G P S - INTERACTIVO
I
Se dissesse que nunca gostei de
conduzir, não estaria a ser rigoroso; mas se disser que sempre que o fiz o fiz
mal, mesmo que uma só pessoa haja, por sinal muito má condutora, uma vez só
tenha dito que eu conduzia muito bem, estou a ser realista. Sempre conduzi mal!
Em Angola, sem carta de condução,
conduzi o Consul, do Carvalho, várias centenas de quilómetros, mas não me
recorda de uma só vez que tivesse metido a segunda velocidade sem que a caixa
das ditas sofresse e se queixasse ruidosamente! O Consul tinha só três
velocidades e a alavanca era fixada ao volante. Não sentia prazer, mas não me
queixava.
Os traumas desta falta de entusiasmo
pela condução deviam ter sua origem, sobretudo, no excessivo testemunhar de
todo o tipo de mutilações físicas e assistir às autópsias durante os primeiros
três anos, dum total de seis, que exerci funções na Instrução Preparatória no
Tribunal de Leiria.
Foi de tal modo marcante aquele
período que só mais de vinte anos depois e por recear que a carta de condução
me fizesse falta no futuro, já o desemprego se perfilava no horizonte próximo,
é que a obtive, não sem dificuldade na parte da condução. O código foi feito
sem falhas.
Mas não é acerca da minha “aventura”
como condutor que me propus escrever; é doutra, em tudo bem diferente: é sobre
o que aprendi com a Sofia, conhecida de há muitos anos e amiga de peito, assim
ela designa algumas das suas amizades.
Viajar, com ela a conduzir, é um
privilégio que tive e me diverte, desde os tempos do exausto Seat Ibiza, do
século passado, mas que ainda há cinco anos, já no séc. XXI, ofegante e pouco
firme no “andar”, percorreu o litoral alentejano, alentejando, fazendo questão
de não nos deixar a meio caminho! E não seria justo condená-lo se tal sucedesse.
Não teve direito a passaporte para
acompanhar a dona para a Alemanha e dessa afronta ele se queixou no desabafo
cansado que comigo teve no regresso do Alentejo para Lisboa, num tom triste,
mas digno.
Tive pena e isso mesmo confessei ao
Ibiza e ali nos despedimos.
II
Na Alemanha a Sofia trocou-o por WW.
E tem sido nestes, sobretudo no
último, um carocha “new age” mascarado dos primórdios da marca que, além de
privilégio, tem sido um prazer imenso, sobretudo quando as viagens foram mais
longas e decide usar o GPS, esta pequena maravilha que a tecnologia colocou, ao
dispor de quem viaja, um guia rodoviário sempre acordado, noite e dia, a
explicar, no idioma escolhido, o trajecto a seguir até ao destino indicado.
Há todo um ritual cénico, desde o
ligar do aparelho, introduzir os dados, como quem escreve uma carta e a manda
pelo correio, sem selo; segue-se o iniciar a viagem, não sem antes, num
monólogo de recriminação, a Sofia falar para a caixa quadrangular, mas que esta
não responde porque ela refila em português e a caixa sempre fala em alemão! A
menos que…entenda o português e não responda para não perder o freguês.
A Sofia vai dando, como mestra
cuidadosa que tem sido noutras áreas, naturalmente e em monólogo, uma aula ao
acompanhante, neste caso era eu e simultaneamente fazendo recomendações ao
guia, que continua a não responder, reclamando de falhas antigas e outras mais
recentes. O tipo só sabe alemão e é pena, porque um refilanço em português
teria mais…encanto, como aquele fadinho de Coimbra dos quartanistas de
medicina: “Coimbra Tem mais encanto Na hora Da despedida! Se o guia do GPS
ouvisse este poema, na voz de um Luiz Góis acompanhado à guitarra naquele tom
dolente que o caracteriza, o guia não mais guiaria em alemão.
Por agora fica
assim, um dia tratarei disso.
Dá gosto assistir a estas cenas em
silêncio, mas por dentro rio a bandeiras des…fraldadas, eu que até nem gosto de
bandeiras.
A última sessão sucedeu em Abril deste
ano santo de dois mil e oito.
Alegando que não estava muito
prazenteira(sic) e não tendo preparado nada para celebrar meu aniversário, em
Março, propunha-se tratar e pagar lá na Suábia, a minha viagem para a segunda
visita ao casal Biere e à sempre calma (demasiado) e bela HDH, o que sucedeu em
Abril como antes ficou dito.
Antecipadamente, como sempre sucedeu,
deve ter sido preparado um programa mínimo para a minha estadia, este ano mais
elaborado, por ter compromissos profissionais que no ano passado não tinha.
Logo após eu ter confirmado a reserva
de um single com pensão completa, para o período estabelecido, sugeriu aquilo
que seria a primeira parte do programa de visitas:
- Como no ano passado não visitámos
Stuttgart e o voo chega mais bem cedo, o que você acha se começássemos por lá?
Óptimo, vamos nessa! Respondi. E
aproveitamos para almoçar, um pouco mais tarde, o que para ela, Sofia, não
alteraria muito, uma vez que o almoço é uma refeição simples, hábito antigo do
povo alemão e agora usado um pouco por todo o mundo dito desenvolvido e
civilizado (é bonita esta dupla simpatia!) onde o tempo para almoço é pouco,
mal dando para engolir, mastigar nem pensar, uma frugal refeição, muitas vezes
comida “descansadamente” em pé, ao balcão de uma pastelaria ou self servisse ou
daqueles restaurantes “sempre a andar”, a que alguns dos apreciadores da boa e
abundante “mesa”, quase em vias de extinção estes pantagruélicos seres,
costumam designar por “comer à manjedoura”. Ditos!
