá direita!

No meu acanhamento habitual (que raiva!) lá adiantei: segue a tua intuição e logo se verá!

Se fosse hoje, isto é, se já tivesse recebido do Peter o primeiro postal escrito a agradecer os queijinhos de Azeitão, intragável devido ao calor do Verão (aquela terra é um espanto! Troca tudo no clima!), dizia eu que se fosse hoje, com o Kant mais a sua critica da Razão Pura, metido ao barulho, eu teria sugerido à Sofia: serve-te do tratado do Kant e verás que nunca falhas! Como não havia ainda o Kant, a coisa ficou assim.

Virou à direita. Refilando. Sempre.

Mais umas viragens à direita e à esquerda fomos ter a uma das pontes sobre o rio Nekar, rio que deve por ali passar há uma data de anos, e faz ele muito bem, se eu pudesse não passava, ficava!

Do outro lado, perto do final da ponte, final para nós, para os que vinham em sentido oposto era o inicio, ao mesmo tempo em que o nosso guia do céu mandava virar à esquerda nós víamos uma placa a indicar um desvio por obras em curso, que obrigava a ir para a direita.

Logo a voz da Sofia se ouviu, misturada com a do guia lá do além…

- E agora, o que faço? É sempre a mesma porra!

Se não podes virar à esquerda e seguir em frente também não, vamos para a direita e logo se vê! Não é para todos um tão lógico raciocínio!

Mal eu sabia o que me esperava, uns dias mais tarde, numa sessão-aula de Sudoku, em que a minha inaptidão/rejeição ficou demonstrada, a Sofia, mestra nesta arte me acusava de eu não usar o lógico raciocínio. E era verdade!

- Mas assim estamos a desviar-nos do centro de Stut!

E então?! Deve haver outra placa, mais à frente, a repor a alteração do desvio!
Tal placa não havia ou a não vimos!

- Mas já estamos a entrar em Esslin, de que já ouvi falar, mas nunca cá vim! Vou desligar esta porra do GPS!

Boa! Não é tarde nem cedo, toca a desligar e vamos Esslin. Não temos  compromisso algum com Stutt e eu tenho alguma desconfiança com as grandes cidades.
- Além há um parque de estacionamento! Vamos estacionar e dar uma vista de olhos, depois se verá! E entretanto almoçamos.

À saída do parque, conforme íamos andando, para cada lado que olhávamos o nosso espanto aumentava. Mais o meu, naturalmente!

As tradicionais casas “entramadas” pareciam estar em desafio para algum concurso de qual seria a mais bela! As igrejas espreitavam do alto de suas torres vertiginosas e lá mais ao longe, numa encosta, uma quinta muralhada, incluindo um palácio sóbrio, mas de arquitectura rica em pormenores artísticos, deixou-nos de “boca aberta”!

Mas de Esselin terei oportunidade de falar noutra ocasião, se o tempo chegar e a boa disposição também. Agora são o GPS e a Sofia que estão na berlinda.

- Se calhar até nem perdemos com o negócio! Apaziguava-se a Sofia. Mas aquele GPS de vez em quando prega-me a partida.

Nã ligues, ajudava eu, vamos ver se encontramos restaurante.

Numa das ruas paralelas ao Nekar, um edifício de linhas direitas incaracterísticas, com o rés-do-chão em arcada e com degraus de acesso pelo passeio ou de regresso a este, estava um jovem, vestido com traje que devia ser regional, farda não era de certeza, duma grande beleza, que dava ou vendia, não cheguei a perceber, umas senhas para efeito igualmente desconhecido.

Um pouco adiante e onde ia já a Sofia, naquela sua passada bem conhecida, entre os copos e a dança, parecendo sempre a cair do alto dumas pernas quase sem fim, sob o último arco do tal edifício, um nómada músico, fugido de um qualquer conservatório, a solo tentava extrair das cordas duma viola, notas musicais que, por qualquer razão saiam tão desgarradas e desafinadas, que a Sofia, em português sempre, comentou:

- essa coisa está mesmo a precisar de uma afinaçãozita, n’é?!

Naquele seu tom gozão que parece fingir de inocente! É o máximo, esta Sofia! O inferno a espera, juro!

Em jeito de ajuda ao músico em baixa de forma, acrescentei: o que ele precisa é de um GPS para as cordas da viola!

- Sonora gargalhada da Sofia!

A contrastar com o quase silencioso Nekar e do pessoal que passava.

E lá fomos almoçar. Sem GPS.

Reis Caçote
Julho 2008


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