Uns cotas desactualizados é o que eles
são! Não vou morrer de pena quando a espécie acabar!
Mas continuo a apreciar uma boa
lasanha, cozinhada no número nove da Flamenweg, comida ao fim do dia! Cozinhada
pela Sofia, pois claro!
Voltando ao antes. Chegada ao
aeroporto.
Após o abraço de boas vindas e o
sorriso aberto da Sofia fomos andando para o parque de estacionamento do
aeroporto, onde o carocha tinha sido depositado.
Já sentados no bólide…
- Se estamos em Estutt e não temos
nenhum ponto de referência seleccionado, o melhor indicar o centro! (Monólogo
entre a Sofia e o GPS ainda mudo e surdo também!) E de permeio, quase
resmungava, naquele seu tom de voz meio ensonado, uma reclamação de anterior
falha daquela pequena moldura falante.
Em movimento já e não percorridos
ainda quinhentos metros, com o guia invisível em plena oratória naquela língua
que nunca aprenderei e já a Sofia refilava:
- então qu’é isto! Está a mandar-me
para a esquerda quando a placa diz que o centro é p’rá direita!
No meu acanhamento habitual (que
raiva!) lá adiantei: segue a tua intuição e logo se verá!
Se fosse hoje, isto é, se já tivesse
recebido do Peter o primeiro postal escrito a agradecer os queijinhos de
Azeitão, intragável devido ao calor do Verão (aquela terra é um espanto! Troca
tudo no clima!), dizia eu que se fosse hoje, com o Kant mais a sua critica da
Razão Pura, metido ao barulho, eu teria sugerido à Sofia: serve-te do tratado
do Kant e verás que nunca falhas! Como não havia ainda o Kant, a coisa ficou
assim.
Virou à direita. Refilando. Sempre.
Mais umas viragens à direita e à
esquerda fomos ter a uma das pontes sobre o rio Nekar, rio que deve por ali
passar há uma data de anos, e faz ele muito bem, se eu pudesse não passava,
ficava!
Do outro lado, perto do final da
ponte, final para nós, para os que vinham em sentido oposto era o inicio, ao
mesmo tempo em que o nosso guia do céu mandava virar à esquerda nós víamos uma
placa a indicar um desvio por obras em curso, que obrigava a ir para a direita.
Logo a voz da Sofia se ouviu,
misturada com a do guia lá do além…
- E agora, o que faço? É sempre a
mesma porra!
Se não podes virar à esquerda e seguir
em frente também não, vamos para a direita e logo se vê! Não é para todos um
tão lógico raciocínio!
Mal eu sabia o que me esperava, uns
dias mais tarde, numa sessão-aula de Sudoku, em que a minha inaptidão/rejeição
ficou demonstrada, a Sofia, mestra nesta arte me acusava de eu não usar o
lógico raciocínio. E era verdade!
- Mas assim estamos a desviar-nos do
centro de Stut!
E então?! Deve haver outra placa, mais
à frente, a repor a alteração do desvio!
Tal placa não havia ou a não vimos!
- Mas já estamos a entrar em Esslin,
de que já ouvi falar, mas nunca cá vim! Vou desligar esta porra do GPS!
Boa! Não é tarde nem cedo, toca a
desligar e vamos Esslin. Não temos
compromisso algum com Stutt e eu tenho alguma desconfiança com as
grandes cidades.
- Além há um parque de estacionamento!
Vamos estacionar e dar uma vista de olhos, depois se verá! E entretanto
almoçamos.
À saída do parque, conforme íamos
andando, para cada lado que olhávamos o nosso espanto aumentava. Mais o meu,
naturalmente!
As tradicionais casas “entramadas”
pareciam estar em desafio para algum concurso de qual seria a mais bela! As
igrejas espreitavam do alto de suas torres vertiginosas e lá mais ao longe,
numa encosta, uma quinta muralhada, incluindo um palácio sóbrio, mas de
arquitectura rica em pormenores artísticos, deixou-nos de “boca aberta”!
Mas de Esselin terei oportunidade de
falar noutra ocasião, se o tempo chegar e a boa disposição também. Agora são o
GPS e a Sofia que estão na berlinda.
- Se calhar até nem perdemos com o
negócio! Apaziguava-se a Sofia. Mas aquele GPS de vez em quando prega-me a
partida.
Nã ligues, ajudava eu, vamos ver se
encontramos restaurante.
Numa das ruas paralelas ao Nekar, um
edifício de linhas direitas incaracterísticas, com o rés-do-chão em arcada e
com degraus de acesso pelo passeio ou de regresso a este, estava um jovem,
vestido com traje que devia ser regional, farda não era de certeza, duma grande
beleza, que dava ou vendia, não cheguei a perceber, umas senhas para efeito
igualmente desconhecido.
Um pouco adiante e onde ia já a Sofia,
naquela sua passada bem conhecida, entre os copos e a dança, parecendo sempre a
cair do alto dumas pernas quase sem fim, sob o último arco do tal edifício, um
nómada músico, fugido de um qualquer conservatório, a solo tentava extrair das
cordas duma viola, notas musicais que, por qualquer razão saiam tão desgarradas
e desafinadas, que a Sofia, em português sempre, comentou:
- essa coisa está mesmo a precisar de
uma afinaçãozita, n’é?!
Naquele seu tom gozão que parece
fingir de inocente! É o máximo, esta Sofia! O inferno a espera, juro!
Em jeito de ajuda ao músico em baixa
de forma, acrescentei: o que ele precisa é de um GPS para as cordas da viola!
- Sonora gargalhada da Sofia!
A contrastar com o quase silencioso
Nekar e do pessoal que passava.
E lá fomos almoçar. Sem GPS.
Reis Caçote
Julho 2008
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